questões poéticas

Por que os clássicos

Um poeta explica as razões de seu poema

Zbigniew Herbert 
Se existisse uma escola para ensinar literatura, um de seus exercícios básicos deveria ser a descrição não de sonhos, mas de objetos. Não devemos perder a fé de que as palavras possam capturar o mundo, fazer-lhe justiça
Se existisse uma escola para ensinar literatura, um de seus exercícios básicos deveria ser a descrição não de sonhos, mas de objetos. Não devemos perder a fé de que as palavras possam capturar o mundo, fazer-lhe justiça ILUSTRAÇÃO: CORTESIA DE SEA HYUN LEE E UNION GALLERY,LONDRES

Escolho este poema [1] após certa hesitação. Não o considero o melhor que escrevi, nem mesmo um dos poemas capazes de representar meu programa poético. Acho que ele tem duas virtudes: é simples, enxuto, e trata de assuntos de fato próximos ao meu coração, sem estilizações ou ornamentos supérfluos.

O poema está estruturado em três partes. Na primeira, fala de um incidente extraído da obra de um autor clássico. É, digamos assim, uma anotação da minha leitura. Na segunda parte, transfiro o incidente para os tempos contemporâneos a fim de provocar uma tensão, um choque, e revelar uma diferença essencial de atitude e de comportamento. Por fim, a terceira parte contém uma conclusão ou moral, e também transpõe o problema da esfera da história para a esfera da arte.

Não é preciso ser um grande entendido em literatura contemporânea para perceber o traço característico que a marca – a eclosão do desespero e da descrença. Todos os valores fundamentais da cultura europeia foram postos em xeque. Milhares de romances, peças e poemas épicos falam de um aniquilamento inevitável, da falta de sentido da vida, do absurdo da existência humana.

Não pretendo submeter o pessimismo a um ridículo fácil – ele é uma reação perante o mal no mundo. Todavia, acho que o tom negro da literatura contemporânea tem sua fonte na atitude dos escritores em face da realidade. E foi isso que tentei atacar em meu poema.



Apesar das mudanças de estilo e de gosto literário, a visão romântica do poeta que põe a nu suas feridas e relata os próprios infortúnios continua a ter muitos defensores. Recebe apoio universal a ideia de que o artista tem um direito sagrado ao subjetivismo ostentoso, à exposição de um “Eu” sensível.

Se existisse uma escola para ensinar literatura, um de seus exercícios básicos deveria ser a descrição não de sonhos, mas de objetos. Fora do alcance do artista, um mundo se desdobra – difícil, escuro, mas real. Não devemos perder a fé de que as palavras possam capturá-lo, fazer-lhe justiça.

Bem cedo, mais ou menos no início de minha vida de escritor, cheguei à conclusão de que devia me apoderar de algum objeto situado fora da literatura. Parecia-me vão escrever como um exercício estilístico. A poesia como arte da palavra me fazia bocejar. Compreendi também que os poemas dos outros não me bastavam como sustento. Eu precisava sair de mim mesmo e da literatura, olhar para o mundo à volta e tomar posse de outras esferas da realidade.

A filosofia me deu a coragem de formular as perguntas elementares, fundamentais, básicas: o mundo existe, qual é sua essência, e ela pode ser conhecida? Se tal disciplina pode ter alguma serventia para a poesia, não é por causa da aplicação direta de eventuais sistemas filosóficos, mas pela recriação do drama do pensamento.

Não me volto para a história com o propósito de extrair dela uma lição fácil de esperança, mas sim para confrontar minha experiência com a de outras pessoas, adquirir algo que possa chamar de compaixão universal, além de um sentido de responsabilidade – responsabilidade pelo estado de minha consciência.

Um antigo sonho de poetas é que a obra deles possa se tornar um objeto concreto, como uma pedra ou uma árvore, que aquilo que eles fazem a partir da matéria-prima da língua – ela mesma sujeita a constantes mudanças – possa adquirir uma existência duradoura. Uma das maneiras de alcançar isso, me parece, é projetá-la para bem longe do próprio poeta, apagar os vínculos que ligam o poema a seu criador. É assim que entendo a recomendação de Flaubert:“O artista deve estar presente em sua obra como Deus na natureza.”

POR QUE OS CLÁSSICOS


no quarto livro da Guerra do Peloponeso
Tucídides nos conta entre outras coisas
a história de sua expedição fracassada

entre longos discursos de comandantes
pragas invasões batalhas
densas intrigas diplomáticas
o episódio é quase insignificante

a colônia grega Anfípolis
caiu nas mãos de Brásidas
porque Tucídides não chegou a tempo

por isso ele ofereceu à sua cidade natal
o autoexílio eterno

exilados de todos os tempos
conhecem esse preço

2
generais de guerras mais recentes
se algo parecido lhes acontece
imploram de joelhos diante da posteridade
exaltam a si próprios, juram inocência

acusam subordinados
colegas invejosos
ventos traiçoeiros

Tucídides diz apenas
que tinha sete navios
era inverno
e navegou depressa

3
se a arte, por seu objeto,
tiver um vaso quebrado
uma alma pequena despedaçada
com pena de si própria

o que restará depois de nós
será como o choro de amantes
num hotel vagabundo
quando as paredes amanhecem


[1] “Por que os clássicos”: publicado na piauí_20,  maio de 2008, com tradução de Sylvio Fraga Neto e Danuta Haczynska da Nóbrega

Zbigniew Herbert 

Zbigniew Herbert é poeta e escritor

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