vultos da República

Político apolítico

Gilberto Kassab cria um partido para a situação, a oposição, o centro, a direita e a esquerda

Plínio Fraga
Kassab gosta de exercer o poder. “Participo de tudo, sei de cada coisa da administração”, disse. “Tenho confiança para delegar, mas conheço tudo.” Continua solteiro porque a política lhe ocupa todo o tempo. Não lembra quando foi pela última vez ao cinema, não lê livros de ficção, não passeia
Kassab gosta de exercer o poder. “Participo de tudo, sei de cada coisa da administração”, disse. “Tenho confiança para delegar, mas conheço tudo.” Continua solteiro porque a política lhe ocupa todo o tempo. Não lembra quando foi pela última vez ao cinema, não lê livros de ficção, não passeia FOTO: EGBERTO NOGUEIRA_2011

A primeira surpresa ocorre antes mesmo de o visitante entrar na casa de Gilberto Kassab, no 9º andar de um prédio vizinho ao Shopping Iguatemi, em São Paulo: a porta do apartamento é douradíssima. A segunda se dá na sala principal: o prefeito manca. A terceira vem quando ele informa por quê: torcera o tornozelo pouco antes, ao andar na esteira.

Acabaram as surpresas. A decoração do apartamento, tal e qual o topete de Kassab, é discreta e demodée. Paulistano típico da classe alta, o prefeito é um cinquentão de raízes libanesas, mãe professora e pai médico, que fez as primeiras letras no Liceu Pasteur, foi zagueiro no Esporte Clube Pinheiros e torce pelo São Paulo.

Estudou na Politécnica, escola de engenharia da Universidade de São Paulo que formou dez prefeitos paulistanos. Entre eles: Prestes Maia (o Anhangabaú e o Estádio do Pacaembu), Figueiredo Ferraz (a primeira linha do metrô), Paulo Maluf (o Minhocão e contas de familiares em paraísos fiscais), Olavo Setubal (os calçadões no Centro), Reynaldo de Barros (o alargamento da pista de pouso da sua fazenda), Mario Covas (o primeiro corredor de ônibus) e José Serra (a ponte estaiada sobre o rio Pinheiros). Em cinco anos como prefeito, a obra mais eloquente de Kassab é negativa: ter proibido propaganda em lugares públicos.

Eram sete e meia da manhã. O prefeito acordara uma hora antes para dedicar-se à boa forma e aos jornais. Pela ausência de manchetes com calamidades municipais, a leitura dos periódicos lhe foi mais agradável que o tropeço na esteira. Ainda assim, deparou-se com a declaração, azeda e verdadeira, de Catherine Deneuve, que sobrevoara São Paulo no dia anterior: “Não há muitas árvores, não há verde. E também não há muita cor nos imóveis, é tudo um pouco cinza. Tem também muitos fios de eletricidade.” Conformado, mas otimista, o prefeito comentou: “Não é novidade. É a famosa selva de pedra. Mas a cidade está mais verde, melhor.”



Andara 4 quilômetros na esteira, a uma velocidade média de 7,5 quilômetros por hora, ritmo um pouco além da caminhada e um pouco aquém da corrida. É uma marcha parecida com a do Partido Social Democrático, que Kassab tenta pôr de pé: ele está além do governismo, mas aquém da oposição. Ou, como na frase do prefeito, que se tornou a divisa do PSD: “Um partido que não é de direita, nem de esquerda, nem de centro.”

O contorcionismo ideológico não faz com que tropece no discurso. “A frase é muito transparente”, disse. “O partido ainda não tem programa. Vou lutar para que seja liberal na economia e com preocupação social.”

Ou seja, Gilberto Kassab é a favor do bem de todos. Ele apoia a presidenta Dilma Rousseff, mas jura que jamais ficará contra José Serra. No seu PSD cabem políticos de todas as origens, desde que abandonem qualquer ideia política.

 

O prefeito começou a fazer política em 1984, ano da grande campanha pela eleição direta para presidente. Militava nas fileiras da direita, no fórum de jovens empreendedores da Associação Comercial de São Paulo, aparelho da colônia libanesa que apoiava a candidatura indireta de Paulo Maluf ao Planalto.

