esquina

A praça ficou vazia

Isolamento social no segundo menor município do país

Allan de Abreu
ILUSTRAÇÃO: ANDRÉS SANDOVAL_2020

Desde que o governador de São Paulo, João Doria, decretou quarentena em todo o estado por causa do novo coronavírus, o aposentado Elizeu da Silva, 72 anos, está proibido de fazer o que mais gosta: jogar baralho todo fim de tarde e “contar mentiras” aos colegas, idosos como ele, na única praça de Borá, no interior paulista.

O convescote, que chegava a reunir quarenta homens, era provavelmente uma das maiores aglomerações humanas da segunda menor cidade do Brasil, com apenas 837 pessoas, segundo o IBGE – em 2013, Borá perdeu o primeiro lugar no ranking para a mineira Serra da Saudade, que tem 781 moradores.

“Agora é só sofá, tevê e cama, o dia inteiro”, diz Silva, “nascido e criado em Borá”, como ele se orgulha em dizer. “Às vezes eu até dou uma caminhada curta até a prefeitura, mas não encontro ninguém na rua, e volto para casa.”

A densidade demográfica de Borá é de apenas sete habitantes por 1 km2 (em comparação, na capital paulista se concentram 8 mil pessoas nesse mesmo espaço). Os boraenses vivem em cerca de trezentas casas, espalhadas por 22 ruas na margem Leste da estrada vicinal que liga Quintana a Paraguaçu Paulista, no Oeste do estado. De dia, o movimento é tranquilo e à noite nunca houve muita agitação, pois todos costumam se recolher por volta das nove horas.

Está errado, porém, quem pensa que o cotidiano de Borá – nome derivado do tupi mborá, que designa um tipo de abelha – não foi afetado pela pandemia.

Apesar do baixo risco de contaminação, o prefeito Wilson Ferreira Costa (Republicanos) optou pela prudência. Determinou o fechamento dos quatro bares e dispensou temporariamente todos os servidores da prefeitura. Continuam trabalhando apenas os vinte funcionários da única Unidade Básica de Saúde (UBS) do município e dez do departamento de limpeza. Elizeu da Silva, que apesar de aposentado ainda trabalha como motorista de caminhão na prefeitura, está entre os afastados. As únicas portas do comércio que seguem abertas são a do pequeno mercado, do açougue, da casa lotérica e do banco, mesmo assim deixando entrar apenas poucos clientes a cada vez.

Outra medida do prefeito foi fechar o Centro de Convivência do Idoso, que nos fins de semana recebia os mesmos senhores da praça para partidas de bocha e incontornáveis jogos de baralho. Costa também interditou o Balneário Municipal, uma pequena represa com pista de caminhada e quiosques do outro lado da estrada vicinal. “Vinha muita gente de fora passar o tempo lá, nos fins de semana. Então fechamos tudo, por causa do perigo do vírus”, diz o prefeito, que em 18 de maio completa 60 anos – e entra no grupo de risco da nova doença.

Em tempos de Covid-19, Borá zela ainda mais por seu isolamento. Qualquer forasteiro é logo identificado pelos habitantes, com olhares desconfiados. “Aqui é uma cidade de primeira. Porque, se engatar a segunda marcha, a cidade acaba”, brinca Costa.

 

Borá não tem hospital. O mais próximo fica a 18 km, em Paraguaçu Paulista, cidade com 45 mil habitantes – uma metrópole, para os padrões boraenses. É para a Santa Casa de Paraguaçu que o prefeito pretende enviar eventuais vítimas do novo coronavírus em estado grave. Sua maior preocupação são os cerca de cem idosos da cidade. “A gente quer que eles fiquem em casa, para evitar qualquer contágio”, diz.

Até o fim de abril, Borá não havia registrado nenhuma ocorrência da doença. O único caso suspeito foi o do vereador Advaldo Celestino Teixeira, o Du (PSDB). Em um fim de semana de março, o parlamentar reuniu-se com o deputado federal Cezinha de Madureira (PSD), que dias depois contou estar infectado. Teixeira achou prudente ficar em quarentena por duas semanas. “Não tive sintomas. Nem sei se tive mesmo o vírus. Foi mais por precaução.” Desde o final de março as sessões quinzenais na Câmara de Vereadores foram suspensas, sem previsão de retorno.

Borá, que ganhou status de município na década de 1960, sempre foi uma localidade pequena, mas nem tanto assim. A maior população que registrou em sua história foi na estimativa do IBGE de 1966 – 2 249 habitantes. Desde a década de 1980, entretanto, o número de moradores flutua na casa das oito centenas.

Como a maior parte dos prefeitos, Costa tem sido pressionado pelo comércio a relaxar a quarentena, mas resiste o quanto pode, até porque o setor representa muito pouco da riqueza boraense, cuja economia é fundada nas atividades do campo, como a pecuária, as plantações de amendoim e as de cana-de-açúcar.

O maior empregador é a usina de açúcar e álcool Ibéria, a 15 km do perímetro urbano, que tem mais funcionários que os habitantes de Borá: 840, sendo 100 deles boraenses. A empresa também não escapou dos efeitos da Covid-19 e decidiu dar folga para 35 empregados que estão nos grupos de risco da doença.

O município tem renda per capita alta (88,4 mil reais, contra 34,5 mil na média brasileira), mas está longe de ser autossuficiente em termos financeiros: dos 16,4 milhões de reais de receitas previstas para o Orçamento de 2020, apenas 6,1% (ou 1 milhão de reais) são recursos próprios – o restante é transferência de verbas do estado ou da União.

Nos tempos pré-Covid, a rotina de Elizeu da Silva nos dias úteis era imutável: às cinco da tarde, ele deixava o caminhão na garagem da prefeitura, ia para casa, tomava banho, atravessava a rua e se misturava aos amigos na praça, onde ganhou fama como piadista e bom de prosa. Retornava à sua casa apenas por volta das oito e meia da noite, para o jantar. Mas o tal “corona”, que Silva pronuncia com o sotaque típico do interior paulista, enfatizando o R, mudou tudo. “Dói no coração ver daqui de casa a praça vazia, no silêncio, por causa do corrrona”, diz, sorumbático.

Allan de Abreu

Repórter da piauí, é autor dos livros O Delator e Cocaína: a Rota Caipira, ambos publicados pela editora Record

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