esquina

Pequeno é quanto?

A general, a bomba e a “ameaça chinesa”

Claudia Antunes
ILUSTRAÇÃO: ANDRÉS SANDOVAL_2013

Com as pernas cuidadosamente dobradas, a general chinesa acomodou-se em uma das quatro poltronas dispostas no palco do anfiteatro do edifício Ronald Reagan, uma construção no estilo neoclássico dos prédios públicos de Washington. De cabelos curtos e óculos sóbrios, ela não chegava a ser bonita como a atriz Gong Li, mas o tailleur vinho lhe caía bem. À sua esquerda sentaram-se uma autoridade americana e um acadêmico e ex-deputado russo. À direita, o moderador do debate.

“Gostaria de dizer, para começar, que me sinto um pouco fora do lugar sentada aqui, ao lado de colegas dos Estados Unidos e da Rússia, as duas maiores potências nucleares do mundo. Na verdade, não sei por que estou aqui”, provocou Yao Yunzhu, abrindo um sorriso largo.

O público que lotava as 650 cadeiras do teatro soltou risadinhas nervosas. Eram homens de terno e mulheres em trajes executivos, “profissionais de segurança nacional” de 64 países que, em abril, participavam de uma conferência sobre política nuclear do Fundo Carnegie para a Paz Internacional. Todos cientes da especulação de que o arsenal atômico chinês já não seria mais condizente com a modéstia charmosamente professada pela general Yunzhu.

A China não revela quantas ogivas tem, e as estimativas convencionais são de que disponha de pouco menos de 300 artefatos. Em contraste, Estados Unidos e Rússia conservam, juntos, mais de 90% das aproximadamente 18 mil armas nucleares do mundo. Há quatro anos, Barack Obama fez aquele discurso bonito sobre o fim da bomba, mas o desarmamento é um jogo de empurra infinito – e a ascensão da China é a desculpa mais recente para prolongá-lo.

Em Washington, o alarme sobre a “ameaça chinesa” é estridente. No mês passado, o Pentágono, que treina ele próprio equipes especializadas em ciberataques, acusou o governo em Pequim de ciberespionagem. Antes disso, a revelação de que a China construiu túneis sob montanhas para abrigar suas bombas deu origem a um badalado estudo acadêmico, segundo o qual o país já teria 3 mil mísseis nucleares.

“Quando ouço isso, que a China escondeu 3 mil ogivas, não consigo evitar o riso”, comentou Yunzhu, com a voz suave. “Só posso achar graça de tamanha imaginação, de essa fantasia ser levada a sério. Nós temos túneis, os Estados Unidos têm túneis e a Rússia também. Nossos túneis são para aumentar a proteção de um arsenal muito pequeno”, enfatizou.

A China testou sua primeira bomba em 1964. Desde então, adotou o princípio conhecido como no first use, isto é, afirma que só usaria a arma de destruição em massa para retaliar um eventual ataque também atômico. É justamente para evitar que essa agressão aconteça que Pequim não informa quantas bombas tem, insistiu a general.

“Como seu arsenal é muito pequeno, a China depende mais da incerteza, e menos da transparência, para dissuadir outros países de atacá-la”, disse ela, agitando o indicadorzinho na frente do queixo.

Até pouco tempo atrás, a China não tinha muitos porta-vozes com a desenvoltura da general Yunzhu. Mas a potência asiática, adepta sem culpa da reciclagem de ideias, técnicas e grifes de fora, passou a investir na formação de quadros capazes de competir em performance pública com os egressos dos disputadíssimos cursinhos de liderança das mais renomadas universidades ocidentais.

Yao Yunzhu valeu um investimento alto. Desde os anos 70 no Exército de Libertação Popular, ela é doutora pela Academia de Ciência Militar chinesa, onde dirige o Centro Sino-Americano de Relações em Defesa. Nos anos 90, passou um ano na Escola de Estudos Orientais e Africanos da Universidade de Londres. Em 2009, foi pesquisadora de Harvard. Yunzhu é, se ainda resta alguma dúvida, comunista de carteirinha – numa foto no penúltimo congresso do PC, em 2007, ela enverga o uniforme cheio de medalhas.

A general se especializou num humor à inglesa, cheio de autoironia. Pergunte-lhe a idade e ela se fingirá de ofendida antes de revelar os 59 anos (que parecem 45).

No debate, uma funcionária do Pentágono que estava na plateia indagou como a China pretende se tornar uma superpotência militar, se diz que não buscará a paridade nuclear com os Estados Unidos. “A China não pretende se tornar uma superpotência militar”, disse Yunzhu, franzindo a testa como se a pergunta fosse absurda.

O mediador tentou ajudar: “As pessoas não acreditam. Nesta cidade o pessoal acha que os Estados Unidos estão caindo, a China está subindo, e que isso [tornar-se uma potência militar] é inevitável.”

A general soltou uma gargalhada: “A China tem uma grande capacidade, e pode produzir armas nucleares como produz roupas, sapatos, gravatas, tudo. Mas a China tem fabricado roupas e sapatos há vinte anos, e seu arsenal continua pequeno.”

“Mas pequeno é quanto?”, questionou o debatedor russo, Alexei Arbatov, tentando dar um xeque-mate. Yunzhu não entrou na cilada: “Pequeno é quanto? O mínimo necessário para revidar qualquer ataque nuclear contra a China.”

 

Ela não estava rindo, porém, e deixou uma ameaça no ar quando se disse preocupada com a intenção dos Estados Unidos de instalar novos sistemas de defesa contra mísseis na Ásia, alegando que precisam proteger o Japão e a Coreia do Sul, seus aliados, da Coreia do Norte.

“Temos um arsenal muito pequeno– não, não vou mesmo lhes contar o quão pequeno ele é –, então qualquer sistema desse tipo aumenta as dificuldades para a capacidade de retaliação chinesa. E a China tem que levar isso em conta ao planejar o tamanho do seu arsenal.”

Com ânimo conciliador, o russo Arbatov então sugeriu que, em troca da maior transparência chinesa, os Estados Unidos negociem não implantar os novos sistemas. “Nem pensar!”, cortou a americana Rose Gottemoeller, subsecretária de Obama para o Controle de Armas, em sua mais curta e incisiva intervenção na discussão.

“Não?!”, reagiu Arbatov, simulando estupefação. “Então a China vai se juntar a nós.”

Claudia Antunes

Claudia Antunes é jornalista. Foi editora de piauí entre 2012 e 2015

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