“Quando me formei, Guilherme Afif estava entrando na Associação Comercial”, lembrou. “Temos um parentesco distante. A relação pessoal é muito mais próxima do que a familiar. Fui ajudá-lo na campanha de deputado pelo Partido Liberal. Em 1986, ajudei Antonio Ermírio de Moraes para governador e Afif para constituinte. Quando veio a eleição de presidente, em 1989, coordenei a campanha de Afif e gostei.”

No segundo turno de 1989, no entanto, Kassab rompeu com a lógica: disse ter votado em Luiz Inácio Lula da Silva. No ano seguinte, foi candidato a deputado estadual, amealhou mirrados 9 mil votos e não se elegeu. “Mas aprendi em que errei”, disse.

Aprendeu mesmo: desde então, não perdeu uma. Foi deputado estadual, duas vezes federal e secretário de Planejamento na desastrosa prefeitura de Celso Pitta. Saiu da Câmara dos Deputados para ser vice-prefeito de José Serra. Herdou o cargo e depois foi eleito prefeito na legislatura seguinte – ainda mantém o jingle de campanha (“Sorria, meu bem, sorria”) no toque do celular. Pensa em se candidatar a governador de São Paulo, ou a senador, na próxima eleição. De imediato, empenha-se na estruturação do PSD.

Como Lula, Kassab não gosta de discursos escritos, prefere falar de improviso. Está bem longe de ser um orador empolgante. Ao pegar um microfone, tenta mimetizar um animador de auditório. Começa sempre com um cumprimento “a todas e a todos”. Numa solenidade de entrega de veículos para transporte de deficientes físicos, no mês passado, entrevistou os motoristas no palco: “Há quanto tempo dirige para a prefeitura? É são-paulino? Pode ligar para o Serviço Atende da prefeitura para ir até a casa da namorada?”, questionava. “Sim, pode”, respondeu um dos motoristas. A um dos deficientes mais agitados disse: “Você é um capetinha, hein?” Depois de descer do palco, beijou-o e posou para fotos com ele.

 

Kassab gosta de exercer o poder. “Participo de tudo, sei de cada coisa da administração, sou disciplinado”, disse. “Tenho confiança para delegar, mas conheço tudo.” No dia anterior a uma das nossas entrevistas, contou que havia passado a noite em casa, lendo um relatório sobre a gestão na saúde. Disse que continuava solteiro porque a política lhe ocupava quase todo o tempo. Não lembra qual a última vez que foi ao cinema, não lê livros de ficção, não passeia.

O secretário da Saúde Januario Montone, que entrou na prefeitura pelas mãos de Serra e continuou na administração com a eleição de Kassab, apontou a diferença essencial entre os dois, o horário: “Serra cobrava aos secretários tarde da noite, e o Kassab logo cedo, de manhã. Um deve dormir na hora que o outro acorda.” E anotou a semelhança: “Ambos blindam as áreas sensíveis. Nas áreas de ação social não há nomeações políticas. Sou secretário de porta fechada.”

Um colaborador antigo define Kassab como um político à moda mineira, daqueles que não esquecem aniversário de aliado e não recusam convites para uma passadinha em casa. “É questão de delicadeza e educação”, justificou o prefeito. Na sexta-feira em que torcera o tornozelo, não iria à casa de vereador algum. Mas abriu sua porta dourada a um deles, Dalton Silvano.

Camisa fora do jeans, cabelos longos e encaracolados, Silvano nem precisava dizer que seu ídolo é o cantor Roberto Carlos: está na cara. O perfil de Silvano no seu site diz que o vereador, bom de bola, “passou a ser objeto de cobiça do time da rua vizinha. Um dia, o líder do time rival ofereceu uma proposta em dinheiro para que Dalton Silvano mudasse de time, o que foi prontamente recusado. Ao não aceitar a proposta, Dalton Silvano demonstrava desde pequeno o seu caráter moral e ético”.

Ex-peemedebista e ex-tucano, hoje sem partido, não será surpresa se Silvano vestir a camisa do novo PSD. À vontade na casa do prefeito, mantiveram uma conversa a sós. Na saída, perguntei se havia resolvido assuntos de seu interesse. “Os interesses não são meus, são sempre dos paulistanos”, respondeu Silvano. Continua um craque.

Enquanto conversavam, chegou o secretário de Habitação, Ricardo Pereira Leite. Outro egresso da Politécnica, Leite é amigo do prefeito há trinta anos, desde quando ocupavam cadeiras cativas do Morumbi para assistir a jogos do São Paulo. Leite pediu a Ana, a empregada da casa, um café, enquanto aguardava o prefeito.

