esquina

Rebelião

Relâmpago, fagulha e incêndio num fim de outono

Mario Sergio Conti
ILUSTRAÇÃO: ANDRÉS SANDOVAL_2013

Ninguém esperava que milhões de pessoas paralisassem centenas de cidades em poucos dias. Elas enfrentaram a polícia. Depredaram lojas e agências de banco. Queimaram ônibus, carros e vans de redes de tevê. Fizeram barricadas em rodovias e impediram a entrada em aeroportos. Abalaram um dos símbolos maiores da identidade nacional, a Seleção Brasileira, e tentaram intervir em partidas de futebol. Centenas foram presas e feridas. Seis morreram.

Um governador de estado, o do Rio, não conseguiu entrar em casa porque a rua onde mora foi ocupada durante dias a fio. Multidões bateram às portas de câmaras de vereadores, prefeituras, assembleias legislativas, palácios estaduais, ministérios e do próprio Congresso Nacional. Estiveram a poucos metros do coração do poder central, o Palácio do Planalto. Uma greve geral foi convocada.

A situação que se abriu é revolucionária. Nela, o inesperado é sempre a nota inicial. A Comuna de Paris, em 1871, foi uma surpresa para o próprio Marx. Ele estava exilado em Londres e, avaliando que a conjuntura era de calmaria na Europa, abandonara a militância política imediata e se dedicava a estudos de longo prazo. Em São Petersburgo, em 1905, uma rebelião desembocou na eleição do primeiro conselho de democracia direta – “soviete”, em russo. Foi eleito para presidi-lo um jovem desconhecido de 25 anos que estava fora dos partidos. Chamava-se Leon Trotsky. Pouco antes de a revolução estourar, em 1917, Lênin previra uma temporada de anestesia na Rússia.

Isso não significa que o Brasil esteja às vésperas de uma revolução, longe disso. Situação revolucionária não quer dizer tomada do poder. Muito menos mudança radical da sociedade. A expressão serve para descrever o período em que um povo dá mostras de que não quer mais viver como antes. E que o Estado não pode seguir governando como fazia até então. Isso está a acontecer no Brasil.

A França de 1871 e a Rússia do começo do século passado não têm nada a ver com o Brasil de hoje. Lá, os países disputavam guerras. Centenas de jovens eram destroçados diariamente à bala e baioneta. Milhões de pobres não tinham o que comer. O desemprego era imenso. Aqui, se está em paz. A miséria foi atenuada nos últimos anos. Há quase pleno emprego. Apesar disso, os acontecimentos de junho mostram que um mal-estar profundo perpassa o país inteiro. Houve protestos colossais inclusive em Macapá. Até o Faustão defendeu na Globo o bota-pra-quebrar contra o isto-que-está-aí.

 

Raios iluminam o céu azul de vez em quando. Eles só têm consequência quando batem no chão e provocam fagulhas. O incêndio se propaga à medida que encontra combustível para manter a chama. Há dois anos, um jovem sem emprego do interior da Tunísia, desesperado porque a polícia o proibiu de vender frutas na rua, comprou um latão de gasolina e ateou fogo em si mesmo. Mohamed Bouazizi tinha 26 anos. O fogo que o matou acendeu a Primavera Árabe.

Em questão de meses, toda uma região do globo, de Rabat a Damasco, estava em chamas. As ditaduras da Tunísia e do Egito foram derrubadas em meio a labaredas de cólera. Na Líbia, Kadafi foi chutado pela rua como um vira-lata que tivesse raiva. Começou a guerra civil na Síria, com seu cortejo de 100 mil mortos e exílio em massa. Num processo desigual e combinado, os fatos se desenrolaram de maneira distinta numa dezena de países, cada qual com ritmos próprios.

