esquina

Piracicaba não reage

A vida dura de quem combate os pamonhas dos vereadores

Fábio Fujita
ILUSTRAÇÃO: ANDRÉS SANDOVAL_2012

Imbuído das melhores intenções cívicas, o professor André Tietz vestiu a camiseta do movimento Reaja Piracicaba e se dirigiu à praça José Bonifácio, ponto central da cidade célebre pela produção de pamonhas, onde a vida pulsa e velhinhos alimentam pombos no sol da tarde.

Trazia estampado no peito o símbolo do movimento, a imagem de um cidadão segurando um megafone. Como não é fácil a vida de quem se dispõe a moralizar o uso do erário, Tietz contava naquele dia quente de novembro apenas com os próprios recursos vocais para tentar convencer os passantes apressados a subscreverem sua causa. O movimento, que conclama a sociedade piracicabana a fazer sua voz ser ouvida, ainda não dispunha, então, de um megafone próprio – aparelhos emprestados já haviam sido usados nas manifestações de maior vulto do grupo.

Os alvos do protesto do integrante do Reaja encontravam-se numa rua paralela à praça, na Câmara Municipal. Em junho de 2011, os vereadores piracicabanos aprovaram uma norma em causa própria, que reajustava os seus salários em 66%. Os  rendimentos saltaram de 6 568 reais mensais brutos para 10 900 reais. Tietz, que concorreu neste ano pelo PSOL a uma vaga na Câmara, buscava entre os transeuntes cidadãos indignados o suficiente com a manobra para aderir ao abaixo-assinado, que propõe criar um projeto de lei para revogar o aumento.

A voz das ruas, contudo, não tem intimidado os profissionais da política de Piracicaba. Desde os primeiros atos públicos do movimento, em agosto, um clima bélico se instaurou entre os manifestantes e a Câmara. As acusações são mútuas. Os parlamentares batem na tecla de que o grupo teria interesses eleitoreiros, uma vez que a gritaria só teria começado às vésperas das eleições municipais deste ano – catorze meses após a aprovação do reajuste.

Os militantes, por sua vez, asseguram que, ainda em 2011, antes de formalizarem o Reaja, já cobravam transparência nas ações do poder público. No início do ano, um grupo de cidadãos enviou uma carta à Câmara com vinte demandas da sociedade civil. Entre elas, a criação de uma Lei da Ficha Limpa municipal e de um plano de metas para a cidade. Mas não havia propriamente mobilização cívica. “Cheguei a fazer reunião só com mais duas pessoas”, recordou a engenheira agrônoma Cláudia Caliari, uma das militantes mais ferozes.

A percepção de que o grosso da população não se engajava levou os parcos indignados a mudar de estratégia. “Falamos: ‘Vamos tentar estruturar uma pauta que as pessoas entendam.’ Foi aí que se decidiu focar no aumento salarial”, explicou Cláudia.

 

A princípio, a perspectiva de apoio popular pareceu promissora. Uma “dramatização” pública da política local foi montada. Um rapaz que assumiu o papel de vereador e defendeu o aumento por pouco não foi alvejado pelas tamancas de senhoras que não sabiam se tratar de uma encenação. “Vimos que havia pessoas tão inconformadas quanto a gente”, observou Cláudia. Nascia o Reaja Piracicaba. Seu “núcleo duro” é composto de umas três dezenas de pessoas, oriundas sobretudo da classe média. Há no grupo advogados, estudantes e professores.

O primeiro protesto de fôlego do Reaja reuniu cerca de 250 pessoas em frente à Câmara. Os atos tornaram-se frequentes. “Em nenhum momento nos procuraram para conversar. Já chegaram batendo”, queixou-se Carlos Gaiad, diretor de comunicação da casa. Os manifestantes afirmam que os vereadores não quiseram conversa: o projeto foi votado sem dar oportunidade para discussão, num único dia. O vereador José Antonio Fernandes Paiva, do PT, argumentou que o aumento é legal. “Seguimos um rito que está determinado no regimento.” Incomodados com as críticas, os vereadores partiram para o contra-ataque. A casa editou e apresentou à imprensa, no mês passado, um vídeo com imagens de supostos membros do movimento consumindo bebida alcoólica, em um dos atos.

A um jornal local, o presidente da Câmara, João Manoel dos Santos, do PTB, declarou que havia “bêbados e drogados” no Reaja. Ricardo Schmidt, militante do grupo, rebateu a acusação. “Todas as manifestações do movimento são públicas, a população toda é chamada”, ele disse. “O movimento não detém o poder de controle sobre quem participa.”

Depois das eleições, a poeira baixou um pouco. Apesar dos apelos, Piracicaba não reagiu. Pelo menos não nas urnas. Se em 2008 a cidade teve 266 candidatos a vereador, em 2012 a concorrência subiu para 448 nomes. O Reaja Piracicaba chegou a produzir um termo de compromisso para que os candidatos, se eleitos, revogassem o reajuste de 66% assim que assumissem os mandatos. Não mais do que trinta postulantes aderiram à iniciativa – entre eles, o professor André Tietz, que perdeu. Apenas um dos signatários foi eleito. Dos dezesseis vereadores da atual legislatura, treze foram reeleitos, dois foram derrotados e um não concorreu.

Ainda assim, os integrantes do Reaja não se dão por vencidos. O movimento precisa de, no mínimo, 13,5 mil assinaturas (5% do total de eleitores do município) para que o reajuste dos vereadores possa voltar a ser debatido – e votado – pela mesma Câmara que o aprovou. Até o dia 13 de novembro, contabilizavam cerca de 6 mil assinaturas. Semanalmente, reúnem-se para discutir estratégias e tentar angariar novos adeptos.

Numa reunião recente, realizada no acanhado salão de uma organização de leigos católicos, levantou-se a possibilidade de colher assinaturas em dois eventos que movimentariam a cidade: uma convenção de tatuagens e a Festa da Cachaça. Mas logo se percebeu que a quantidade de voluntários dispostos a representar o Reaja nessas ocasiões cabia nos dedos da mão. “Não precisamos de mais ideias, precisamos de gente”, conclamou um militante.

Com pesar, um integrante interrompeu a discussão para anunciar que aquela seria a última reunião do grupo no local. A ordem para impedir novos encontros do Reaja ali partira da cúpula da organização religiosa. Justificaram a decisão com um discurso de defesa do trabalho dos vereadores, “responsáveis pelas leis”. Mas nem tudo eram más notícias naquela noite. Ainda que despejados, os integrantes do Reaja farão sua voz ser ouvida. Na mesma reunião, foi anunciada a aquisição do primeiro megafone do movimento.

Fábio Fujita

Fábio Fujita é jornalista baseado em São Paulo.

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