anais do fim do mundo

Planetinha mixuruca

Como uma dupla becketiana, Eduardo Climachauska e Nuno Ramos destroem e reordenam o mundo em “O globo da morte de tudo”

Milton Ohata
Nuno Ramos e Eduardo Climachauska dispuseram 1500 objetos sobre estantes, numa espécie de ritual amalucado e metáfora cômica do universo humano. Quando os globos da morte foram acionados e fizeram tremer a estrutura, parte dessa “imensa coleção de mercadorias” se espatifou pelo solo. A “morte de tudo” não estava só no chão, mas também no cemitério de coisas que resistiu à queda
Nuno Ramos e Eduardo Climachauska dispuseram 1500 objetos sobre estantes, numa espécie de ritual amalucado e metáfora cômica do universo humano. Quando os globos da morte foram acionados e fizeram tremer a estrutura, parte dessa “imensa coleção de mercadorias” se espatifou pelo solo. A “morte de tudo” não estava só no chão, mas também no cemitério de coisas que resistiu à queda FOTO: HOMEM DE LATA FILMES_CORTESIA ANITA SCHWARTZ

Um dos acontecimentos mais ruidosos na arte brasileira em 2012 ocupou recentemente a galeria Anita Schwartz, numa pacata rua da Zona Sul do Rio de Janeiro. Na fachada da casa em frente, unidade “Gávea” da igreja Perfect Liberty, uma inscrição diz que “Vida é arte”. Mas os artistas Nuno Ramos e Eduardo Climachauska não pensavam bem nisso ao entrar e sair da galeria na semana de montagem da exposição “O globo da morte de tudo”. Auxiliados por cinco assistentes, levaram dias e noites para dispor mais de 1 500 objetos, entremeados por dezenas de lâminas de vidro, num quadrado com estantes de aço com 6 metros de altura, sustentando por meio de hastes dois globos da morte soldados entre si.

Cada estante era preenchida segundo uma classificação criada pelos dois artistas. “Cerâmica”, com objetos ligados à ideia de ancestral, arcaico, básico. “Cerveja”, à de vida cotidiana, corriqueira. “Porcelana”, à de luxo, riqueza, sofisticação. E “Nanquim”, o preferido de Ramos e Climachauska, exibindo coisas ligadas à ideia de morte. Como um fluido a perpassar a diversidade de cada conjunto, centenas de copos, taças e outros recipientes de vidro continham barro diluído (arcaico), cerveja comum de boteco (cotidiano), talco diluído (luxo) e nanquim (morte). Essa reunião heterogênea e meio amalucada, metáfora cômica do universo humano, ficou exposta durante um mês e sofreu uma destruição ritual quando dois motociclistas giraram a 60 quilômetros por hora dentro dos globos, balançando as estruturas da obra, numa tarde de sol em que a galeria ficou fechada ao público. Depois, os escombros puderam ser vistos até o final de janeiro.

Foi parecido com um terremoto de laboratório. Minutos antes do início da performance, um apreensivo Nuno Ramos explicou a todos que tivessem paciência, não sabia o que poderia acontecer e que a tarde estava inteiramente reservada para, se preciso, muitos ensaios e takes de filmagem. Mas, em 55 segundos de movimentação, uma parte dos objetos despencou das estantes e se espatifou no chão. Outra equilibrou-se sabe-se lá de que jeito e, como certos bêbados, balançou, mas não caiu. Foram duas ondas nítidas. No meio das quais um hiato de incerteza afogado pela segunda onda, muito mais barulhenta, levantando uma fina poeira multicor. Tinha sido combinado que os dois motociclistas parariam ao som dos apitos de Ramos e Allen Roscoe, arquiteto que calculou a estrutura da obra. Os apitos foram uníssonos, sem que um tenha sinalizado para o outro, no momento intuitivo em que o som da quebradeira e das motos era tão forte, e as estruturas balançavam de tal maneira, que tudo parecia sair do controle. Após um silêncio ensurdecedor, aplausos e gritos das poucas testemunhas, entre as quais duas equipes de filmagem.

