esquina

Personal peregrino

Não cumpriu promessa? Seus problemas acabaram

Cristina Tardáguila
ILUSTRAÇÃO: ANDRÉS SANDOVAL_2007

Para alívio daqueles que, tendo recebido as graças pedidas, não honraram sua parte do trato, já é possível terceirizar pagamento de promessa. Basta abrir a carteira, contratar um peregrino profissional e despachá-lo para acertar as pendências com o Divino.

Em Portugal, o angolano Carlos Gil, de 42 anos, é programador de informática e personal peregrino. Por 2 500 euros, topa sair do conforto do lar – uma casa de classe média alta em Cascais – e peregrinar sozinho por dias a fio até o santuário católico de predileção do penitente faltoso. O pagamento não pode ser facilitado. Deve chegar integralmente antes de Gil dar o primeiro passo, por transferência bancária ou cartão de crédito. O cliente escolhe. São os recursos do moderno sistema financeiro a serviço de uma profissão que vem da Idade Média.

Desde 2003, quando estreou no ramo lançando-se na internet, a maioria de seus clientes o envia ao santuário mariano de Fátima. O santuário fica a 160 quilômetros de distância da porta da casa de Gil. “Na verdade, são uns 50 mil passos por dia”, corrige o peregrino, que costuma demorar sete dias para vencer o trajeto de ida.

Cada peregrinação só pode corresponder a uma única promessa e a um único cliente. “Não aceito fazer pacotes”, Gil assevera. Discrição absoluta também faz parte do negócio. O peregrino tem por regra jamais perguntar qual foi a graça recebida nem a razão pela qual o fiel descumpriu o prometido. Gil faz questão de esclarecer que a penitência é do outro, não dele. “Não me deixo ferir nem entro em sofrimento. Para mim, peregrinar é uma coisa, pagar penitência é outra. Se me doem os pés ou os joelhos, eu paro, me sento, tiro as botas, estico os pés à sombra e descanso o tempo que for necessário. Minhas peregrinações são de reflexão”, explica. “Se me entregar ao padecimento, a reflexão é prejudicada.”



Por escolha e por conta própria, ele faz o caminho contrário sempre a pé. “Gosto de sair como peregrino e de voltar como peregrino. Creio ser o único que peregrina para casa também”, diz, rindo. Gil gasta em média 500 euros para chegar a Fátima. A volta é mais barata. “Faço o trajeto bem mais rápido, em apenas cinco dias.” Feitas as contas, Gil embolsa pouco menos de 2 mil euros por peregrinação.

Em suas andanças, o angolano leva somente o cajado ou bordão que pega emprestado com o pai, de 82 anos, e uma pequena mochila. “O bordão é para quando as coisas ficam azedas; é a certeza de que meu pai está comigo sempre. Na mochila, levo dois pares de meias, duas cuecas, uma camiseta, uma camisa de manga longa, uma capa de chuva e um chapéu, além de meio litro de água e um pacote de biscoitos, o que me dá uma autonomia de duas horas.” Calça botas alemãs da marca Meindl, compradas especialmente para ele por um amigo diplomata em mercados da Inglaterra.

Gil viaja com cerca de 300 euros na carteira, um cartão de crédito para eventualidades, documento de identidade e, claro, um rolo de papel higiênico. Carrega um celular, mas o aparelho fica desligado. “Só ligo o telemóvel à noite, para falar com minha mulher e dizer que está tudo bem.” iPod, nem pensar. “Gosto de ir em silêncio, em estado de graça.”

Começa a andar sem ter nada programado, e raramente repete os lugares onde se hospeda ou faz uma refeição. “Quando estou cansado ou com fome, peço ajuda a um desconhecido para encontrar um local onde possa comer e dormir. Vou aonde quer que essa pessoa me mande. Se ela me indicar um hotel cinco estrelas, eu pago”, diz. Como prova material da peregrinação cumprida, envia a cada cliente um pequeno livro que chama de “certificado”. Nesse documento, reúne carimbos e assinaturas recolhidas em estabelecimentos ao longo do caminho trilhado.

Carlos Gil está longe de ser um atleta. Apesar dos quase 3 mil quilômetros que andou nos últimos três anos, quase sete vezes a distância entre Rio e São Paulo, ele se confessa preguiçoso. Não faz nenhum tipo de ginástica ou esporte. Na cidade, chega a pegar o carro para percorrer uma distância de 500 metros.

Gil não revela de jeito nenhum quantas pessoas já atendeu. Trata esses contratos como segredos de confessionário. Apenas admite que cobra muito caro – seis vezes o salário mínimo português – e que seus clientes são verdadeiramente abastados. “Tenho a melhor profissão do mundo!”, exulta. Considera sua vida um luxo. Pagando penas alheias, Gil já foi ao santuário angolano de Muxima, a Santiago de Compostela, na Espanha, e a Machu Picchu, no Peru. “São trabalhos bem mais caros, logo, mais raros, mas existem. Estou à espera de um cliente que queira me mandar a Nossa Senhora Aparecida, no Brasil.”

Gil passa ao largo de questões teológicas. “Não entro na discussão sobre certo e errado na maneira de pagar uma promessa. Não gosto de julgar ninguém.” Mas certamente ficaria com a pulga atrás da orelha se conhecesse a doutrina da Igreja que dispõe sobre a matéria. A razão é simples: não existe doutrina nenhuma. Segundo o padre e teólogo Jesús Hortal Sánchez, reitor da Pontifícia Universidade Católica do Rio, não há punição prevista para o fiel que não cumpre sua palavra com Deus.

Carlos Gil, ele próprio, não faz promessas. Nunca fez, de nenhum tipo. “Tive uma educação católica que me levou para outro lado. Em casa, fui ensinado a agradecer e a nunca propor trocas.” Ainda assim, em nome dos negócios, deve torcer para que as trocas com o Altíssimo continuem a ser propostas e, felizmente, descumpridas.

Cristina Tardáguila

Cristina Tardáguila é diretora da Agência Lupa e autora do livro A arte do descaso (Intrínseca)

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