esquina

Queima, raparigal do Piauí!

O piauiês será em breve como o latim: uma língua morta

Demétrio M. Oliveira
ILUSTRAÇÃO: ANDRÉS SANDOVAL_2006

Quem só conhece o mundo por telenovela pode supor que todo o povo do Nordeste fala a mesma língua. Mas quem um dia levantou da poltrona e saiu de férias ou a trabalho por aí, se deu conta de que o idioma global é ainda mais fajuto que o esperanto. De sotaque grego a baiano, ninguém jamais falou assim em canto algum do planeta, Nordeste incluído.

O Nordeste não fala igual. Existe a fala praieira de Dorival Caymmi, a pedra do reino de Ariano Suassuna e a palavra pétrea de João Cabral. Ou ainda o sabiá de Gonçalves Dias e a asa branca de Luiz Gonzaga, sem esquecer a hilária graúna do Henfil. O Piauí, pátria de Mário Faustino e Torquato Neto, não foge à regra. Que o diga o jornalista e escritor Paulo José Cunha, autor da Grande Enciclopédia Internacional do Piauiês, volume de 240 páginas lançado em 1995, agora em sua terceira edição. Cunha vive em Brasília, onde acumula três funções: professor da Faculdade de Comunicação da UnB, editor do jornal O Campus e apresentador de um programa de entrevistas na TV Câmara. Mas sua grande vocação é mesmo a poesia, vereda que sempre o leva de volta à terra natal. Sendo poeta, Cunha vive de caso com a língua, fuçando-lhe os segredos. Um dia, de férias em Teresina, reparou na quantidade de expressões típicas que sua mãe usava. Começou a tomar nota. Vieram depois as tias, as primas, os amigos. Todos com suas pérolas. Depois dos conhecidos, Cunha passou a vasculhar a literatura e a imprensa. Em questão de dias, estava mergulhado na tarefa ingente de dar forma a uma montanha de informações que não parava de crescer.

Um batalhão de colaboradores se formou ao redor dele. Era uma “farra permanente”, como gosta de lembrar. A qualquer hora do dia, eles entravam casa adentro com novos achados e subsídios. Paulo anotava os termos, traduzia-os para o português corrente e então buscava nos livros da terra exemplos de sua aplicação. À noite, juntava a roda de amigos para “trocar figurinhas, esclarecer dúvidas, limpar as pepitas”. E foi assim, meio na brincadeira, que nasceu a Grande Enciclopédia Internacional. Um livro “espritado que desarreda”. Ou, como se diria mais ao sul: endiabrado pra caramba.

Se o autor fosse lingüista profissional, talvez o piauiês permanecesse um dialeto inacessível aos falantes sem intimidade com aféreses, síncopes, apócopes, hipérteses e metaplasmos por subtração. Mas Cunha tem a mão leve. Seu livro é bom de ler. O forte da Enciclopédia do Piauiês é o humor rasgado. Já nas primeiras páginas, constatamos que asilado significa doido. Que a expressão usada para traduzir um grande entusiasmo ou estimular a que se meta brasa é Queima, raparigal! O verbo teresinar significa “viver as coisas boas que a capital do Piauí oferece”. (Para os íntimos, aliás, Teresina é apenas THE.) Também tomamos ciência de que andar armado tem lá por aquelas bandas um sentido excitadamente priápico, donde (supõe-se) o Não acachapante que a população piauiense deu àquela conversa carioca de desarmamento. A Enciclopédia leva a crer, ainda, que no Piauí ninguém se opera de catarata, pois isso que brota do nariz se tira propriamente com o dedo.

 

Terminada a leitura, a fortuna crítica faz um alerta importante: é iminente o desaparecimento do piauiês, idioma já esquisito para boa parte dos 3.006.885 piauienses residentes contados em 2005, notadamente aqueles criados à beira da televisão. Paulo José Cunha fez o possível: captou no ar o que pôde e registrou. Daqui a cinqüenta anos, palavras como conchambrância, bororô, curdiacho, chatô, funhenha e bichim vão continuar à disposição dos leitores da Enciclopédia. Útil a quem estiver metido em conchavos ou confusões, a quem tiver parte com o demônio ou a quem precisar de um motel na hora em que sentir aquele arrepio concupiscente ao olhar para o seu benzinho.

Demétrio M. Oliveira

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