No início da noite, uma extenuada trupe, que incluía os dois artistas, familiares, o arquiteto, seus assistentes, os motoqueiros e o staff da Anita Schwartz, confraternizou a alguns passos da galeria, no Braseiro da Gávea, tentando aplacar com chope o calor de 40 graus. Era o fim de um processo que consumiu um ano de criação, planejamento e execução, envolvendo diretamente mais de dez pessoas, entre São Paulo, Nova Lima e Rio de Janeiro.



Indiretamente, os dois artistas mobilizaram uma rede extensa de amigos e parentes, que doaram parte significativa dos objetos – desde uma carteira de trabalho da artista Tatiana Blass, colocada na prateleira “Nanquim”, até uma garrafa de Château Pavie Saint-Émilion, safra 1964, oferecida pelo crítico Alberto Tassinari e que sobreviveu intacta na prateleira “Porcelana” depois da performance. A esse primeiro conjunto de coisas, repositórios de afetos vivos ou perdidos, memórias e esquecimentos, juntou-se outro, comprado pela internet ou em lojas comuns. Acompanhei os dois artistas numa incursão por um hipermercado próximo ao ateliê de Nuno Ramos, no bairro paulistano do Cambuci. Com uma lista dividida em “cerâmica”, “cerveja”, “porcelana” e “nanquim”, ambos encheram três carrinhos com torradeiras, balões de gás, sandálias de borracha etc. para suprir as lacunas do que já tinha sido comprado. As sessões de compra tiveram sua comédia particular. Numa loja de artigos para festas, ao pedir velas para bolo, daquelas com dois noivinhos de cera, a vendedora perguntou aos dois artistas “para quando era o casamento”. Noutra, conhecida pela variedade de cosméticos e produtos afins, Climachauska – identificado de longe por seus cabelos brancos – pediu para ver os tipos disponíveis de Grecin. “E então, qual deles o senhor vai levar?” “Todos”, respondeu o artista.

Como obra de arte complexa e ambiciosa, “O globo da morte de tudo” não dependeu apenas da força criativa de Ramos e Climachauska. Além do envolvimento dos amigos nas doações de objetos, foram convocados saberes muito específicos, tanto para a parte “dinâmica” quanto para a “estática”.

 

Jonathan Guerreiro, 25 anos, nasceu em Ribeirão Preto, quando o Circo de Moscou, onde trabalham seus pais, passou pela cidade do interior paulista. Seu pai é soldador, e sua mãe – que por razões óbvias prefere não vê-lo praticando o ofício – foi mágica e bailarina. Jonathan tentou profissões menos arriscadas, como acrobata de chão e palhaço. Nessa última tentativa, desanimou depois de um tempo. “A concorrência é muito grande. Os palhaços mais antigos, que estão por cima, não deixam os de baixo subir.” Foi quando seu irmão mais velho, motociclista de globo com 25 anos de profissão e há onze apresentando-se na Europa, o incentivou para seguir os mesmos passos. Jonathan sofreu três acidentes de trabalho e num deles, quando acordou na cama do hospital, pensou em parar. Gosta do contato com o público tanto quanto dos loopings. “Artista é o pessoal da tevê, eu só faço um showzinho.”

