viagem

Phaic Tan, um assalto aos sentidos

O país-fetiche do turista descolado, que não se importa com movimentos peristálticos bruscos

Santo Cilauro, Tom Gleisner e Rob Sitch

HISTÓRIA
Durante muito tempo, o nome Phaic Tan esteve associado a atrocidades, miséria e massacres, que, combinados com a péssima qualidade das freeshops, limitavam consideravelmente o número de turistas, e fez com que, na prática, o país fosse visitado apenas por funcionários de organizações humanitárias e especialistas em negociação com seqüestradores. Depois de anos de batalhas sangrentas, no entanto, Phaic Tan pode ser enfim considerada uma nação em paz. Os conflitos armados se restringem somente às províncias do norte e ao Cassino Bumpattabumpah. Por toda a ilha, cidadãos que antes militavam em células guerrilheiras clandestinas finalmente pararam de lutar entre si, e agora recebem os visitantes de braços abertos e gritos de “mãos ao alto!“.

TERRA DE CONTRASTES
O perfil dos turistas em Phaic Tan varia muito – do onipresente mochileiro, atraído pelas praias tropicais desertas e pelo serviço 24 horas de massagem nos pés, ao viajante sofisticado e exigente, que busca o conforto nos mais exclusivos resorts litorâneos do mundo, refúgios cinco estrelas tão suntuosos que os funcionários são renovados diariamente só para garantir frescor da paisagem humana.

UM OLHAR SOBRE O PASSADO
Segundo os arqueólogos, Phaic Tan foi uma parada importante na rota do homem de Neanderthal da África para a Ásia. Enquanto os membros mais desenvolvidos do clã seguiram em frente, os espécimes mais lerdos e de cérebro menor se estabeleceram em Phaic Tan e se reproduziram. Como viviam em árvores, só quando as florestas começaram a rarear eles foram obrigados a evoluir. Desceram então de seus galhos e se espalharam pelas planícies. Um grupinho dissidente tentou viver debaixo d’água e logo se extinguiu. Datadas de 4000 a.C., evidências do cultivo do arroz foram encontradas no nordeste do país, quando arqueólogos desenterraram ferramentas agrícolas primitivas e um recipiente extremamente arcaico de molho de soja.

No final do segundo milênio antes de Cristo, amostras de bronze, latão, estanho e jade foram trazidas à região por imigrantes chineses. O povo de Phaic Tan logo percebeu o potencial dos novos metais, e inaugurou o que foi provavelmente a primeira loja de quinquilharias e souvenires da Ásia.



A civilização não se instaurou em Phaic Tan até pelo menos 2000 anos atrás, quando hordas de habitantes do centro e do sul da Ásia migraram para lá, atraídos pela abundância de comida e de creches. Foi nessa época que a roda apareceu no país. Em pouco tempo, os nativos começaram a usar os números e, pouco depois, inventaram a roleta.

Por volta do século VII, mercadores e missionários começaram a chegar da Índia. Os mercadores trouxeram do Ocidente novos valores sociais e políticos, bem como estilos artísticos e arquitetônicos. Os missionários trouxeram o bingo. Nesse período, os Tubom, uma seita de budistas castrados de Burma, invadiu o país e forçou os habitantes de Phaic Tan a se tornarem pacifistas.

MIOPIARAPTOR
Restos fósseis deste dinossauro foram encontrados a leste de Nham Pong. Depois de passar mil anos trombando com árvores, a criatura, de visão limitadíssima, desenvolveu um crânio de 60 centímetros de espessura.

O POVO
Nunca encontrei um povo tão briguento e belicoso, dado a explosões de raiva diante da menor provocação. 

(Jules Grenouille, antropólogo, em 1712, pouco antes de ser apunhalado até a morte por um monge noviço, que se irritou com o barulho da caneta de Grenouille ao escrever.)

