esquina

Pardal, ó pá

Inventos do mar e ar no Algarve

Gian Amato
ANDRÉS SANDOVAL_2018

No primeiro domingo de março, um tornado classe F1 passou perto da oficina de Tó Quintas, em Faro, na região do Algarve, no sul de Portugal. O inventor largou as ferramentas e correu até o quintal para ver se estava tudo bem com a “máquina de terramarear”. Se tivesse sido arrastada pelos ventos de até 180 quilômetros por hora, sua obra capital poderia ter saído voando. “O estrondo do tornado parecia a decolagem de uma máquina.”

Com quase 5 metros de comprimento, a máquina de terramarear tem como base o casco de um barco, ao qual foram acopladas rodas. As hélices, sustentadas por mastros afixados desde a proa até a popa, giram à medida que a engenhoca avança, movida por um motor de scooter a gasolina. O escapamento comprido e vertical lembra uma chaminé. Na dianteira, uma enorme chapa de metal, triangular, reproduz a cabeça de um louva-a-deus – no lugar das antenas, há um guidão. “Anda na terra, mas mareia, como se diz. Ainda quero mostrá-la em hotéis, átrios e museus”, anuncia seu criador.

Após servir de cenografia em uma peça da Companhia de Teatro do Algarve, o veículo se tornou popular, tanto que voltará às ruas para os festivais de verão. Daí os cuidados redobrados que vem recebendo. Segundo Quintas, “nestes eventos, poderá haver um DJ na proa a tocar música tecno, enquanto um poeta declama Camões com a máquina em movimento”.

Prisões, nunca mais. Ao ser transportada até Coimbra, onde seria exibida em uma unidade de detenção, a entrada do edifício era baixa e o caminhão que a rebocava entalou, escancarando os portões. Foi preciso convocar os presos para desentalar o veículo. “E eu cheio de ferramentas, facas, tudo ali, disponível”, lembrou o inventor. Foi um sufoco: a prisão ficou destrancada a manhã inteira. Por sorte ninguém fugiu.



 

António Luís Quintas é magro, mede não mais que 1,70 metro, tem cabelos encaracolados e ostenta uma longa barba grisalha que não camufla seus 57 anos. Começou a inventar na infância, estimulado pela família, que dava a ele e ao irmão objetos que os meninos desmontavam para depois remontar. “Quem inventa não compra, faz. Sempre criei meus brinquedos, equipamentos e objetos, e por isso eu sou um inventor, mesmo sem ter estudado para tanto”, disse Quintas, que completou o ensino médio e por cinco anos trabalhou na Philips como montador de televisores. Hoje se sustenta como cenógrafo e com oficinas para crianças e adolescentes, além da venda dos inventos.

Ser autodidata foi sua revanche contra o regime de António de Oliveira Salazar, ditador que governou Portugal até o final dos anos 60. Canhoto, o garoto era castigado na escola pela simples associação que a palavra “esquerda” evocava. “Não podia nem falar que escrevia com a esquerda que levava uma reguada. Fui forçado a ser destro e isso acabou com a escrita para mim. Comecei a ver tudo só em 3D e fui inventar objetos que eu poderia girar, pegar, manipular e ver de todos os lados.”

Sua oficina parece um imenso hangar. Avista-se a distância a estrutura oval planejada por ele, erguida em um terreno herdado da família, onde também construiu sua casa. Logo na entrada, há um paraquedas pendurado na escada que leva ao 2º andar, como que enganchado após cair do céu. No teto e nas prateleiras presas às paredes veem-se dezenas de hélices, lonas, cestos de balões e quase uma centena de modelos de aviões elétricos de diversos tamanhos, todos inventados por ele.

Ciumenta, a cadela Sputnik surge e começa a latir pedindo a atenção do dono, que manuseia o “satélite” que criou. É um objeto redondo de ferro que projeta mais de cem tubos de PVC, iluminados em toda a sua extensão com lâmpadas que “leem” mensagens de texto enviadas pelo celular e mudam de cor a pedido do remetente. Foi a principal atração do último Natal em Faro, exposta em uma rua movimentada depois que a prefeitura soube de sua existência. “Me inspirei na mística da estrela de Natal, na corrida espacial… Mas o software quem fez foi outro, porque não mexo com este bicho aí”, ele disse, apontando para o computador da mulher, a parisiense Laura de Witte. “Meu processo é analógico. Consulto livros e a minha cabeça.”

 

Sem parar um segundo, o inventor caminha pela oficina à procura da cafeteira. Assim que a encontra, aciona um comando na pia. Uma porta se abre e a lixeira, antes escondida dentro do armário, desliza sobre um sistema de trilhos. Ele descarta a borra e vê as horas no relógio 3D em formato de seio de mulher, livremente inspirado em Salvador Dalí. Antes de tirar o fumo de rolo do bolso do casaco quadriculado, ele pega um cinzeiro promocional da extinta Varig e comenta: “Eu sempre gostei de aviões. Por isso invento tantas coisas que remetem à aviação, ao espaço.”

Em meio a carros vintage dos anos 80, como um Ford Cortina cinza e um Volvo 760 azul, saltam à vista veículos inventados por ele. A tricicleta, por exemplo, que foi projetada como um triciclo invertido, com duas rodas dianteiras sobre as quais foi fixado um bagageiro, e uma terceira atrás. Com uma cobertura de lona, parece um riquixá.

Mais adiante chama a atenção o “Sempre em Pé”, uma máquina aerodinâmica de 2 metros de altura. Sua base é uma calota de metal de cerca de 1,5 metro de diâmetro, fabricada com materiais que o inventor foi adicionando e moldando até ganhar uma forma oval e se transformar numa espécie de cápsula que toca minimamente o chão. Em seu interior oco, Quintas pregou uma cadeira que é sustentada por barras de ferro e tem o aspecto de um trono – o condutor, preso a cintos, mesmo sentado pode se movimentar para a frente, para trás e também para os lados, sem se cansar muito.

A inspiração vem também do mar. Quintas replicou a aerodinâmica de um tubarão no desenvolvimento de uma máquina submersa, que deixa visível na superfície da água apenas uma barbatana do suposto predador. Elaborada para a propaganda do salgadinho Cheetos, não foi testada na praia, por razões óbvias.

Gian Amato

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