esquina

Pessoa, uma paixão

O livreiro norueguês de um livro só

Ricardo Viel
ILUSTRAÇÃO: ANDRÉS SANDOVAL_2014

Era uma quarta-feira do começo de julho. No ainda tímido verão de Lisboa, Ana Maria Calvas caminhava pelo Centro. Marcara um encontro às 11 horas ao lado da estátua de Fernando Pessoa, em frente ao café A Brasileira, no Chiado. Já estava bem perto, ia quase meia hora adiantada, e por isso se deteve na altura do número 11 da rua Anchieta, ao avistar uma pequena aglomeração em torno de um sujeito muito alto, louro, de costeletas e cabelos generosos. Perguntou o motivo das câmeras e microfones a uma moça, e de repente viu-se dentro da loja, cercada de livros e diante do homem que dava entrevistas. “Welcome”, disse-lhe o sujeito, que vestia uma túnica azulada espetada por um pin com a cara de Pessoa. Ana Maria avisou que não entendia inglês, mas alguém se dispôs a servir de intérprete.

“Você é minha primeira cliente”, prosseguiu, sempre sorridente, o balconista. “Aceita uma sugestão?”, e antes da resposta apontou para um dos cerca de 300 livros dispostos nas estantes, todos iguais, com uma capa branca que exibia um chapéu estilizado e o título: Livro do Desassossego. “Este aqui”, disse, arrancando risadas dos presentes. A cliente sorriu – uns segundos depois, diga-se de passagem, por culpa do atraso da tradução. “Pensando melhor, acho que recomendo este”, continuou o comerciante, e entregou-lhe outro exemplar, idêntico ao primeiro e a todos os demais.

Antes de ir embora, Ana Maria ainda posou com o livro, já devidamente assinado por Christian Kjelstrup (pronuncia-se “cheustrup”), o livreiro showman. Durante os cinco dias que passou em Lisboa, a rotina do editor e tradutor norueguês foi essa, a de receber de braços abertos e câmera na mão as centenas de visitantes da sua Livraria do Desassossego. Além de vender apenas um livro (e de uma só editora), Kjelstrup conversava com quem por ali passasse, contava histórias e fazia amigos.

Há cerca de quinze anos, o nórdico de 40 anos, hoje pai de três filhos, começou a desenvolver uma paixão pelo poeta falecido em 1935. Ainda estudante de literatura, deparou-se com o texto que mudaria sua vida. “O Livro do Desassossego não é um livro comum, com enredo, conflito e resolução. Fala de sensações, experiências, da vida como ela é, sem subterfúgios”, justifica. A partir daquele momento investiu-se da missão de tornar Pessoa conhecido na Noruega. Começou pelos amigos, depois criou um grupo de leitura, e anos mais tarde teve a ideia de levar o poeta a desconhecidos.



 

No tempo livre entre suas traduções e críticas literárias, Kjelstrup era uma espécie de “Testemunha de Pessoa”. Batia de porta em porta, oferecendo trechos de sua leitura preferida. “Queria chacoalhar um pouco as coisas, mudar a maneira como a literatura chega às pessoas.” O resultado quase sempre era positivo. “Alguns achavam que eu estava louco, mas em geral as pessoas se mostravam receptivas”, conta. Lia um trecho e, se o interlocutor demonstrasse interesse, apresentava o autor. “Lembro em particular de uma sexta-feira. Fui recebido por um casal que estava abrindo umas cervejas, se preparando para ir à discoteca. Deixaram-me entrar e passamos a noite toda conversando sobre Pessoa e literatura.”

Num domingo, ao cruzar com torcedores caminhando em direção ao estádio, o norueguês teve uma epifania. Telefonou a um clube local e conseguiu o contato de um fabricante de cachecóis na Turquia. Encomendou 100 deles – em vez do nome de um time, a palavra PESSOA, gravada em grandes letras – e os vendeu com facilidade.

O passo seguinte foi a livraria efêmera. Um dia, passeando por Oslo, Kjelstrup viu uma placa de ALUGA-SE num pequeno estabelecimento. Telefonou e perguntou se podia ter o espaço por apenas uma semana. Entre 27 de março e 2 de abril de 2014, as portas da Livraria do Desassossego foram abertas para vender apenas um livro, a tradução norueguesa do Livro do Desassossego. No primeiro dia foram vendidos cinquenta exemplares. No segundo, com a ajuda dos jornais e da televisão, 250. No dia seguinte, recebeu a visita dos príncipes e despachou mais de 500 volumes. No total, espalhou pela cidade uns 1 500 exemplares da obra e fez dela um best-seller. Uma editora decidiu publicar mais 500 exemplares e destacou na capa: “O melhor livro do mundo.” O autor da frase? Christian Kjelstrup, editor.

