esquina

Pós-escrito trágico

Pontecorvo morreu e a tortura na Argélia continua

Mario Sergio Conti
ILUSTRAÇÃO: ANDRÉS SANDOVAL_2006

A batalha de Argel, o filme de Gillo Pontecorvo sobre a independência da Argélia, está tão vivo quanto há quarenta anos, quando estreou. Não porque um comitê de críticos de esquerda assim tenha decretado. Nem devido ao impacto das suas cenas de tortura. E sim porque a invasão do Iraque fez com que o filme voltasse a cartaz no Pentágono. Para o Departamento de Estado americano, A batalha de Argel serve mais como análise do presente (extremismo islâmico, insurgência, terrorismo) do que como ilustração histórica.

Com o perdão pela expressão chula, a contradição objetiva no destino do filme — obra de esquerda reaproveitada pela direita — reproduz alguns contrasensos da vida de Pontecorvo. Nascido numa rica família judia, ele se exilou em Paris quando Mussolini baixou as primeiras leis racistas. Com a invasão alemã, escapou para Saint-Tropez. Foi na Riviera francesa, onde trabalhou como professor de tênis e de caça submarina, que se politizou. Voltou à Itália, comandou um grupo da resistência, ingressou no Partido Comunista e foi um dos líderes da sua federação de jovens. Só saiu do PCI quando tropas soviéticas invadiram a Hungria, em 1956.

Pontecorvo trocou a militância pelos filmes. Ao misturar cinema e política, obteve resultados constrangedores. Em Kapò, há uma cena antológica de pieguice. Nela, uma prisioneira tenta escapar de um campo de concentração e fica presa na cerca de arame farpado. A revista Cahiers du Cinema, bíblia da vanguarda político-cinematográfica, destroçou o melodrama de Pontecorvo.

O sucesso veio com A batalha de Argel. E talvez não viesse se ele tivesse levado adiante a sua idéia original: escalar o astro americano Paul Newman para o papel do coronel Mathieu, o comandante dos paraquedistas franceses. A idéia foi posta em prática no filme seguinte, Queimada, no qual Marlon Brando encarna um agente do imperialismo britânico. Brando e Pontecorvo brigaram durante toda a filmagem. Num determinado momento, o ator passou a usar tampões de ouvido. O filme foi fracasso de público e sucesso de crítica.

 

Inseguro, Pontecorvo não conseguiu mais concretizar seus projetos — um filme sobre a vida de Cristo, outro sobre o Exército Republicano Irlandês, e um terceiro sobre a Intifada, a revolta palestina. Em 1979, dirigiu seu último filme, Ogro, cujo tema é o separatismo basco, fracasso de crítica e público.

As panorâmicas das massas em ação deram lugar, então, a closes do sabão em pó Ava e do digestivo Eparena: para sobreviver, Pontecorvo passou a fazer comerciais vagabundos para a televisão. Em 1992, teve a oportunidade de voltar à Argélia. A proposta era fazer um documentário, nos locais onde A batalha de Argel fora filmado, sobre os vinte anos da independência e a situação política argelina.

A situação política era explosiva. O governo da Frente de Libertação Nacional, a FLN, o partido que assumira o poder com a independência, estava por um fio. Depois de duas décadas de ditadura e repressão, o radicalismo religioso saíra das mesquitas, ganhara as ruas e adquirira expressão com a Frente Islâmica de Salvação, a FIS. Pontecorvo foi recebido com hostilidade. Era acusado tanto de ser um manipulador ocidental como de estar a serviço do governo (a FLN produzira A batalha de Argel). Em alguns lugares, ele e sua equipe tiveram que fugir às pressas, à força de ameaças, gritos e cusparadas.

Quando voltou à Itália, houve as primeiras eleições gerais desde a expulsão dos franceses. A FIS foi a vencedora. Entre o primeiro e o segundo turno, os militares deram um golpe com o apoio da França e dos Estados Unidos. O Exército promoveu uma perseguição furiosa aos líderes islâmicos. A tortura se disseminou. Pontecorvo não terminou o filme. Mostrou alguns dos seus trechos em Mixer, um programa de televisão do nível dos da CNT. Entrevistado, defendeu o golpe. Disse que, dado o avanço do extremismo islâmico, era melhor sacrificar momentaneamente a democracia.

Pontecorvo morreu no dia 12 de outubro. Ainda não há democracia na Argélia. A tortura continua. A FLN segue no poder.

Mario Sergio Conti

Mario Sergio Conti é jornalista e autor de Notícias do Planalto, da Companhia das Letras. Foi diretor de redação de piauí de 2006 a 2011

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