Como Jonathan, seu colega Wagner Winterscheidt, 24 anos, também começou aos 17 graças ao irmão mais velho. Nasceu em Porto Alegre, em outra família circense, e também atua no Circo de Moscou. Recebeu propostas para trabalhar em picadeiros ingleses a partir de 2013 e já foi recordista do Guinness há alguns anos, ao girar dentro de um globo junto a oito motos. Seus acidentes foram mais dramáticos. Num deles, um pedaço da rede de aço se soltou, desequilibrou a moto e se enganchou entre os ossos da canela de Wagner, que ficou pendurado de cabeça para baixo e teve que ser retirado do globo por uma equipe de bombeiros. Mas ele só pensou em desistir depois de um acidente em Foz do Iguaçu. A bilheteria andava baixa e decidiu-se que, para atrair público, sete motos, em vez de cinco, rodariam juntas numa noite. Diante de uma plateia lotada, Wagner se viu por baixo de seis motos depois que uma delas se desequilibrou. Os pais sempre tentam convencê-lo a seguir outra profissão, mas ele conta com o apoio de sua mulher, acrobata e trapezista do mesmo circo. Seu enteado já sonha com os primeiros loopings sem globos.

Allen Roscoe foi responsável pelo cálculo estrutural da obra, que precisava ser flexível o suficiente para o objetivo da performance, sem, é claro, comprometer a vida dos motoqueiros. Os primeiros testes com “O globo da morte de tudo” foram feitos em seu terreiro-ateliê em Nova Lima, perto de Belo Horizonte, de onde a parafernália desceu ao Rio na boleia de um caminhão. Mineiro de presença calma, largo sorriso e poucas palavras, ele é conhecido pela precisão de seus cálculos, sem o desperdício de um só parafuso. Inúmeras perguntas relativas à viabilidade da obra eram respondidas quase sempre com um “Pode” (indicando certeza) ou um “Poder, pode” (indicando uma certeza passível de teste). Casado com uma artista plástica, Roscoe estudou engenharia mecânica e arquitetura. Trabalhava em uma metalúrgica que também desenvolvia obras para artistas e viu um caminho novo para sua vida ao conhecer os escultores Franz Weissmann e Amilcar de Castro. Foi com este último, conhecido por cortar e dobrar grandes chapas de aço, que executou a maior parte de seus trabalhos. Acabaram se tornando grandes amigos. No momento, entre outros projetos, dedica-se ao pavilhão de Nuno Ramos no Instituto Inhotim, em Brumadinho, Minas Gerais. “Ele é cerâmica pura”, dizem Ramos e Climachauska.

O salão principal da galeria Anita Schwartz tem 12 metros de fundo, 9 de largura e um pé-direito de 7,2 metros. O espaço foi inteiramente tomado pela obra. A presença crua dos dois globos no centro contrastava com o colorido dos objetos nas estantes ao redor. A escala do conjunto provocava no visitante uma sensação de atordoamento e até mesmo de sufocação. Havia em tudo, é claro, muito de circo. Sensação que, além dos próprios globos, vinha da variedade kitsch de muitos objetos, alguns deles grotescos, como uma cabeça de búfalo empalhada. Havia também um quê de supermercado de bizarrices ou de barracão de escola de samba. E, se quisermos recuar no tempo, a obra lembrava os antigos gabinetes de curiosidade. Na história da arte, as estantes com objetos disparatados eram uma das especialidades mais divertidas do surrealismo. Para o crítico Rodrigo Naves, as obras de Nuno Ramos buscam acima de tudo pressionar o espectador. “O que caracteriza a forma de grande parte dos trabalhos é um enfrentamento entre elementos que os integram, que se engalfinham na tentativa de evitar a preponderância de algum deles. Vem daí a enorme concentração de forças que as obras revelam.”

 

Listo abaixo alguns exemplos aleatórios do que estava em cada prateleira:

“Cerveja”: troféus, barris de chope, pandeiros, raquetes de squash, casinha de cachorro, liquidificadores, violoncelos, bolas de bilhar, câmaras fotográficas, esquis, ventiladores (ligados), carrinhos de bebê etc.

“Cerâmica”: filtros de água, formas de sapato, tapetes, garrafas de cachaça, foices, pás, berrantes, ancinhos, panelas de barro, uma biografia de Dorival Caymmi, bomba de gasolina, regadores, feno para forragem, tear, pacotinhos de sementes, lampiões a gás, cogumelos de gesso para jardim, redes de pesca, bacias, vasos, sabão de coco Urca, cachimbos, chapéus de vaqueiro etc.