Não há dúvidas de que os phaic-taneses têm um longo histórico de massacres e de violência. Há anos, tentando reprimir a propensão belicosa da população, o governo experimentou adicionar estrógeno à água potável. A iniciativa resultou num leve declínio das taxas de criminalidade, e num aumento generalizado de clubes de leitura. A experiência teve que ser abandonada quando um bombeiro de 37 anos, de Pattaponga, ganhou o primeiro lugar num concurso de beleza e foi eleito Miss Phaic Tan.

POPULAÇÃO
Phaic Tan é um verdadeiro caldeirão de etnias. Durante séculos, o povo absorveu uma quantidade enorme de influências. Nos últimos tempos, a população também absorveu, como resultado da mineração irregular, uma formidável quantidade de metais pesados. Esses fatores contribuíram para a formação de uma identidade nacional singular.

É difícil saber exatamente quantas pessoas vivem em Phaic Tan, já que, sendo um país budista, ao fornecer informações ao Censo, muitos cidadãos registram tanto a pessoa do presente quanto suas encarnações anteriores. Além disso, mais de 300 funcionários destacados para a coleta de dados demográficos continuam desaparecidos, tornando as estatísticas ainda mais imprecisas.

A superpopulação nos grandes centros continua sendo um problema, a despeito das iniciativas das autoridades locais. Em 1980, o limite de velocidade nas estradas foi aumentado para 340 km/h e a colocação de grades ao redor das piscinas foi considerada ilegal, medida que logrou êxito imediato. Os índices demográficos diminuíram ainda mais em 1992, com a reintrodução no país da gasolina com alto teor de chumbo.

Apesar das mudanças trazidas pelo turismo e pelo comércio, os phaic-taneses continuam apegados às tradições, e a distinção entre sexos é bastante rigorosa: as mulheres podem criar gado, cultivar as plantações, estocar provisões, cortar lenha, fazer artesanato e cuidar das crianças; os homens devem preparar sacrifícios aos deuses e pôr o lixo pra fora.

ETIQUETA
Os turistas ocidentais devem sempre lembrar que Phaic Tan é um país conservador, onde as mulheres andam de moto sentadas de lado. Para muitas, o casamento é consumado de maneira similar. Demonstrações de carinho ostensivas, como andar de mãos dadas, acariciar ou bolinar devem ser evitadas em público, sobretudo se você estiver sozinho.

COMO SE VESTIR
Use roupas simples e evite qualquer tipo de traje que possa ser inapropriado ou ofensivo, como tops escandalosos ou roupas de safári. Seja ainda mais prudente ao visitar mesquitas e templos. Para as mulheres, minissaias indecorosas e umbigos de fora estão proibidos. Para os homens, minissaias indecorosas e umbigos de fora são encrenca na certa.

SAPATOS
Uma dica de etiqueta importante: sempre tire os sapatos antes de entrar em uma casa. A atitude demonstra respeito aos anfitriões e também protege o carpete, em geral de péssima qualidade.

Deve-se também tirar os sapatos antes de entrar num templo, embora seja cada vez maior a incidência de roubo de calçados nas grandes cidades. Os turistas são freqüentemente convocados a comparecer a delegacias para identificar seus sapatos roubados, processo feito pelo olfato.

Na sociedade de Phaic Tan, a cabeça é considerada a parte mais sagrada do corpo, e os pés vêm por último. Portanto, não toque sem querer a cabeça de ninguém e não se sente de maneira relaxada, com os seus pés apontando para outra pessoa. Em hipótese alguma você deve tocar a cabeça com os pés.

IDIOMA
O phaic-tanês oral é uma das línguas mais rápidas do mundo – em média, 192 sílabas por minuto. Um verdadeiro pesadelo para a tradução simultânea, o falante nativo de Phaic Tan costuma cantar o hino nacional inteiro em menos de dez segundos. Para piorar, o idioma phaic-tanês é tonal, e uma palavra pode ter diferentes significados dependendo da entonação usada: “ha”, por exemplo, pode significar “cavalo”, “árvore”, “nuvem”, “paz”, “tarde” ou “você está pisando no meu pé“, dependendo da inflexão da voz e da força com que é berrada.

