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Caroços de azeitona querem voar longe em 2016

Mariana Filgueiras
ILUSTRAÇÃO: ANDRÉS SANDOVAL

O próximo dia 3 de janeiro será inesquecível para Pedro Ramos, policial da guarda costeira de Cieza, município no sudeste da Espanha com pouco mais de 35 mil habitantes. Em cerimônia restrita a pouquíssimos convidados, a realizar-se na ermida de São Bartolomeu, Pedro será sagrado Caballero Predilecto da Ordem dos Cavaleiros Lançadores de Caroços de Azeitona, com direito a batismo de azeite e juramento sob um ramo de oliveira. A façanha de Pedro foi bater o recorde mundial no XVI Campeonato de Lançamento de Caroços de Azeitona, ocorrido no último dia 27 de agosto, quando disputou o primeiro lugar com outros 199 competidores. Não é pouca coisa.

Tomando um fôlego comprido, desses que sugam todo o ar circundante – Pedro é submarinista –, o seu caroço foi cuspido para o alto, ricocheteou na pista duas vezes e, ao parar, alcançou a prodigiosa marca de 21,43 metros. Os espectadores souberam ali e na hora que haviam sido testemunhas da história. Até então, o título pertencia ao funcionário público Mariano Martínez, que no longínquo ano de 1998 atingira a distância de 21,32 metros. Novo ídolo da comunidade ciezana, Pedro será o Caballero Predilecto até que outro mortal supere o seu feito.

Quem outorga a nobre honraria é a federação oficial do esporte, a Lanza-huesos (“Lança-caroços”), ou L-H, registrada legalmente em 1995. Desde então, o campeonato ocorre toda última sexta-feira de agosto, no passeio público da cidade. Com o apoio da prefeitura, rádios locais e uma marca de cerveja, o evento atrai cerca de 20 mil pessoas a cada ano. Tamanho é o interesse que tiveram de abrir um certame infantil e limitar as inscrições de adultos. Um dos 14 caballeros diretores da irmandade, Antonio Santos comemora o sucesso: “Nunca registramos nenhum engasgamento.” É para se orgulhar mesmo.

Como o esporte é praticado com a boca, “os engasgos são de total responsabilidade do participante”, diz o regulamento. Bem como os acidentes com “dentes postiços ou dentaduras”, previstos pela regra nº 13. O competidor deve postar-se junto à marca de lançamento, um pé à frente do outro. Tomar impulso está proibido, bem como utilizar-se de canudos, o que é bem razoável. As azeitonas devem ser típicas de Cieza. Sobre a transformação do fruto em caroço, o estatuto é benevolente: “Caso o participante não goste de azeitonas, pode nomear outra pessoa para deixar o caroço limpo antes do arremesso.” Por fim, uma advertência: “Serão nulos os lançamentos em que o caroço acerte a perna de alguém.”

 

Era o 12º ano consecutivo em que Pedro competia, e naquela manhã de agosto já sabia o regimento de cor. Acordou mais cedo para treinar na garagem de casa. Queria pelo menos repetir o desempenho de 2004 ou de 2009, quando ficou em segundo lugar. Para tal, adotaria a técnica “pescoço de peru”: depois de uma longa inspiração, o arremesso seria feito em um brusco movimento de pescoço para a frente, “tal qual um pescoço de peru”. A técnica do “tiro estampido”, na qual o caroço é posicionado no tubo formado pelos lábios, ainda é a mais comum, apesar de não fazer um campeão desde 1997.

Fazia 40 graus quando Pedro saiu de casa, às 11h30, para fazer a inscrição – a competição começaria às 13 horas. Foi o 73º a se inscrever e, pelos seus cálculos, cuspiria por volta das 15 horas. Com sorte, haveria um pouco mais de vento. Deu certo. “Mal pude acreditar quando o caroço passou da linha dos 22 metros. Fiquei muito feliz! Abracei minha mulher e ouvi todo mundo gritando ‘campeón, campeón!’”, emociona-se o guarda submarinista, único recordista mundial da família.

 

Sobre o “mundial”, explica-se: o campeonato organizado pela Lanza-huesos em Cieza já teve demonstrações públicas simultâneas em Nova York, Pequim, Bruxelas e Munique. “Criamos um circuito internacional, como a Fórmula 1 e o tênis. Qualquer cidade do mundo pode nos contactar para organizar um campeonato em que se possa bater o recorde mundial”, explica Antonio Santos.

Na França existe até uma federação concorrente. Inventada em 2008 pelo estudante de publicidade Alexandre Salcedo, de 25 anos, em Bordeaux, a Fédération Française de Lancer de Noyau d’Olive (ou FFLNO) é o caroço da empada da matriz espanhola. O jovem Alexandre teve a ideia num dia de férias, vendo TV. Morreu de rir com um esquete do comediante francês Elie Semoun, em que o ator simulava competir contra si mesmo num campeonato de lançamento de caroços de azeitona. Juntou uns amigos, marcou o primeiro páreo, fez um site, batizou a associação e conseguiu até patrocínio da marca de azeitonas Tramier. Desde então, a FFLNO tem sido a principal atração em festivais de azeite trufado em Bayonne.

A tradicional Lanza-huesos não reconhece os recordes da novata, tampouco aprova a venda on-line de camisetas, cuecas e babadores de neném com a logomarca “parecidíssima” à da irmandade ciezana. “São apenas uns moleques franceses”, resmunga Antonio Santos. Mas o jovem Salcedo tem a Revolução Francesa a seu favor, no concernente ao direito de associar-se livremente em seu país (a “Federação Francesa de Lançamento de Chinelos” que o diga). Está despreocupado.

Os objetivos da Lanza-huesos vão bem mais longe. Passam dos vinte e poucos metros do recorde mundial e chegam à sede do COI, o Comitê Olímpico Internacional, em Lausanne, Suíça. No dia 1º de maio de 2007 a federação enviou uma carta ao comitê solicitando sua inclusão como esporte de exibição nas Olimpíadas de Pequim de 2008. Para surpresa de todos, receberam uma resposta do COI. A carta, assinada pelo diretor de esportes Christophe Dubi, explicava que seria preciso criar uma federação internacional do esporte para levarem o trâmite adiante. Os caballeros comemoraram – não era tão impossível assim. Para criar a Federación Internacional de Lanzamiento de Huesos de Oliva, a FILHO, seria preciso provar que o esporte é praticado regularmente em três países. Além da Espanha e da França, a Lanza-huesos acredita que a Bélgica tenha potencial para abraçar a causa. “Fizemos uma demonstração em Bruxelas, em 2009, um sucesso”, conta Santos, entusiasmadíssimo com a possibilidade de cuspir caroços de azeitona nas terras da rainha, em 2012.



Mariana Filgueiras

Mariana Filgueiras é jornalista.

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