esquina

Querido Ambrósio

Cartas por encomenda em Itaquera

Sibele Oliveira
ILUSTRAÇÃO_ANDRÉS SANDOVAL_2018

Adenusa Dantas sentou numa cadeira em frente ao balcão cinza, ajeitou os cabelos presos que revelavam a raiz grisalha e dirigiu-se a Elisabete Margoni, que imediatamente pegou um bloco de folhas e uma caneta.

“A carta é para quem?”, perguntou Margoni, voluntária do projeto Escreve Cartas. A senhora de 60 anos respondeu que o destinatário era Ambrósio, seu namorado. “É pra ele vir me visitar”, explicou. “Ele mora em Caraguatatuba.” Dantas mandou dizer que estava bem, e que não sabia quando poderia ir vê-lo. “Fala que estou esperando, e que não achei namorado aqui”, continuou. Pediu então que a missivista colocasse “uma coisa romântica”. “Diz que tenho saudade e que estou na igreja. Ele é evangélico e quer casar.”

Margoni quis saber se ela também queria. “Estou sozinha, né?”, respondeu a senhora. “A gente não pode morar junto nem fazer nada errado. Tem que casar.” A missivista disse que incluiria isso na carta e perguntou se Dantas queria falar sobre o futuro com o namorado. “Sobre o futuro de ficar junto”, esclareceu a remetente. “Sabe como é, a senhora já foi namorada. Escreve aí”, pediu, animada. Margoni começou a escrever com a letra caprichada: “São Paulo, 23 de julho de 2018. Querido Ambrósio…”

Fazia um mês que Neusa, como é conhecida, não via o namorado. Ela não soube dizer de cabeça o nome da cidade em que nasceu, na Bahia, mas continuam nítidos em sua memória os detalhes do primeiro noivado, quando ela era empregada doméstica e tinha 19 anos. A mãe preparou dois leitões para a recepção e a patroa comprou o enxoval e costurou o vestido, mas a noiva cometeu o erro de ir a uma festa sozinha antes do casório. O noivo desconfiou que ela havia dançado com outro e desfez o compromisso, sem dar a ela a chance de se defender.

Dantas foi embora para São Paulo e acabou se casando com outro homem, mas enviuvou aos 40 anos, quando um enfarte vitimou o marido. E viúva ficou ao longo dos vinte anos seguintes, colecionando namoros malfadados e recusando pretendentes muito velhos ou com vícios. Mudou-se enfim para Caraguatatuba, no litoral norte de São Paulo, onde conheceu Ambrósio, um senhor de 64 anos, pobre como ela, num culto evangélico. Era o partido ideal: tinham a mesma fé e quase a mesma idade. E, o melhor, ele se declarou apaixonado.

Mas Dantas precisou voltar para São Paulo porque um dos filhos não conseguia emprego em Caraguatatuba. Mudou-se para o Jardim dos Ipês, na periferia da Zona Leste paulistana, e estranhou a agitação. Não lhe parece um bom lugar para viver uma velhice tranquila. O outro filho, usuário de drogas, passa semanas sem dar notícias. E o salário de doméstica não lhe basta para transpor os 150 quilômetros que a separam do namorado.

 

Elisabete Margoni foi professora durante cinquenta anos. Natural de Paulista, Pernambuco, desembarcou com a família em São Paulo em 1948. Filha de motorista de bonde e costureira, ela vivia cercada de livros e revistas e, a pedido do pai, começou a escrever cartas para os parentes que haviam ficado no Nordeste. Tinha 8 anos. Depois de se formar professora normalista aos 19, foi dar aulas para o ensino fundamental e voltou a ter contato com as cartas, que faziam parte do conteúdo programático.

Já aposentada, a professora ouviu falar do Escreve Cartas, projeto inspirado no filme Central do Brasil, em que Fernanda Montenegro vive uma missivista de aluguel na estação ferroviária carioca. Procurou o Poupatempo, programa do governo paulista que presta serviços variados aos cidadãos, e, há seis anos, está a postos na unidade de Itaquera todas as manhãs de segunda-feira. Integra o time de 204 voluntários que se oferecem para escrever em nome de quem não sabe. O serviço é gratuito (inclusive o selo) e está disponível em outras duas unidades do Poupatempo, em Santo Amaro e São Bernardo do Campo. Quase 300 mil atendimentos já foram feitos desde que o programa foi criado em 2001; no mês passado foram 2 315.

O público predominante do Escreve Cartas é pobre, analfabeto e tem mais de 50 anos. Alguns pedem uma informação, querem ajuda para preencher um formulário ou elaborar o currículo, mas sempre aparecem aqueles que acreditam que uma carta tem o poder de mudar histórias e querem se corresponder com parentes, amigos e amores que moram longe ou estão em presídios.

Na semana anterior, Margoni, que tem 75 anos, escrevera uma carta endereçada ao presidente Michel Temer. Depois de testemunhar o assassinato do marido e não saber o paradeiro do corpo, Helena de Almeida, de 76 anos, decidiu pedir uma indenização para ajudar a cuidar da filha que, com sérios problemas psicológicos, não toma os remédios porque não sobra dinheiro. Mas há também quem mande carta para programas de televisão com a esperança de conseguir uma casa ou um tratamento estético. Quase nunca voltam para contar o que aconteceu depois. “Às vezes vêm pessoas que dizem que sabem escrever, mas alegam que esqueceram os óculos”, disse Margoni. “A gente é tudo para elas: as mãos, o coração e os olhos.”

 

A carta que a ghost-writer escreveu em nome de Dantas não falou de casamento, mas deixou a sugestão no ar: Faz quase um mês que vim de Caraguá e não tenho notícias suas. Estou com tantas saudades… Fico esperando você aqui em São Paulo para conversarmos sobre o futuro de nós dois. Já tive propostas de namoro, mas não aceitei porque continuo esperando por você. Embora seja difícil me acostumar à vida em São Paulo, vou continuar por aqui, pois moro com o meu filho. Mande notícias. Precisamos nos ver. Venha assim que puder. Beijos e abraços. Fique na paz de Deus! Adenusa, sua Neusa.

Depois que a remetente aprovou o conteúdo, Margoni procurou o CEP do destinatário, preencheu o envelope e anotou tudo no caderno de registros. Os olhos de Dantas, que chegou a se matricular em cursos de alfabetização mas nunca foi muito longe, brilharam quando ela confessou outro sonho: “Queria aprender a escrever meu nome para assinar os papéis do casamento com o Ambrósio.”

Sibele Oliveira

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