Devido a essas dificuldades, muitos ocidentais relutam em aprender o phaic-tanês. É uma pena, pois os nativos provavelmente apreciariam qualquer tentativa de dominar o idioma, já que em geral eles não têm muito do que rir.

QUESTÕES DE GÊNERO
Uma das maiores dificuldades para os falantes não-nativos é que as palavras não são determinadas pelo gênero do interlocutor, mas pelo gênero do falante e pela direção do seu olhar. Ainda por cima, as sentenças podem terminar com diferentes sufixos (kar, lo, phar etc.), dependendo da hora do dia. Para complicar, o idioma phaic-tanês emprega três níveis distintos, que indicam a casta ou o status do ouvinte, variando do “Alto phaic-tanês”, um estilo formal cheio de frases elaboradas e floreios retóricos, até o “Baixo” ou “Comum”, que basicamente envolve cuspir.

CULINÁRIA
Para os que não conhecem a culinária phaic-tanesa, é só imaginar os melhores ingredientes da cozinha chinesa e a sofisticação dos temperos indianos, apresentados com a elegância dos melhores restaurantes franceses. A palavra-chave é “imaginar”, já que a cozinha em Phaic Tan sofreu muito com a pobreza dos anos de guerra e com a baderna econômica. Recentemente, no entanto, a culinária phaic-tanesa tem passado por uma espécie de renascimento, e alguns ótimos prazeres aguardam os viajantes aventureiros, inconseqüentes e estomacalmente intrépidos.

QUENTE E APIMENTADA
Os phaic-taneses preferem pratos apimentados, com a presença de chillis por toda parte: nos curries e nas frituras, bem como nos cereais matinais e nos sorvetes. A versão phaic-tanesa para o “bom apetite” (mihn laum) pode ser traduzida literalmente por “Que gotas de suor escorram pela sua testa!“. Mas o afluxo de turistas contribuiu para amenizar os hábitos locais, e vão longe os dias em que, se um freguês pedisse “alguma coisa menos apimentada”, o chef irromperia da cozinha armado com um cutelo de carne e questionaria a sua masculinidade.

Além do chilli, outros ingredientes essenciais para a cozinha phaic-tanesa são os frutos do mar, frutas, vegetais, broto de feijão, broto de bambu, capim-limão (ou, nas regiões mais pobres, limão no capim), manjericão, menta e rato.

Os turistas não demorarão muito para conhecer o molho Sambal, uma mistura inflamável de cebolas, cebolinhas, cúrcuma, gengibre, alho e pimenta vermelha, usada largamente em restaurantes e residências, onde é oferecida a bebês que sofrem de cólica. Outro condimento bastante popular é o praherk, uma pasta de peixe de aroma fortíssimo, usada para disfarçar o cheiro de certas comidas. Infelizmente, nada consegue disfarçar o cheiro do praherk, e é melhor evitá-lo. O prato mais comum ao norte de Phaic Tan é o phoar, um caldo ou sopa para ser comido com palitinhos, o que pode explicar a alta incidência de desnutrição na região.

O SABOR DE PHAIC THAN…
Dica de etiqueta: nos restaurantes e residências de Phaic Tan é de bom tom deixar alguma comida no prato. Não apenas para demonstrar boas maneiras, mas também para dar algo com que trabalhar ao toxicólogo forense que, possivelmente, investigará sua morte.

Os chillis de Phaic Tan são considerados os mais picantes do mundo, tanto que, depois de comê-los, é ilegal arrotar sem a autorização dos bombeiros.

O nergak é um molho de peixe apimentado que acompanha inúmeros pratos em Phaic Tan. Ele é feito de uma planta processada em Pattaponga, uma das maiores fábricas da Ásia, provavelmente a única construção humana que pode ser cheirada da Lua.

O pu wiph é uma fruta tuberosa que dizem combinar o cheiro do queijo gorgonzola com a textura de uma esteira de palha. Quanto ao sabor, ninguém foi corajoso o suficiente para provar.

Para conhecer a comida phaic-tanesa autêntica, vá a uma tradicional barraca de feira, ou sahlmonellah.