“Porcelana”: sapatos femininos, bibelôs variados, bijuterias, miniatura do Big Ben, água Perrier, um Veuve Clicquot, brinquedos, leques, lustres de cristal, vestido de noiva, corante para cabelo, óculos, luminárias, laptop, sombrinhas, compoteiras, gatinhos japoneses, papel higiênico, borboletas de entomologista, bonecas russas, frutas de plástico, máquina de café, o DVD Acossado de Godard, guias de viagem, máquina de fazer chocolate etc.

“Nanquim”: uma maquete da própria obra, cachorros de porcelana, narguilé (com nanquim dentro), telefone preto antigo, guarda-chuvas, pneus, velas de bolo, relógio cuco, pinguim de geladeira, ossos, 500 exemplares das Memórias Póstumas de Brás Cubas, chapas de radiografia, óculos de sol, moldes de dentista, bolsas de sangue (com nanquim dentro), cinzas de vários livros como As Pupilas do Senhor Reitor, A Moreninha e O Guarani dentro de caixas de vidro, troféus de prêmios recebidos pelos dois artistas, pílulas anticoncepcionais, malas transportadoras de animais, torradeiras, forninhos, máscara de soldador, um retrato de Paulo Coelho comprado em feira de artesanato, arpões, inseticidas, piranhas empalhadas, ratoeiras etc.

Toda essa barafunda esteve envolvida por uma trilha sonoro-visual em telas dispostas pelas estantes com vídeos recolhidos na internet, todos de caráter didático-utilitário. Uma homenagem dos artistas ao “show da vida” oferecido diariamente na mídia. Assim, segundo as categorias da obra:

“Cerâmica”: como clarear roupas brancas, como tirar a carteira de trabalho, como falar esperanto, como plantar castanha-do-pará, como manusear ferramentas de jardinagem, como cuidar dos cascos de um cavalo, como cuidar de um pé de manjericão, como fazer um miniforno de fundição, como funciona a injeção eletrônica, como exterminar formigas cortadeiras, como fazer um poço de praia, como fazer um enxerto, como amolar uma faca, como arremessar isca de anzol, como conseguir fogo num ambiente selvagem, como aumentar a rentabilidade na fase de engorda do gado, como é a anatomia de um cavalo, como fazer emenda em um cano, como criar o bicho-da-seda, como adestrar um cão, como criar canários, como domar um cavalo selvagem, como cuidar de um açougue, como fazer o cruzamento entre um faisão e uma galinha garnisé etc.

“Cerveja”: como dar nó em gravata, como dançar tango, como segurar uma gaita, como fazer a barba, como se comportar nas redes sociais, como fazer café, como ter sucesso no marketing de rede, como parar de sofrer, como tocar Garota de Ipanema no violão, como fazer um aviãozinho de papel, como juntar o primeiro milhão, como montar uma barraca, como se comportar nas festas da empresa, como vencer a timidez, como se comportar enquanto estagiário, como tocar trompete, como cantar o Samba do Arnesto, como tocar cavaquinho, como escolher a profissão certa etc.

“Porcelana”: como fazer sexo anal, como evitar as olheiras, como abrir um espumante, como escolher o terno ideal, como fazer perfume, como fazer uma trança espinha de peixe, como clarear axilas e virilha, como fazer uma drenagem linfática manual, como fazer um leque de guardanapos, como instalar um assento sanitário de luxo, como pintar girassóis, como posicionar talheres, como armazenar vinho, como preparar cupcakes, como fazer cílios de boneca, como segurar uma taça de vinho, como se vestir para um casamento, como retardar a ejaculação, como cantar em falsete, como preparar um jantar romântico, como usar bermuda xadrez, como decorar ovos de páscoa, como fazer sexo oral, como reduzir as rugas, como falar japonês etc.