 

A notícia da atípica livraria chegou a Portugal, e a Casa Fernando Pessoa chamou o editor para contar sua experiência. Foi quando ele teve a ideia de procurar em Lisboa um local para abrir sua loja fugaz. “Cheguei a temer pela reação das pessoas e a me perguntar se tinha o direito de tentar promover a obra de Pessoa em sua própria terra, mas a resposta foi maravilhosa, todos foram muito calorosos comigo.”

Em termos comerciais, o projeto “alfacinha” ficou aquém do de Oslo. Foram cerca de 250 livros vendidos, mas a iniciativa teve impacto midiático e Kjelstrup, graças também a seu carisma, ficou conhecido na cidade. Durante a semana em que esteve em Lisboa, o norueguês conheceu a agitada noite da capital, foi à praia e fez a via-crúcis de Pessoa: visitou sua tumba, os bares e cafés que frequentava, os locais onde trabalhou e viveu, o bondinho que sempre pegava.

Estrela principal de uma homenagem organizada na Casa Pessoa, o livreiro norueguês atraiu cerca de 300 interessados, alguns deles especialistas na obra do poeta. E arrancou aplausos diversas vezes, como quando contou que um repórter quis saber o que perguntaria a Pessoa caso o encontrasse pelas ruas da cidade. “Acho que não perguntaria nada, eu apenas o convidaria para tomar um absinto no Martinho da Arcada.” O encontro no mítico café não aconteceu, mas o editor pode dizer que dormiu com o poeta, ou quase. Foi convidado para passar uma noite no quarto que reproduz a última casa em que ele morou. “Me lembro de fechar os olhos e aparecerem muitos rostos. Seriam os heterônimos? As pessoas que conheci em Portugal? Alucinações etílicas? Não sei”, contou.

Ricardo Viel

Ricardo Viel é jornalista brasileiro radicado em Salamanca.

Leia também

Últimas Mais Lidas

Vacina sim, mas qual?

O uso disseminado de máscaras pode expor a população a quantidades minúsculas de Sars-CoV-2 e aumentar a proporção de casos assintomáticos de Covid-19?

Onde há fumaça…

… há o Pantanal em chamas, um vírus disseminado e o abandono da cultura – as marcas do governo do capitão

A primeira onça

Biólogo relata dia a dia de expedição para rastrear felinos e mergulha em região do Pantanal onde a ameaça do fogo convive com um pedaço de natureza que ainda resiste

Vacina a jato

Contra a Covid-19, empresas e OMS analisam liberar produto com 60% de eficácia, mas pesquisadores debatem riscos éticos e sanitários

A Bíblia e a bala

Nas polícias, setores evangélicos pentecostais dão sustentação às posições mais radicais do bolsonarismo

No meio do fogo, entre o atraso e o retardante

Diante do avanço das queimadas no Pantanal, governo de Mato Grosso apela a produto químico de efeitos ainda desconhecidos no meio ambiente após longo tempo de uso

Mais textos
1

R$ 0,46 no tanque dos outros

Agora, caminhoneiros grevistas usam WhatsApp para defender queda da gasolina, de Temer e da democracia

2

A vida e a morte de uma voz inconformada

Os últimos momentos de Marielle Franco, a vereadora do PSOL executada no meio da rua no Rio de Janeiro sob intervenção

4

Ray Kurzweil e o mundo que nos espera

Uma entrevista com o inventor e futurólogo americano

5

90

7

Cientistas em rede

Em tempos de web 2.0, os pesquisadores interessados em interagir com colegas de todo o mundo com quem dividem os mesmos interesses acadêmicos têm à sua disposição uma série de plataformas para trocar informações sobre novos estudos e congressos. O ecossistema das redes sociais para cientistas está cada vez mais diverso. Entre serviços parecidos com o Facebook e portais para o compartilhamento de arquivos, tem opções para todos os gostos – inclusive para quem busca uma alma gêmea num laboratório.

9

Bolsonaro não queria sair da Santa Casa

A história de como a família do presidenciável dispensou o Sírio-Libanês, contrariou a vontade do candidato de ficar em Juiz de Fora e aceitou a proposta do tesoureiro do PSL de levá-lo para o Einstein

10

Military Fashion Week

Nelson Jobim übersexy e hiperbélico no the piauí herald