esquina

Paraíso em preto-e-branco

Arcebispo, Frangão e seus amigos se despedem do inferno

Cassiano Elek Machado
ILUSTRAÇÃO: ANDRÉS SANDOVAL_2006

Se fosse cenário de um filme, o segundo andar de um prédio no centro de Belo Horizonte seria filme antigo, em preto-e-branco. Numa parede que alterna tijolos brancos e tijolos pretos, o relógio marca 17h35 – ponteiros brancos sobre fundo preto. Quatro sujeitos parrudos praticam supinos, remadas e agachamentos, revezando-se nos aparelhos de musculação em branco e preto. Outro quarteto se enfrenta no pebolim (ou totó, como chamam alguns), numa acirrada disputa do time branco contra o time preto. E uns 200 camaradas apenas circulam de um lado para outro, com seus caprichados agasalhos brancos (detalhes em preto) e sorrisos alvos de orelha a orelha.

Eles passaram o ano inteiro urrando o mesmo pancadão, que agora é reproduzido nas caixas de som (pretas, com detalhes em branco): “Ôôôôô, vamos subir, Galôôôôô, vamos subir, Galôôôôô, vamos subir, GalôôôôôôÔ!” Deu certo. O Galo – alcunha do Clube Atlético Mineiro – subiu. Já não padece o inferno da segunda divisão do futebol brasileiro.

Na sede da torcida Galoucura – um pessoal que tem orgulho em se autodefinir como “Somos sinistros” –, ninguém é suficientemente louco para defender a tese de que o time atual do Atlético é uma das grandes formações futebolísticas de todos os tempos. Nesse aspecto, os duzentos e tantos sujeitos têm a mesma opinião. Pergunte ao torcedor Arcebispo quem é o maior ídolo da torcida:

– É a torcida, uai.



“Somos a melhor torcida do mundo”, brada um jovem, cujo fiapo de bigode demonstra um esforço comovente para parecer mais velho. Com cuidado, ele e seus amigos enrolam uma bandeira comprida, que só será desenrolada cerca de 24 horas depois, em Curitiba, quando a turba desembarcar de quatro ônibus alugados numa empresa de turismo.

 

“Se houver uma camisa alvinegra pendurada no varal em dia de tempestade, o atleticano torce contra o vento”, costumava dizer o escritor e torcedor do clube Roberto Drummond. Das 35 edições do Campeonato Brasileiro, o time branco e preto só ganhou uma, o da primeira edição. Ainda assim, o Atlético era, até 2006, dono da terceira maior média histórica de público entre todos os times do Brasil. Este ano, conforme dizem, “a chapa esquentou ainda mais”. Magrelo e alto, olhos claros e nervosos, cabelos grisalhos (mescla de branco e preto), Frangão tem meio século de Atlético e é Galoucura há dezessete anos. “Nunca vi os caras ir tão forte na parada.”

Dizem que o concreto do Mineirão tremeu na tarde de 21 de outubro, quando Frangão e Arcebispo, mais Macalé, Gamboa, Bocão, MC Teco e outras 57.845 almas viram o Galo enfrentar o pequenino Avaí, de Santa Catarina. Os caras estavam realmente poderosos. Mesmo jogando a série B, levaram ao estádio o maior público do ano (até ali), entre as três divisões do Campeonato Brasileiro.

Dona Neusa, 47 anos, estava lá. Cozinheira de um restaurante em Ribeirão das Neves, na Grande BH – que faz a melhor feijoada que ela mesma já comeu –, dona Neusa balança as pernas e olha para a direita e para a esquerda, acompanhando a movimentação como se assistisse a um jogo de tênis. Está nervosa. Nesse fim de tarde, é uma das únicas mulheres na sede da TOG. Nunca viajou com uma torcida organizada. Há dois dias, pagou quinze reais e conseguiu sua carteirinha de sócia da Galoucura. Em menos de meia hora, estará numa das poltronas marrons do ônibus 250 da viação Fronteiras Turismo, para dezessete horas de bumbo, berro & bebida. Talvez, relutante, decida juntar sua voz ao coro dos fanáticos: “Viemos para agitar,/ não importa se o pau quebrar./ Em qualquer lugar,/ Belzonte, onde for,/ Galoucura é o terror!” (cantar com a melodia do Popeye).