“Nanquim”: como maquiar uma criança, como descobrir o orgasmo, como ser feliz, como fazer um parto, como aumentar o tamanho do pênis, como matar um porco, como fazer exercícios militares, como chutar em provas ou exames, como fazer um remédio virar um drink, como tatuar os olhos, como esconder o piercing do septo, como funciona uma metralhadora, como fazer um kit básico de primeiros socorros, como tatuar uma criança, como tomar um frango numa partida de futebol, como transformar seu filho em um fumante, como enterrar um animal, como recarregar um cartucho calibre 12, como malhar o Judas, como aplicar injeções em um pombo, como extrair veneno de cobras etc.

 

Além de testemunhar o estado atual da evolução humana, as listas acima lembram na sua variedade um autor que sempre viu o aspecto tragicômico da vida criada pela burguesia desde o século XVIII. Marx inicia seu best-seller O Capital dizendo que “a riqueza das sociedades em que domina o modo de produção capitalista aparece como uma ‘imensa coleção de mercadorias’, e a mercadoria individual como sua forma elementar”. Depois dessa frase, o autor gastou centenas de páginas para argumentar como a relação de troca mercantil é a “classificação” mais abrangente criada pelo sistema para a diversidade de coisas produzidas. E como, no frigir dos ovos, isso pode ser irracional e socialmente devastador.

Os homens conseguiriam criar um novo sistema em que as “classificações” fossem outras? Sem nenhum traço de apparatchiks, Nuno Ramos e Eduardo Climachauska parecem fazer uma pergunta semelhante. Fascinados pela questão, eles são leitores do antropólogo francês Marcel Mauss, autor de estudos seminais sobre a troca nas sociedades primitivas. Seu Ensaio sobre a Dádiva é até hoje uma referência na área e inspirou inúmeros estudos econômicos a partir da obra do historiador húngaro Karl Polányi. Diante da quebra da Bolsa de Nova York em 1929, Polányi passou a investigar experiências históricas em todos os quadrantes do globo em cujas relações de troca não prevalecia o caráter mercantil. Algo dessa ordem está em “O globo da morte de tudo”. Suas categorias “amalucadas” apontam para outros tipos de relações entre as coisas. Durante um bom tempo, a arte moderna se moveu a partir dessa premissa, mas desde o pop uma boa parte dela se limitou a mimetizar as coisas como elas são. Alguns historiadores viram no fato um indício de mudanças gerais na sociedade, exponenciadas desde o começo dos anos 80 pela avalanche neoliberal.

Vivemos uma época em que predominam o darwinismo social, a banalização da violência (incluindo a linguagem – basta pensar em certas letras do funk e do rap, ou no tom de comentários em blogs e colunas da imprensa), a mercantilização da cultura, a dificuldade de compromisso nas relações pessoais etc. etc., multiplicados por uma tevê, um marketing e uma internet onipresentes. Como notou o psicanalista Joel Birman, a vida em sociedade nos dias de hoje alia uma alta capacidade de descarga pulsional a uma baixa capacidade de elaboração simbólica. Esse campo minado vampirizou quase tudo aquilo que já foi lugar de elaboração simbólica – o amor, a escola, a família, a política, a amizade, a arte etc.

Nuno Ramos disse em uma entrevista de 2011 que gostaria de “pensar se é possível transformar a violência e a desmesura em liberdade”. Ou, em termos psicanalíticos, inverter a equação e usar uma alta capacidade de descarga pulsional para algo – a arte – que exige alta capacidade de elaboração simbólica. Críticos que acompanham o artista não têm dúvida disso. Vanda Klabin estava presente na performance de “O globoda morte de tudo” e disse na ocasião: “Conheço o Nuno há muitos anos e é impressionante que a inquietação dele não tenha diminuído nada de lá para cá.” Para Lorenzo Mammì: “Nuno Ramos é o artista do caminho mais difícil, o que escolhe a solução menos esperada, a mais arriscada comercial e tecnicamente. Isso tornou sua carreira mais lenta, pelos parâmetros do mercado de arte, mas acabou tornando-o referência. Olha-se para a obra de Nuno não para saber o que se deve, mas o que é possível fazer.” Alberto Tassinari é sucinto e afirma que “sua trajetória é a aventura mais aberta e generosa de nossas artes plásticas”.

