esquina

A persistência da água

O primeiro longa-metragem dirigido pela atriz Djin Sganzerla

Carlos Adriano
ANDRÉS SANDOVAL_2020

“Sou muito conduzida pelo invisível. Alguns veem e outros não. O invisível me é completamente visível. Eu sinto e vivo, ele é real.” Assim a atriz Djin Sganzerla explica a costura misteriosa do primeiro longa-metragem dirigido por ela, Mulher Oceano, na sua definição “um processo mágico, com o feitiço dos acasos, encontros e obstáculos que se transformam em amor”.

De novembro de 2018 a fevereiro de 2020, Djin Sganzerla filmou nas águas do Japão (Osatsu) e do Brasil (Rio de Janeiro e Salvador) as histórias de duas personagens de nomes palíndromos, ambas interpretadas por ela: Hannah e Ana. A primeira é uma escritora que viaja a Tóquio para tentar escrever um romance; a outra, uma nadadora que vai competir numa travessia em mar aberto no Rio. A artista e a atleta ouvem o mesmo chamado: “Mar me quer.” E, em braçadas paralelas, confrontam desafios que vazam por outras comportas de suas vidas.

No leme, uma diretora de 43 anos, comprometida com todas as etapas do filme. Além de dirigir e atuar, Djin Sganzerla é coautora do roteiro e produtora. “Tive uma necessidade muito forte de ter o pensamento final sobre a obra”, ela diz. O filme custou cerca de 500 mil reais e foi produzido sem leis de incentivo, financiado em parte por um amigo escritor, empresário e atleta, Marcos Arzua. Exibido no Porto Femme International Film Festival em outubro, Mulher Oceano foi eleito o melhor longa da competição. Chegou aos cinemas em novembro passado e, em dezembro, aos serviços de streaming Now e Vivo. A partir de 14 deste mês, também estará no Amazon Prime Video.

O filme navega na contramão do estado raivoso que grassa nas produções atuais. Atraída pela cultura oriental, Djin Sganzerla indica os diretores Apichatpong Weerasethakul, tailandês, e Naomi Kawase, japonesa, como próximos de sua sensibilidade de “integração com a natureza”. Apesar do tom contemplativo de Mulher Oceano, ela recusa o “conformismo” e a aceitação passiva – prefere “encarar a vida através de resistência e disciplina”. Compara: “É como a persistência da água, que, na cachoeira, bate até que molde a pedra. É uma força de transformação que não faz estardalhaço.”



Para interpretar a mãe da escritora, a diretora convidou Lucélia Santos. Para fazer o pai da nadadora, Stênio Garcia, que em 1969 contracenou com sua mãe, a atriz Helena Ignez, em A Mulher de Todos, um dos principais filmes do diretor Rogério Sganzerla, seu pai. “Quando se é filha de feras, você tem que achar um meio de sobreviver na selva”, ela diz. “A potência de ver o que fizeram é sempre reveladora e estimulante. O que sempre ouvi deles e carrego em mim é a palavra liberdade.”

 

Djin Sganzerla nasceu no Rio de Janeiro e mora em São Paulo. Era para se chamar Maria. Na hora do registro, seu pai trocou por Djin, nome proveniente da mitologia persa. “Djins são seres que não têm corpo nem forma. São fadas. Seres marotos, que ficam no ar.”

Ela conta que quis sair o tempo todo das asas dos pais. “O que não significava não estar o tempo todo com eles”, ressalta. Desistiu de ser psicóloga ao estrear profissionalmente como atriz em 1996 no grupo Os Fodidos Privilegiados, de Antônio Abujamra, com a peça O Que é Bom em Segredo, é Melhor em Público. Alçou voo para São Paulo (trabalhou com Antunes Filho) e Londres, onde fez curso de interpretação de 2001 a 2003.

Voltou ao Brasil ao receber o telefonema da mãe contando sobre o tumor no cérebro de Rogério Sganzerla, que morreu em 2004. Quando ela era criança, seu pai armava “tendas do inconsciente”, pendurando lençóis nas portas para projetar imagens. “De uma viagem, ele trouxe binóculos por onde passavam histórias quase dentro dos olhos”, recorda. “A imagem que tenho dele é a de um cinema ambulante, alguém que o tempo todo criava imagens.”

Sobre a mãe, de 81 anos, ela diz: “Foi sempre minha fonte de inspiração, uma estrela de luz poderosa e, ao mesmo tempo, a pessoa com quem falo três vezes ao dia, divido o palco e vou ao cinema. É meu farol e minha bichinha.”

 

Mulher Oceano ficou pronto em fins de julho de 2020. Em 14 do mesmo mês, nasceu Luna, a primeira filha de Djin Sganzerla. O pai é André Guerreiro Lopes, ator, diretor de teatro e fotógrafo do filme.

Um flashback. Em 8 de dezembro de 2019, ela foi a uma celebração num terreiro em São Paulo. A certa altura, uma amiga atriz incorporou um orixá e pôs a mão em seu ventre, em nome de Oxum (que cuida da gestação). Dias depois, Djin Sganzerla descobriu que estava grávida.

No longa-metragem, a ficção deságua no documentário, como em uma cena com as amas (pronuncia-se “amás”) japonesas, mulheres mergulhadoras de tradição ancestral, e em outra, feita durante a Festa de Iemanjá, em Salvador, em 2 de fevereiro de 2020.

Filha de Oxum e Iemanjá, Djin Sganzerla quis fazer a cena no dia exato da festa. Na manhã da filmagem, em meio à multidão, uma mãe de santo a chamou para uma benção, sem notar a câmera. Colocou a mão em sua barriga e anunciou que a diretora teria uma menina que lhe traria “luz e felicidade”. “Meu filme é todo cheio de histórias assim, mágicas”, ela diz. “Luna é o maior presente que a vida me deu e é consequência disso tudo: o portal de uma travessia.”

Para Djin Sganzerla, a maternidade trouxe um olhar generoso, ligado à percepção do mundo, da vida e da arte. “É uma sensação de plenitude sobre o processo criativo, que dá e rouba, quase uma imagem da deusa Kali, que se alimenta da morte, mas gera vida”, reflete. “Desse lugar tão profundo meu, que era a vontade de dirigir, abriu-se espaço para a vontade de ser mãe, que eu não tinha naquele momento.”

Agora, além de zelar por Luna, ela cuida da sua volta ao teatro, assim que a Covid permitir, com dois trabalhos: a reestreia de Insônia: Titus Macbeth, baseada em Shakespeare, e uma peça com poemas de Garcia Lorca. Também planeja dois novos filmes, ainda guardados em segredo. Um será realizado em Portugal, a convite do patrocinador de Mulher Oceano. O outro, na Bahia. Contará a história de uma “caçadora de eclipses”.

Carlos Adriano