O secretário lembrou que eles não eram “da turma que mais estudava na Poli”. Tendo trabalhado em empresas de incorporação imobiliária, Leite trouxe para a prefeitura o projeto de “cidade compacta”, no qual a verticalização exerce um papel essencial, para que mais pessoas vivam em áreas próximas dos serviços públicos disponíveis. Na sua visão, o futuro de São Paulo será mais como Moema, com seus prédios residenciais de dezenas de andares, comércio múltiplo, adensamento populacional maior do que o do Pacaembu e Alto de Pinheiros, zonas onde as casas predominam. Mas Pereira Leite não mora em Moema, e sim no Alto de Pinheiros. “É um problema”, disse. “Tenho de pegar carro até para comprar pão.”

 

Em abril, o Tribunal de Justiça liberou a tramitação na Câmara de projeto de lei de Kassab para revisão do plano diretor – as diretrizes para o ordenamento da cidade, como as regras de uso do solo. O atual plano diretor foi elaborado em 2002 e a lei que o criou previa revisão após cinco anos, o que não ocorreu.

O primeiro arranha-céu paulistano foi o edifício Martinelli, com seus 130 metros de altura, que foi inaugurado em 1934 e hoje abriga a Secretaria de Pereira Leite. A partir de então, São Paulo seguiu o modelo de urbanização de Chicago, que se caracterizou pela construção de prédios de altura até vinte vezes maior do que o terreno ocupado.

Duas décadas depois, William Faulkner, que ganhara o Nobel de Literatura cinco anos antes, visitou São Paulo. O crítico literário Wilson Martins contou que o autor de O Som e a Fúria ficou embriagado a maior parte do tempo. Acordou numa manhã num quarto do Hotel Esplanada, no Centro da cidade, e, ao olhar pela janela, perguntou: “Mas o que vim fazer em Chicago?”

São Paulo já era a maior metrópole sul-americana. Sessenta anos depois, os números da cidade são eloquentes: mais de 11 milhões de moradores, 34 bilhões de reais de receitas ao ano, uma economia que produz 12% da riqueza nacional.

Mas a cidade está à beira do colapso. O paulistano perde, em média, duas horas e quarenta minutos diariamente no trânsito. A cada dia, há 540 novos carros nas ruas. Pesquisas indicam que, se pudesse, metade dos paulistanos deixaria a cidade. Com tudo isso, o secretário Pereira Leite não entregou os pontos: “Se São Paulo fosse tão ruim, não continuaria atraindo tanta gente. As pessoas adoram viver aqui.”

 

Na primeira semana de junho, reuniram-se em São Paulo prefeitos  e administradores das quarenta maiores cidades do mundo, na quarta edição do Climate Leadership Group, o C-40. A ideia da organização é trocar informações visando reduzir os gases que provocam o efeito estufa, responsável pelo aquecimento do planeta.

O C-40 é atualmente presidido pelo prefeito de Nova York, Michael Bloomberg. Dono da 13ª maior fortuna dos Estados Unidos, ele esteve com os democratas, depois com os republicanos e hoje se diz independente. Reeleito prefeito pela terceira vez, Bloomberg quer ser presidente da República. Desembarcou em São Paulo com um banco público – um daqueles verdes, característicos do Central Park – que doou para ser colocado no Parque do Ibirapuera, atrás da Oca desenhada por Oscar Niemeyer. Em contrapartida, ganhou de Kassab, para ser levado para o Central Park, um banco feito com o tronco de uma árvore centenária de Trancoso, no sul da Bahia.

Durante o encontro, os prefeitos, ambientalmente corretos, circularam pela cidade em carros elétricos e em ônibus abastecidos com biodiesel. Naqueles dias, um pulmão eletrônico instalado no Centro registrou que o número de partículas nocivas no ar foi três vezes maior que o tolerável.

Foi num ônibus a biodiesel, junto com a namorada Diana Taylor (volta e meia na lista das nova-iorquinas mais elegantes), que Bloomberg, Kassab e uma penca de seguranças americanos puderam observar o trânsito de São Paulo. Levaram quase meia hora para ir do Ibirapuera ao Jockey Club, um trajeto de 13 quilômetros – e estavam com batedores.

