ficção

Rascunho de um bilhete suicida

Quando anoiteceu, saí à rua, disposta a entregar-me ao primeiro que passasse, por dinheiro. Depois de consumado o ato, não tive coragem de cobrar. Descobri que era uma amadora irremediável

Sérgio Sant’Anna
FOTO: MICROZOA_GETTY IMAGES

Esse “Rascunho” foi escrito para ser dito pela personagem Ercília, da peça Vestir os Nus, de Luigi Pirandello, que será encenada pelo Atelier de Manufactura Suspeita, em São Paulo. Os espaços entre as falas indicam pausas.

ERCÍLIA:

– O bilhete do suicida é o mais breve dos gêneros literários.

– Para confirmar a tese, telefonei para o maior entendido no gênero, o contista brasileiro Dalton Trevisan. Ele atendeu e disse: “Eu não estou.”

– Portanto, estou só. Aliás, sem o advérbio, seria um bilhete perfeito. Só que mentiroso. O que mais tem é gente fungando no meu pescoço. Um oficial de Marinha, um escritor, a senhoria dele, um jornalista e até um cônsul.

– Eu era babá da filha do cônsul, mas um dia ele me atraiu e, enquanto me comia, a menina caiu do terraço da casa e morreu.

– Não. “Me comia” fica muito mal num último bilhete. “Enquanto eu me entregava a ele”, fica melhor.

– Antes eu já perdera a virgindade para o oficial de Marinha, que me prometeu casamento.

– Depois da tragédia, cheia de remorsos, fui para Roma e descobri que meu noivo havia ficado noivo de outra.

– O dono do hotel vagabundo onde me hospedara disse que, se eu não pagasse a conta, me poria na rua aquela noite.

– Quando anoiteceu, saí à rua, disposta a entregar-me ao primeiro que passasse, por dinheiro. Mas, depois de consumado o ato, não tive coragem de cobrar. Descobri que eu era uma amadora irremediável.

– Só me restava assim, tão dura e desonrada, tomar a cápsula de veneno que trazia comigo, como saída de emergência.

– Mas isso não é um bilhete de suicida. Merda… Oh, desculpem-me. É o resumo da minha história.

– Se coubessem reflexões num bilhete do gênero, eu poderia me perguntar se não trazia comigo uma vocação para dar e para o suicídio.

– Assim: primeiro o desejo de morrer, depois a busca dos motivos.

– Na Roma antiga, como na Grécia, suicidar-se ou foder era normalíssimo também para as mulheres. Não, não. Esse verbo, “foder”, não deve entrar no meu bilhete.

– Mas estamos em 1922 e fui socorrida e salva num hospital.

– É verão, nada acontece na cidade e um jornalista veio entrevistar-me e acabou arrancando de mim os meus segredos mais íntimos. Eu não imaginava que ia ocupar a página inteira de um jornal, com fotografia e tudo. São uns abutres, os jornalistas. Entre outras coisas, disse que o motivo principal para me matar fora a traição do oficial de Marinha.

– Foi então que veio visitar-me o grande escritor. Lera minha triste história no jornal e convidou-me para morar em seu apartamento. Disse que me queria para um romance.

– Fiquei honradíssima, claro, em ser personagem do romance de um grande escritor.

– Mas, chegando em sua casa, ele falou que me queria para viver um romance de verdade com ele. Eu era magra, frágil, pálida, mortiça. O seu tipo.

– Alguém já me advertira de que a maior parte dos escritores escreve para comer as mulheres, tirando as alegres, claro. Deste parágrafo eu não retiraria o “comer”. Le mot juste, como aconselhava o grande ídolo deles, Gustave Flaubert.

– Já os jornalistas nem precisam de mulher. Eles gozam com suas próprias matérias sórdidas.

– Só que o apartamento não era do escritor, e a senhoria dele me tratou como a uma vagabunda. O escritor a pôs para fora e, quando ela voltou, tratou-me como se eu fosse sua filha. Pois lera os jornais e descobrira que eu me tornara uma celebridade.

– O escritor mostrou-me sua cama, que ele me cederia com prazer. Mostrou-me também o seu escritório, uma bagunça inacreditável. Mas é silencioso, ele gabou-se, desde que não se abra a janela, pois os ruídos da rua são como um poema ou uma composição musical futurista.

– Já me caíra nas mãos, por acaso, o Manifesto Futurista, e vi que os membros do movimento desprezavam as mulheres. Preferiam as locomotivas. Marinetti e seu bando de veados.

– Mas o teatro deles é interessante.

– Porra, minha linguagem se torna cada vez mais chula e nunca chego ao ponto. Ao bilhete.

– Mas falta ainda contar que minha vida na residência do escritor virou um entra-e-sai danado, como no teatro. Vieram ver-me, cada um com seus motivos, o cônsul, o jornalista e o meu ex-noivo, que deixara a Marinha. Queria de novo casar-se comigo, reparar o seu erro, emocionado porque eu tentara matar-me por sua causa.

– Eu o fiz ver que aquilo foi o primeiro motivo que me veio à cabeça, para dizer ao jornalista. Na verdade, o desprezava.

– Um oficial de Marinha, depois que despe o uniforme, é lamentável, com o seu penduricalho ridículo.

– Acabei caindo fora, a pretexto de buscar minha mala que ficara no hotel, pois o escritor pagara a minha conta.

– Nela havia uma outra cápsula de veneno.

– Mas, porra, nada de bilhete, ainda.

– Quem sabe não ficaria melhor um bilhete meio abstrato, vago, simbolista?

– Assim: uma certa lassidão, a noite que não chega no verão dessa cidade em ruínas. O som de uma lira imaginária no longo crepúsculo de fogo.

– Ou algo mais triste e concreto. A lembrança de um filhote de pássaro agonizante na calçada enquanto multidões de futuristas continuam a passar. Eu sou esse pássaro.

– Ou: morro porque desejo para sempre as doces trevas, um eclipse total do sol e do ser. Caralho, que poesia ruim.

– Ah, eureca! Talvez o mais breve e eloqüente dos bilhetes de suicida seja o bilhete nenhum.

– Mas os gestos precisos, sim.

– Tomo o veneno e corro de novo, para o apartamento do escritor. Antes de entrar, despi-me de toda a minha roupa.

(Mudando o tom de voz, para um mais masculinizado. Ou eu mesmo, Sérgio Sant’Anna, posso dizer essa fala:)

– O que você quer? – ele disse, vendo-me tonta e nua, caindo sobre minha mala.

– A sua cama – eu disse.

– À vontade – ele disse, esfregando as mãos de cobiça por meu corpo.

– Ambígua até na morte – ele acrescentou. – Assim será no meu romance.

– Também, que vantagem, pensei. É um profissional.

– E se conseguir trancar a porta por dentro, fora das vistas dos outros, talvez se deite comigo em minha agonia, ou mesmo depois de minha morte.

– Tenho o romance perfeito, em mais de um nível – ele diz, trancando a porta.

– E eu, na agonia, aprendo mais um segredo daquele ofício dúbio.

– Mas, e o bilhete? Depois de todas essas palavras, vejo-o cintilar, breve e belo:

– ESTA AQUI NÃO PÔDE VESTIR-SE NEM NA MORTE!

Ela rasga seus papéis em pedacinhos, que atira para o público, como confete:

– Mas melhor ainda, repito, é o silêncio. Tout le reste est littérature.

A frase em maiúscula é mesmo de Pirandello, embora não haja nenhum bilhete.

Sérgio Sant’Anna

Sérgio Sant’Anna, escritor carioca, é autor de 50 contos e 3 novelas, da Companhia das Letras.

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