O Brasil não é a Tunísia. Nem a América Latina é igual ao mundo árabe, ainda que uma manifestação em Assunção, no Paraguai, tenha se inspirado diretamente nas brasileiras e protestos fermentem em outros países. As instituições por aqui são mais arrumadas do que as de acolá. Há democracia, livre expressão, judiciários que bem ou mal funcionam. As ditaduras e monarquias petrificadas de lá se apoiavam em clientelas pagas e títeres. A censura e a tortura política eram a norma. Monstruosos aparatos militares calavam quem desse um pio contra os poderosos.

 

O Brasil é mais parecido com a Europa e os Estados Unidos. Mais precisamente: setores das metrópoles brasileiras são semelhantes aos estamentos que a crise econômica vitimou nos países centrais. Ou seja, estudantes que precisam começar a trabalhar e não encontram nada, os desempregados e os ameaçados de perder o serviço, os funcionários de estados que mínguam a cada ano, à força de cortes de orçamento que sucateiam escolas, hospitais e o transporte coletivo.

Também na Europa e nos Estados Unidos houve revoltas. Mas elas não abriram situações revolucionárias. Salvo na Islândia, onde greves gerais em sequência e manifestações que arrebataram a povo inteiro barraram o Diktat recessivo da grande finança internacional. E descontada a Grécia, onde os protestos foram ainda mais fortes que os brasileiros. Em Atenas, uma coalização instável conseguiu ser eleita e, com recursos portentosos da União Europeia, a duras penas vem tentando governar.

A crise econômica fez surgir os indignados na Espanha. Pela heterogeneidade, o movimento deles tem pontos de contato com os protestos brasileiros. Ele é integrado por estudantes, jovens que pedem emprego, serviços públicos decentes e o fim da corrupção. São parecidos com o Occupy Wall Street. O agrupamento americano, que se espalhou por dúzias de cidades, surgiu numa manifestação convocada por uma revista canadense, que por sua vez se inspirou na ocupação da praça Tahrir, no Cairo.

O mundo globalizado é uno. Um camelô que se imola nos cafundós da Tunísia acende uma mecha na praça Tahrir. A derrubada da ditadura egípcia inspira canadenses a conclamarem a ocupação em Nova York. Mas cada país tem seus usos e costumes. E o Brasil é o Brasil.

 

O relâmpago brilhou no céu da tarde fria de uma quinta-feira, 6 de junho. O raio caiu na escadaria do Theatro Municipal, no centro de São Paulo. Havia ali o punhado de gatos pingados do Movimento Passe Livre. Eles têm 20 e poucos anos, mas desfraldaram faixas com uma reivindicação popular velhíssima, a redução do preço das passagens. Ele fora aumentado em 20 centavos no começo do mês.

Não era a primeira manifestação. Meses antes, em Florianópolis e Porto Alegre, eles haviam organizado atos parecidos. Os poderes constituídos não os levaram em consideração. Repetiram D. Pedro II. Em 1879, o imperador não ligou para a Revolta do Vintém, que pleiteava o corte da tarifa de 20 réis. Ecoaram Juscelino Kubitschek, que nos anos 50 não deu bola para os cariocas que eram contra o aumento das passagens. Nos dois casos houve sururu, tiros e bondes incendiados.

O Passe Livre conseguiu juntar 2 mil pessoas. Marcou outra passeata para o dia seguinte. Depois outra. Uma terceira. Elas atraíram mais gente e ficaram parrudas. O governador do estado e o prefeito paulistano estavam em Paris. Quase de joelhos, solicitavam que a cidade fosse sede de mais um desses megaeventos que não dizem nada a quem fica entalado horas num ônibus, mas rendem excelentes negócios para os espertalhões de sempre.

Eles dividiram as tarefas para dar as respostas de praxe. O prefeito, do PT, apareceu com um maço de planilhas. Explicou racionalmente porque não reduziria de jeito nenhum o preço das passagens. O governador tucano mandou baixar o pau nos irrealistas e insolentes. Afinal, o passe livre só deve valer para um punhado de maganos: vereadores, deputados, senadores, prefeitos, governadores, ministros, presidentes disto e daquilo. Apenas eles podem ter transporte gratuito VIP: carrões pretos reluzentes e chofer de paletó no banco da frente. Nada mais justo, já que são autoridades, Vossas Excelências.