COMPRAS
As lojas de Phaic Tan oferecem uma grande variedade de tecidos, roupas, sapatos, jóias e artesanatos. O único problema é que, em geral, esses produtos são de péssima qualidade e foram feitos em Taiwan.

Naturalmente, para obter o máximo em terapia de consumo você não pode deixar de ir a um dos novos supershoppings centers, como o de King Tralanhng, em Bumpattabumpah. Um edifício gigante – tão grande que tem três fusos horários -, o Tralanhng ostenta o maior ventilador de teto do mundo, feito das hélices de um Black Hawk aposentado. A loja mais famosa de King Tralanhng é a de jeans Leevi.

MERCADO NEGRO
Não existe nenhuma dúvida de que Phaic Tam é um dos centros mundiais de produtos pirateados de todos os tipos. A pirataria é tão bem-sucedida por lá que já existe um mercado bem estabelecido de piratas de piratarias.

FÁBRICAS
A seda de Phaic Tan é considerada uma das mais finas do mundo, apesar de sua trama grosseira e da tendência de rasgar quando dobrada. É muito usada no país em todo tipo de roupas, dos tradicionais vestidos de noiva aos guardanapos descartáveis e vendas de pano para o fuzilamento no paredão.

MASSAGEM
A massagem tradicional, ou Sem-Saka-Ngem, costuma ser associada à indústria do sexo, mas na verdade as técnicas phaic-tanesas têm pouco a ver com o prazer sensual. A forma mais comum de terapia tátil é o que se chama de massagem “tradicional”, e não é parecida a nada do que já se experimentou antes, a menos que você tenha recentemente tropeçado numa cerca elétrica. Começa com o seu corpo sendo coberto de óleo de coco da cabeça aos pés. O mais estranho do procedimento é que você continua inteiramente vestido. A massoterapeuta, então, começa a trabalhar vigorosamente em diversos pontos de “ativação”, que têm esse nome pois, quando apertados, ativam uma enorme onda de dor. Ao contrário da massagem sueca, que procura relaxar o corpo através de movimentos suaves com as mãos e dedos, os terapeutas phaic-taneses empreendem um ataque de diversas frentes usando as mãos, os polegares, dedos, cotovelos, antebraços, joelhos e, em alguns casos, uma pistola de pregos. A massagem costuma durar meia hora, ou até o cliente desmaiar.

Atenção: Se uma massagista phaic-tanesa prometer um “final feliz”, isso significa que você sairá do local sem ter sua carteira roubada.

Dica fotográfica: Cuidado ao mandar revelar suas fotos nos bairros de vida noturna intensa, pois neles se presume que você quer ter seu rosto coberto por uma tarja preta.

COMO CHEGAR
A maioria dos turistas chega a Phaic Tan de avião, desembarcando no aeroporto de Phlat Chat. Infelizmente, as grandes companhias aéreas não voam até Phlat Chat, inconformadas com a recusa das autoridades do aeroporto em expulsar os camelôs que montaram barracas em torno da pista de aterrissagem.

A melhor maneira de conseguir um vôo é a bordo da transportadora nacional Royal Fok Tok Airlines. Batizada com esse nome em homenagem a uma ave não-voadora, a Fok Tok tem como uma de suas marcas o procedimento de aterrissagem espontâneo, no qual os pilotos desligam os motores dez minutos antes do pouso, para economizar combustível.

A Fok Tok não apenas permite fumar a bordo, como inclusive encoraja a prática, especialmente à noite, quando uma grande quantidade de cigarros acesos compensa a falta de iluminação na cabine.

Se você prefere optar por outro tipo de transporte, há uma ferrovia expressa ligando Phaic Tan a países vizinhos. A linha mais popular é a do Trem-Bala, que funciona duas vezes por semana, e tem esse nome pois é freqüentemente atingida por tiros de rajadas ao cruzar a fronteira.

Santo Cilauro, Tom Gleisner e Rob Sitch

Santo Cilauro, Tom Gleisner e Rob Sitch são escritores australianos, autores dos livros da série Jetlag Travel Guide.

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