“No dia 11 de novembro de 1984 surge uma torcida em Belo Horizonte que em pouco tempo iria tomar conta de Minas. A torcida já tinha começado com vários componentes. As autoridades ficaram loucas, chegaram até a falar em terrorismo. Surge a Galoucura. Hoje o Brasil todo conhece e respeita a TOG, Torcida Organizada Galoucura.” O historiador oficial da agremiação chama-se MC Teco. O trecho acima dá início ao CD Funk Proibidão Torcida Organizada Galoucura (10 reais), que ele compôs com outros três colegas de profissão: MC Chulapa, MC Julaine e MC Dentinho. Teco já pegou muita estrada. Já fez Espírito Santo, as Alterosas completas, chegou até Vigário Geral, no Rio. Na sede da torcida, jaqueta branca oficial, brilhantinhos nas duas orelhas, ele confessa, emocionado: “Comecei de coração quando caiu pra Segunda. Já nasci Galo, mas agora que eles mais precisam de mim botei a cara”.

 

“Porra, véio, azul e branco?” O rapaz rechonchudo que cruzou a porta gradeada da Galoucura com uma camisa do Dallas Mavericks já chegou pedindo desculpas. Atleticanos reagem ao azul como Nosferatu a um crucifixo. Com exceção de um objeto celeste pendurado numa salinha – um cabide cujos dias se encerrarão assim que alguém se der conta de sua existência –, a cor simplesmente não aparece na sede da Galoucura. Pior do que azul, só azul combinado com branco: é a heresia absoluta, as cores dos “marias”, o rival Cruzeiro. Nas partes mais singelas de Funk Proibidão, os torcedores da Raposa perdem toda a dentição. Em não mais de 15 segundos, o rapaz rechonchudo esconde as cores indecorosas embaixo de um agasalho branco e preto, estampado com a imagem de um bichinho redondo e cabeludo.

Nem mesmo Arcebispo explica a origem do mascote da torcida, semelhante a uma pulga, a um piolho ou a um ET gordinho, com boca e olhos no meio da barriga. A criatura é onipresente no QG da alvinegra mineira. Decora paredes, bumbos e ombros, em adesivos, desenhos, camisetas e dezenas de tatuagens. O pulgão está até na peça de resistência da TOG – a Capela Sistina, a Mona Lisa, a suprema obra-prima dos 32 mil galoucos: o bandeirão, cuja importância no universo afetivo da tribo é tão grande que mereceu até uma canção: “Olha o bandeirão/subindo na arquibancada./ A nossa é a própria/o resto é emendada”. Hoje o bandeirão está enrolado na segunda sala à esquerda da entrada. Amarfanhado, não parece ser “a maior bandeira do Brasil”, como afirma Macalé, especialista no assunto. Ele é o responsável por todas as bandeiras e faixas da Galoucura. E garante que ela tem 160 metros por 40 – em metros quadrados, maior do que a área mínima de um campo oficial de futebol. Macalé é uma espécie de contador da torcida; com 31 anos de vida e 19 de TOG, ele desfia sem pestanejar os números relevantes: 346 dias na Segundona, cinco anos sem ganhar título nenhum e outros 35 anos sem “títulos de expressão”. “Agora temos as primeiras visões do paraíso”, sentencia, poético. “Se ganharmos a série B, vou comemorar muito. Foi sofrido demais.” No dia 18 de novembro, o paraíso acolheu Macalé. O Atlético venceu o campeonato.

Cassiano Elek Machado

Cassiano Elek Machado foi jornalista de piauí entre 2007 e 2008.

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