Ao chegarem ao Jockey, no início da noite, Kassab mostrou a Bloomberg a pista de corrida, apontou para um prédio e disse, num inglês claudicante: “Eu moro lá, tenho toda essa linda vista da minha janela.” (Um tradutor sombra acompanhou Kassab durante os quatro dias do encontro.)

O prefeito de Buenos Aires, Mauricio Macri, juntou-se a eles e perguntou se a prefeitura subsidiava o Jockey. Kassab respondeu secamente que não. Perdeu a chance de dizer que o clube centenário tem uma dívida com a prefeitura de 150 milhões de reais em impostos atrasados há décadas.

Bloomberg explicou o que vem fazendo para melhorar o trânsito da sua cidade. “A prioridade do nova-iorquino tem de ser, primeiro, andar a pé, depois de bicicleta, e finalmente em transporte público”, disse. “Se quiser andar de carro, tem de pagar caro por isso.”

O prefeito fez um projeto criando um pedágio para a circulação de carros particulares em certas áreas de Nova York. Perdeu, mas não desistiu da ideia. Robert Doyle, prefeito de Melbourne, na Austrália, concordou: “Em certas horas de tráfego pesado, não cobramos nem a passagem para quem usar os ônibus públicos no Centro de Melbourne. Quem quiser ir de carro paga.”

 

A prefeitura paulistana chegou a enviar à Câmara um projeto criando o pedágio na cidade. Mas o retirou da pauta logo em seguida, quando começaram as críticas. “Aquilo foi uma coisa dos verdes e passou batido por mim”, disse Kassab, em referência à equipe do secretário do Verde e do Meio Ambiente, Eduardo Jorge.

“A proposta faz sentido ambiental, mas é preciso incluir na análise outras vertentes”, disse. “Do ponto de vista macro, dosando as coisas, o proprietário de automóvel está pagando demais: tem rodízio, IPVA alto. Por isso retirei o projeto.”

Citei o exemplo de Londres, que implementou o pedágio urbano e o trânsito melhorou. O prefeito respondeu: “Londres é uma cidade menor, com metrô e muito mais alternativas de transporte.” Ele calcula que 6 milhões de paulistanos usam carro porque não têm alternativa de transporte. Os que usam metrô e ônibus somam 4,5 milhões.

“Um dia, se puder aplicar, é evidente que o pedágio seria muito bom”, disse. “Mas desde que existam alternativas. As pessoas vivem, têm de trabalhar, levar os filhos à escola. A tendência é a de uma estabilidade demográfica e de recuperação do transporte público.” Ou seja: o prefeito apolítico vai tocando como dá, de modo a não desagradar ninguém. E o trânsito só piora, assim como a poluição.

Kassab, não obstante, acredita que a questão ambiental é de suma importância, inclusive no plano eleitoral. Tanto que trabalha para fazer Eduardo Jorge, do Partido Verde, o seu candidato à sucessão, no próximo ano. “Eduardo Jorge é um cara moderno, respeitado, conhece a cidade, conhece saúde, meio ambiente”, disse, de olho no eleitorado jovem e na renovação dos nomes oferecidos aos eleitores. “O tempo está mostrando que, caso os verdes o definam como candidato, a escolha caminha para ele.”

Foi pensando em Eduardo Jorge, segundo ele “uma pessoa simples”, que Kassab disse que insistirá, nos próximos meses, em reajustar o salário de prefeito. No ano passado, a Câmara rejeitou a proposta de dobrar o seu salário para 24 mil reais, e de aumentar o dos secretários de 5 para 20 mil reais.

De acordo com a declaração de renda entregue à Justiça Eleitoral, Kassab tem um patrimônio no valor de 5,5 milhões de reais espalhado nos seguintes bens: o apartamento em que mora, dois carros importados e cotas em uma empresa de participações com atuação nos setores imobiliário e gráfico e um título do Esporte Clube Pinheiros, cotado em 14 mil reais.

A escolha do verde Eduardo Jorge como candidato do PSD de Kassab, logo na primeira eleição, entrará em choque direto com o PSDB de José Serra, responsável maior pela eleição de Kassab à prefeitura. Não é de hoje que ele tromba com os tucanos: ele morou na mesma rua em que José Serra, no Alto de Pinheiros, e agora o seu apartamento fica na rua em que Mario Covas residia.

