poesia

Pelo Sul

Fabrício Corsaletti
ILUSTRAÇÃO: BANNON FU_FOTO DE JENNY WINJOY LIN

PELO SUL

em algum momento entendi que adorava
varais com roupas estendidas

no quintal de casa
nos filmes italianos
num bairro do século XVIII em Marselha

a maneira como as camisas
não se desesperam
as calças não se cansam
as cuecas e as calcinhas convivem
pacificamente
embora continuem a desejar
as meias jamais se iludem
os sutiãs são honestos
e os vestidos e as saias existem
pelo mesmo motivo que os poetas escrevem –
para que os ossos brilhem na noite



desde então
o mundo pode ter atirado
meus mortos num poço de merda
mas se topo de manhã com um varal pelas ruas
rio por dentro porque sei que no fundo
fui quase sempre amoroso e feliz

 

BRIO

meu avô quando perdeu as terras
ficou rodando com um bando de jagunços
por dois anos o interior do Pará
em busca de culpados

acabou sozinho e doente
nos fundos de um posto de gasolina
no norte do Mato Grosso
do Sul

dormia numa rede emprestada
pelo dono do restaurante
e passava os dias bebendo
numa mesa de canto

uma vez
espancou um sujeito que
sugeriu que alguém tão calado
devia ter muito o que esconder

enquanto batia sua cabeça
contra a quina do balcão
meu avô gritava
“EU TENHO BRIO”

cresci ouvindo essa história
da boca do meu pai
que foi buscá-lo assim que
descobriu seu paradeiro

alguns poemas
simplesmente me chegam por herança

 

UMA FOTO DE ARTHUR ELGORT

ela caminha numa manhã de domingo
pela calçada da Park Avenue
em julho de 1981

além dela
há apenas duas pessoas no mundo
o recepcionista de um hotel
que a admira encostado
na rabeira de um carro
e o fotógrafo que a acompanha
alguns passos atrás

o amante cuja casa deixou há pouco
também é presença
mas incorporada à sombra das árvores
à nuca muito branca
à alça caída do vestido
aos penosos saltos de festa –

eu ainda não tinha três anos
e ela era o centro de uma epifania –

ela é a mulher que acabou de acordar
ou que ainda não dormiu
em direção ao café com torradas
de uma mesa qualquer
a várias quadras dali

seu andar é sem pressa
o pulso esquerdo flutua
com braceletes de prata
a cabeça está vagamente tombada
para a frente

e eu não preciso mirar seu rosto
para saber que sorri

 

CANÇÃO DAS FRUTAS DOS BOTEQUINS

as frutas dos botequins
do centro de São Paulo
penduradas em barras de alumínio
sobre os balcões
onde me apoio
conhecem a minha tristeza
como jamais conhecerão
as minhas namoradas
os meus amigos
os meus leitores

apodrecem aos olhos de todos
e por mais coloridas
e suculentas que sejam
está na cara que já se cansaram
desta vida

apenas esperam
que o primeiro idiota
peça uma vitamina –
cheio de fé no futuro
ou uma salada de frutas –
preparando a próxima cagada
para se deixarem fatiar
triturar
sem remorso
até o fim

 

BUENOS AIRES, 2015

estou ficando cada vez mais
parecido com os vira-latas
da América do Sul
eles também devem
sentir dores insuportáveis
eles também devem
amar uma condessa indiferente
e duvido que tenham dinheiro
sobrando ou que lhes
passe pela cabeça qualquer
ideia de nacionalidade

Fabrício Corsaletti

É poeta e tradutor. Publicou Esquimó e Baladas pela Companhia das Letras

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