Além da arte, essa inquietação arriscou-se por caminhos variados como o cinema, a literatura e a música popular, na qual é parceiro de canções com Rômulo Fróes, seu antigo assistente, e com Climachauska, o Clima, como é chamado pelos amigos.

 

Num primeiro momento, é natural que se tente descobrir em “O globo da morte de tudo” a contribuição de cada artista. Mas o melhor é considerar Nuno e Clima uma espécie de dupla becketiana. O primeiro é inquieto, provocador e falante. O segundo tem a enigmática sabedoria de monge budista na maneira com que conversa sobre tudo, com todos. Amigos há muitos anos, eles fizeram juntos o primeiro trabalho no cinema, com Luz Negra, em que quatro homens, na companhia de um cachorro, sepultam num descampado uma enorme caixa de som onde toca a canção de Nelson Cavaquinho. Até 2006, filmaram também Duas Horas, Casco e Iluminai os Terreiros. As parcerias musicais são o recheio de quatro discos estrelados até o momento por Rômulo Fróes.

Num texto de 2012 para a exposição de Climachauska na Galeria Laura Marsiaj de Ipanema, Nuno arrisca um perfil do parceiro: “Gosta de cinema marginal, mas não de berro, sangue, Carnaval. Gosta de Beuys, mas não de alegoria. De matéria, mas não de gosma. De para-raios, mas não de raio. De paraquedas, mas não pularia. De cachorro louco, de agosto, de flash batendo no asfalto, mas não de entranha de bicho morto. Gosta de absurdo, mas não de sarcasmo. De Glauber, mas não de política. Acha meio médio, mas tem o maior entusiasmo. Fica ali parado, mas anda que nem um condenado.” Ao contrário de Nuno, sempre em movimento, Clima teve uma carreira pontuada por surtos criativos. Nos intervalos, é como se transformasse em vulcão adormecido. Ou como se o seu acesso à realidade se desse por realidades pouco frequentadas pelas pessoas comuns. Mas isso não significa que seja um aristocrata do espírito. Basta ver Agosto, sua série de fotos noturnas de cachorros vira-latas.

A dispersão esfuziante de energia é necessária para o assalto constante que Nuno Ramos gosta de fazer à realidade. A arte do amigo é oposta e faz pensar nas palavras de Walter Benjamin, em Rua de Mão Única: “Ninguém se posta diante de uma turbina e a irriga com óleo de máquina. Borrifa-se um pouco em rebites e juntas ocultos, que é preciso conhecer.” Clima é leitor de bons livros de divulgação científica. Pudera, em muitas de suas obras o que está em jogo é simplesmente todo o universo, mas acionado em um ponto preciso de tensão. Por isso o uso que faz de macacos (a alavanca e não o animal) e tirfors (uma espécie de tracionador de cabos de aço). “Eu sou um cara que comprou, não por causa da ciência, pois acho que é uma questão poética, essa ideia do Einstein de que a gravidade é consequência da geometria do universo. Eu sou fascinado pelo fato de que o ser humano construiu máquinas para lidar com isso. Esses guinchos de alavanca, esse negócio de escapar de sua força tem a ver com o meu modesto desejo de mover, curvar toda a geometria do universo.”