Ao fundar o PSD, Kassab atraiu dezenas de parlamentares tucanos, acirrando as dificuldades do partido. Especulou-se, nos meios políticos e na imprensa, que, dadas as relações entre o prefeito e Serra, o tucano seria o verdadeiro (e oculto) artífice do PSD, que viria a servir-lhe de linha auxiliar.

 

Na sala da casa de José Serra, sobre um móvel próximo à porta de entrada, havia um exemplar de A Ponte: Vida e Ascensão de Barack Obama, do jornalista David Remnick. O marcador indicava que a leitura estava adiantada. Uma das melhores passagens da biografia mostra como uma derrota eleitoral de Obama, em Chicago, moldou o futuro do atual ocupante da Casa Branca.

No final de uma tarde de sexta-feira, Serra estava com seu figurino de sempre, na versão inverno: calça social, camisa azul-clara, pulôver com gola em V e mocassins. Depois de oferecer água e gelatina sem açúcar, contou que foi procurado por Kassab apenas para ser comunicado da decisão de criar o PSD. “Não só não sabia do projeto do partido como tentei dissuadi-lo da ideia”, disse. “Além do mais, para administrar São Paulo é preciso ser como um síndico. A população não gosta de que o prefeito fique fazendo política em vez de administrar.”

Apesar de ter discordado da criação do novo partido, o tucano segue gostando de Kassab. Afinal, o prefeito seguiu as linhas de sua gestão e manteve os principais nomes em seus postos. “Ele continuou o que fiz e chegou até a ser mais radical na implantação de algumas ideias”, disse. “A Lei Cidade Limpa era uma iniciativa minha que Kassab abraçou e ampliou muito mais do que eu pensava em fazer.”

Na campanha de 2004, Serra quis que o iatista Lars Grael fosse o seu companheiro de chapa. Mas o DEM impôs Kassab, criatura da máquina partidária. A contragosto, Serra o aceitou. E se surpreendeu: “Ele se mostrou muito leal e dedicado, comigo no governo e depois fora dele. Cumpriu tudo o que havíamos combinado quando deixei a prefeitura.”

A conversa se esticou, Serra me acompanhou até a porta e decidiu ir comigo ao ponto de táxi. O dono de uma banca de revistas o reconheceu, duas senhoras alteraram o caminho para cumprimentá-lo. Ao chegarmos à praça Panamericana, dois policiais militares apareceram, esbaforidos. Membros da equipe de segurança a que todo ex-governador tem direito não perceberam quando Serra saiu de casa. Indagando aqui e acolá, acharam-no.

Serra contou que, exceto pelos seguranças, agora leva uma vida de cidadão normal: ele mesmo dirige o seu carro, anda com documentos e dinheiro no bolso; conversa com os vizinhos. Retomou as caminhadas pelo bairro. “Parei de andar quando era prefeito porque sempre alguém me abordava”, disse. “Se eu parava, perdia o ritmo do exercício e escutava uma reclamação. Mas se continuava, era chamado de antipático. Não tinha escapatória.”

 

Kassab confirmou: “Serra foi radicalmente contra a criação do partido. Achava que ficaria enfraquecido no DEM com a migração de aliados seus para o PSD. Mas, respeitosamente, me disse: ‘Não tenho direito de tentar impedir, mas acho que você está errando, para nós é ruim.’”

O prefeito não acha que Serra disputará a prefeitura no ano que vem. Quer vê-lo candidato a presidente em 2014. “Pessoalmente, sempre estarei com Serra; política e partidariamente, sempre que possível”, disse. Serra pode vir a ser candidato do PSD? “Não digo que seja impossível”, respondeu. “Mas o partido tem que liberar suas lideranças para apoiar quem quiser, em 2014. O nosso projeto é 2018.”

Apesar das negativas dos dois, o governador Geraldo Alckmin considera o novo partido como um braço de Serra fora do PSDB. Como o vice de Alckmin é Guilherme Afif, que aderiu ao PSD, o governador ficou de certa maneira amarrado à própria cadeira: se deixar o cargo em 2014 para disputar, por exemplo, a Presidência, perderá o controle da máquina do governo para um adversário.

O mal-estar entre Kassab e Alckmin teve seu auge retratado, em meados de junho, numa nota da Folha de S.Paulo. Ela relatava uma visita surpresa do prefeito ao gabinete do ex-aliado Rodrigo Garcia, o secretário estadual de Desenvolvimento Social. “Vocês querem acabar comigo, mas sou eu que vou acabar com vocês”, disse o prefeito, referindo-se a ações judiciais para atrasar o registro do PSD. Kassab confirmou o encontro, mas negou ter alterado sua voz com aquele que foi um de seus mais próximos colaboradores, a quem tratava como “irmão mais novo”.

