poesia

Raça não é raça

Nina Rizzi
CREDITO: EVE QUEIRÓZ_2021

DIÁSPORA NÃO É LAR

leio num livro em árabe a história e a história da poeta

fico martelando martelando por que não submerjo e escrevo

também para além e além de minhas avós?

 

além até mesmo das vovozinhas que invento e furto

 

vou ao oráculo e olho bem as imagens dessa escritora

viva que se autodefine

brown

um tradutor escreve caramelo

penso em belchior

– sei dizer as sete gerações do meu cão belchior

um tradutor escreve marrom

– lembro dos lápis de cor que não eram “cor de pele”

um tradutor escreve parda

– sei dizer o papel de pão que foi meu caderno na alfabetização

 

que alegria se autodefinir

 

penso na mulatinha que fui

negrinha quando convinha

birracial branquela plebeia

beijos, princesa meghan!

tudo que não sei

sabe a polícia

sabem os caras do censo

sabem os brancos quando não estão matando gente

todo mundo parece saber

 

afogaram minha casa e minha gente no atlântico?

 

diáspora não é lar

gritos terríveis

cheiro de pelos de porco sapecando

vai ter carne hoje!

fica feliz a pivetada

 

aquela fumaça é minha família?

 

o oráculo não diz se minha casa foi afogada

não diz se minha família foi queimada

não diz das árvores que imagino

tantas e tantas voltas pra esquecer um nome

não diz dos laços que lanham as carnes

as carnes fodidas pra chegar a este branco

um branco coletivo – na pele, na história

 

gente? atlântica?

 

diáspora não é lar

não sou neta das bruxas que não foram queimadas

minha avó branca adotou minha mãe preta

minha avó branca espancava minha mãe preta

minha avó branca perdoou seu marido branco

que estuprou uma menina de 7 anos

– até que a morte os separe

 

impossível escrever dentro d’água

impossível escrever no meio do incêndio

o antes da avó postiça é tudo afogamento, ruína

o antes da avó paterna também

ela só tremia e tremia e tremia quando fugimos ou fomos expulsas

– pelo homem branco, marido estuprador

isso é tudo é a mesma coisa

diáspora, não lar

 

 

RACE IS NOT RACE

jogue esta frase no google tradutor

algumas traduções possíveis

corrida não é corrida

raça não é raça

 

google nem é gente

caso fosse esta tradutora

as opções seriam

 

raça não é carreira

fechem o mercado george floyd

 

 

FOLHAS DE OUTONO CAEM NO VERÃO A PINO:

sem medo do nunca mais ficam

nuazinhas

me caem

 

ossos banhas se

me derramam

fica clitória

 

 

PEQUENO DICIONÁRIO PARA JOGOS DE ESGALAMIR

A

apatolar

a cavalo sentar nas minhas suas pernas

encaixar umAutra todo assoalho pélvico

enlaçar os ossos banha

corpinteiro

alcançar um só riso e dor

umaauma entranha

apatolar até a pura polpa e sulco

lamber

eu apatolo tu apatolas



Nina Rizzi

É poeta, tradutora, pesquisadora e professora. Publicou Quando Vieres Ver um Banzo Cor de Fogo (Patuá)

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