Diferenças à parte, Ramos e Climachauska têm em comum algo de outsiders e a ambição de mexer com o “planetazinho vagabundo”, expressão repetida por Helena Ignez em Sem Essa Aranha, de Rogério Sganzerla, filme do cinema marginal que é uma referência para Clima. Outro artista adorado pela dupla é o gravurista Oswaldo Goeldi. É possível ver na destruição de “O globo da morte de tudo” muito do que Ramos, no ensaio “Agouro e libertação”, notou como traço essencial de Goeldi. “Trata-se da promessa de uma nova disposição, após a tempestade, onde as ratazanas tenham a mesma dignidade dos homens, os cestos de lixo se equiparem aos casacos de pele etc., ou seja: aquela reordenação hierárquica própria às catástrofes naturais (as cenas de Goeldi parecem sempre preceder ou suceder a tempestade).” Para a dupla de artistas, Goeldi é puro “nanquim”. Na obra, junto a todos os outros objetos, eles incluíram também “dossiês” com informações características de pessoas ou assuntos em caixas de vidro. Eis alguns:

“Cerveja”: Noel Rosa, Thaís do Sabiá e Eugênio do Prainha (bares paulistanos frequentados pela dupla de artistas), Walt Disney, Dilma Rousseff, cachorros, Popozuda, Charles Chaplin, Marina Person, Assis Valente e Carmen Miranda.

“Cerâmica”: Luiz Gonzaga, Humberto Teixeira, Mazzaropi, Pero Vaz de Caminha, Vidas Secas e Pedra de Roseta.

“Porcelana”: João Gilberto, Buster Keaton, Gisele Bündchen, Mira Schendel, Grace Kelly, Braguinha, Lamartine Babo, Fred Astaire e Paulinho da Viola.

“Nanquim”: Nelson Cavaquinho, Chacrinha, Lampião, Aracy de Almeida, Amigo da Onça, editoriais de jornal, Joseph-Ignace Guillotin, erratas, Daniel Paul Schreber (paciente de Freud), suicídio de Getúlio Vargas, Madre Teresa de Calcutá, urubu e Os Sertões.

Após um ano acompanhando a criação de “O globo da morte de tudo”, minha visão das coisas se transformou na mesma de Nuno Ramos e Eduardo Climachauska. Passamos a classificar tudo segundo as categorias que criaram. Na Seleção Brasileira de 1958, Djalma Santos, Bellini, Zito e Vavá são “cerâmica”; Nílton Santos e Didi são “porcelana”; Zagallo, “cerveja”. A dúvida estava em classificar Garrincha: “cerveja” ou “cerâmica”? E Pelé, o inclassificável? Na música popular brasileira, Dorival Caymmi e Milton Nascimento são “cerâmica”; Chico Buarque e Caetano Veloso, “cerveja”; Cartola e Mário Reis, “porcelana”; Batatinha e Lupicínio Rodrigues, “nanquim”. A classificação pode valer também para a literatura, na qual o time da “cerâmica” tem Tolstói, Zola, Graciliano Ramos e Rubem Braga. Balzac, Eça de Queirós, Lima Barreto, Hemingway, Brecht e Érico Verissimo jogam em “cerveja”. “Porcelana” são o Dante do “Paraíso”, Padre Vieira, Henry James, Proust, Fernando Pessoa, Joyce, Guimarães Rosa e Borges. Por fim, o Homero da Ilíada, o Dante do “Inferno”, Sade, Baudelaire, Melville, Dostoiévski, Machado de Assis, Kafka, Nelson Rodrigues, Clarice Lispector e Drummond são “nanquim”.

Numa ocasião, Climachauska afirmou que, até o final da Idade Média, a humanidade era toda “cerâmica”. Nuno Ramos contestou, dizendo que existira a Grécia clássica, “porcelana pura”. Durante os dias em que a exposição esteve aberta, uma das funcionárias da galeria telefonou para Clima. Tinham achado uma barata num dos copos com líquido e queriam saber se “aquilo” também fazia parte da obra. “Depende”, respondeu o artista, “se estiver em ‘nanquim’, faz parte, sim.”

Milton Ohata

Milton Ohata, doutor em história pela USP e editor da Cosac Naify, é coorganizador de Um Crítico na Periferia do Capitalismo (Companhia das Letras), coletânea de ensaios e depoimentos sobre Roberto Schwarz.

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