Em menos de um semestre de articulação, o PSD anunciou contar com 2 senadores, 2 governadores, 42 deputados federais e mais de 100 deputados estaduais. Na Câmara, o partido já conta com a quarta maior bancada.

“Não teve custo”, disse Kassab. “Foram umas cinco viagens de avião e, nos últimos quatro meses, uma salinha em Brasília a 4 mil reais de aluguel.” Há hoje 27 partidos políticos registrados, e três outros com pedido de registro. Um deles se chama Partido da Mulher Brasileira.

 

O partido de Kassab é um sucedâneo do velho Partido Social Democrático, legenda que debutou no final do Estado Novo. Foi criado pelo próprio ditador, Getúlio Vargas, que formou outro partido, o Trabalhista Brasileiro. O PSD elegeu dois presidentes, Eurico Gaspar Dutra, em 1945, e Juscelino Kubitschek, dez anos depois. Abrigou raposas como José Maria Alkmin e Tancredo Neves, que celebrizaram um modo de fazer política que se condensou num personagem arquetípico, o pessedista mineiro.

Os valores do personagem incluíam a prudência, a moderação, a matreirice, o respeito à autoridade, o conservadorismo, o gosto pela negociação e pela conciliação. Entre 1945 e 1965, quando os militares extinguiram todos os partidos, o PSD sempre esteve com o governo, qualquer que fosse ele. Tancredo Neves definia assim o partido: “Entre a Bíblia e O Capital, o PSD fica com o Diário Oficial.”

É esse ranço governista que o presidente do Democratas, o senador José Agripino Maia, aponta como característico do novo PSD. Ele definiu Kassab como “a esperteza em pessoa”. E explicou por quê: “Ele é muito hábil e ambicioso. Primeiro, Kassab queria a fusão do DEM com o PSDB. Depois, forças novas foram se agrupando em torno dos interesses dele, em razão de incômodos regionais e alianças pessoais. E ele saiu amealhando partidários no DEM, no PSDB, no PPS. A maioria tangida por um sopro que veio do Palácio do Planalto.” Segundo Agripino, o novo partido nasce com um “claríssimo” viés governista: “Tem ali a mão do Planalto para esvaziar a oposição.”

O PSD precisa reunir 500 mil assinaturas favoráveis à sua criação para cumprir o mínimo de 0,5% dos votos para deputados da última eleição – uma exigência legal. Kassab me disse que o partido já soma mais de 1,2 milhão de apoiadores.

No mês passado, o Ministério Público Eleitoral começou a investigar acusações de irregularidades, como a inclusão de quatro mortos em lista de apoiadores apresentada em Santa Catarina. Funcionários da Prefeitura de São Paulo foram flagrados usando seus cargos para arregimentar apoiadores para o partido.

O presidente do DEM disse que vários partidos pedirão a conferência das fichas dos 500 mil eleitores necessários para a regularização do partido. “O PPS vai pedir, o PMN, que foi destroçado pelo PSD também pedirá”, disse Agripino. “Há muita gente contrariada, denúncias de má conduta. É um cesto de mil interesses.”

 

Indio da Costa, o candidato a vice na chapa de Serra, que coordena a coleta de assinaturas no Rio, calculava ter obtido a adesão de 46 mil eleitores, muito além da meta de 9 mil que lhe foi passada.

A adesão espantosa começou a ser concretizada num jantar no Rio, no Palácio das Laranjeiras, entre Kassab, o governador Sérgio Cabral, o prefeito Eduardo Paes, o vice Luiz Fernando Pezão e Indio da Costa. No final do mesmo mês, Cabral foi a São Paulo e jantou novamente com Kassab, no Restaurante Leopoldo, e costurou o acerto. O prefeito de São Paulo disse para o governador do PMDB: “Para mim, partido tem de ter chefe. E, no Rio, o chefe do PSD é você, Cabral. E os padrinhos são a Dilma e o Lula.”

Em uma sala contígua ao seu gabinete, durante um almoço, Sérgio Cabral estava de bom humor. Referindo-se a sua relação com o vice-governador Pezão, disse gracejando com seus antecessores, e hoje opositores, Rosinha e Anthony Garotinho: “Nunca houve dupla mais afinada neste palácio.”

Na parte séria da conversa, o governador confirmou que se reuniu com Kassab para auxiliar a montagem do PSD no Rio. “Kassab é um animal político”, elogiou Cabral. Ele acha que o novo partido está mais próximo de Dilma do que de Serra. O próprio Lula, contudo, afirmou, em Brasília: “Não se iludam, esse Kassab é Serra.”

Na oposição, no Rio, só restaram duas forças, cada vez mais combalidas: o grupo de Garotinho e o do ex-prefeito Cesar Maia. Numa manhã recente, Cesar Maia tinha tempo de sobra para conversar, em sua casa, na estrada da Gávea, no meio da Mata Atlântica. Tinha levado os netos à escola porque, sem mandato, e com a filha tendo ficado viúva recentemente, assumiu diversas funções familiares.

A entrevista foi interrompida pelo telefonema de uma das netas. Ela tinha ido mal em uma prova (nota 53), e Cesar combinava aulas de reforço que ele próprio daria. “Minha filha e meus cinco netos estão morando comigo, estou sendo praticamente pai outra vez”, contou.

Cesar Maia acompanha a criação do PSD com curiosidade. “Um partido normalmente nasce homogêneo, e com o tempo se torna heterogêneo, mais flexível aos seus ideais de origem, como prova o PT”, disse. “Mas esse aí já nasce heterogêneo e aideológico. Parece o PDS com a letra trocada.”

Kassab acha quase a mesma coisa, mas usa um palavreado positivo: “Qualquer partido é contraditório. O Brasil é muito complexo. Não existe nenhum partido alinhado. Nem PT, nem PMDB, nem PSDB. Agora, o PSD tem muita coerência. Um traço do partido é a experiência. Estão vindo cada vez mais apoiadores porque veem que não há malandragem nem fisiologismo.”

O prefeito não vê problema em construir uma agremiação sem perfil programático ou ideológico: “Os partidos todos têm programa? Algum cumpre? Não é melhor falar a verdade? Não temos programa ainda. Estruturamos uma comissão para discuti-lo, liderada pelo Guilherme Afif.”

Para os oposicionistas, o PSD é um partido governista; para os governistas, é oposicionista. Ele é a porta dourada que se abre para a resolução de conflitos regionais, insatisfações pessoais e realinhamentos políticos.

Kassab me disse que tem boas relações com Dilma e Lula. Ele procurou a presidenta durante a crise que resultou na demissão do ministro Antonio Palocci. Quis dizer a ela que, ao contrário do que afirmara Gilberto Carvalho, assessor direto de Dilma, não fora ele que vazara dados fiscais de Palocci para a Folha de S.Paulo.

Desde janeiro, houve mais de 300 acessos na base de dados do município à procura de informações da Projeto, a empresa de consultoria de Palocci. Kassab afirma que uma investigação interna demonstrou que todos os acessos se deram a pedido da empresa de Palocci. Apesar de todas as explicações, as relações de Kassab com o Palácio do Planalto esfriaram.

 

No horário de almoço de um dia útil, Kassab alugou um helicóptero para ir até São Bernardo do Campo. Pousou no campo do estádio da Vila Euclides, famoso por sediar assembleias dos metalúrgicos nos anos 80, sob a liderança de Lula.

Passou pela Câmara Municipal e seguiu para o Restaurante São Judas Tadeu, da família Demarchi, amiga de Lula de longa data. Kassab levava a tiracolo dois vereadores da cidade que trocaram o DEM pelo PSD. Levou-os para almoçar com Luiz Marinho, o prefeito de São Bernardo. Luiz Marinho é um dos petistas mais próximos de Lula. Comendo frango a passarinho com polenta, Kassab assegurou que o PSD local continuará a apoiar Marinho na prefeitura, e que defenderá a sua reeleição.

Depois do almoço, seguiu para Vila Euclides, embarcou no helicóptero e voltou a São Paulo. Durante o encontro dos quarenta prefeitos, Bloomberg disse que vai trabalhar de metrô. A vice-prefeita de Paris, Anne Hidalgo, falou que prefere ir de bicicleta.

Plínio Fraga

Plínio Fraga foi jornalista de piauí entre 2011 e 2012.

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