A Central Única dos Trabalhadores e a União Nacional dos Estudantes mantiveram-se em silêncio. Todas as organizações empresariais, todas as igrejas, todos os parlamentares ficaram mudos. A imprensa hostilizou os “vândalos” e clamou pelas forças da ordem. O Brasil oficial se apartou da realidade.

A Polícia Militar saiu a campo. Ela não foi treinada para manter uma passeata nos limites. É adestrada para caçar bandidos e moradores de quebradas barra-pesada, ao abrigo de registros impertinentes. A polícia sentou bala de borracha em cima de quem viu pela frente.

As balas saíram pela culatra. Os protestos se multiplicaram em progressão geométrica e se irradiaram pelo país todo. O pêndulo se moveu de São Paulo para o Rio, onde 300 mil pessoas se juntaram no centro da cidade. A Assembleia Legislativa fluminense, um dos mafuás mais notórios da corrupção oficial, foi invadida. O que era um raio em céu claro virou fogaréu.

 

Petistas e tucanos, novamente de forma concatenada, recuaram. Mandaram a polícia se moderar e abaixaram o preço das passagens. Foi uma vitória admirável, na contramão do que costuma ocorrer no Brasil. O movimento estudantil de 1968 foi derrotado pelos militares e iniciou-se a fase mais repressiva da ditadura.

A campanha pelas eleições diretas dos anos 80 fracassou. A agitação reformista redundou na escolha de um presidente, na frase feliz do sociólogo Francisco de Oliveira, “mais conservador que Nossa Senhora de Guadalupe”. Nem Tancredo Neves acabamos tendo. Com a sua morte, tomou posse o jaquetão que coonestara a tortura.

A pressão popular derrubou Collor. Mas ele não passou um dia sequer na cadeia e não se tocou nos seus bens. Foi morar em Miami, passeou pelo Taiti e se elegeu senador governista. Impávidas, as negociatas prosperaram: compra de votos de parlamentares, concorrências viciadas, nepotismo, caixa dois eleitoral, máfias de ônibus, o mensalão petista e o tucano.

Talvez a vitória tenha vindo rápido não só devido à quantidade das multidões, mas à natureza dos protestos. Eles foram carnavalescos como os da Diretas Já e do Fora Collor, mas bem mais aguerridos. Dessa vez não houve palanques, discursos, lero-lero. A violência esteve sempre presente. Além da pancadaria policial, ocorreram revides, depredações, saques, quebra-quebra. Havia perigo real em participar delas. E elas atraíram cada vez mais pessoas iradas em um sem-número de cidades.

A redução do preço das passagens gerou algo mais espantoso ainda: os atos públicos prosseguiram e cresceram. Mantiveram a batida virulenta e chegaram a rincões com depósitos enormes de combustível, os arrabaldes das metrópoles. É neles que vive a gente mais sofrida, e também os beneficiários do Bolsa Família e do salário mínimo robustecido na era Lula. Foi a partir de bairros pobres que se organizou a interrupção de rodovias. Eles queriam passarelas, segurança na travessia das estradas e reintegrações de posse. O aumento dos pedágios foi cancelado.

Quem foi à grande passeata de comemoração na avenida Paulista viu que a presença do Partido dos Trabalhadores fez com que o ambiente ficasse carregado. O repúdio à participação dos petistas veio de dois lados. Uma parte se irritou com o oportunismo do partido, cujos líderes um dia antes defendiam o aumento das passagens. Outra parte, minoritária mas organizada, agrediu os militantes. Mais por eles apoiarem o governo e serem de esquerda do que por integrarem um partido.

De roldão, outros partidos da esquerda, que estiveram com o Movimento Passe Livre desde o começo – o PSTU, o PSOL e o PCO –, foram forçados a arriar suas bandeiras. Parecia haver, em gestação, milícias de direita. E a direita organizada nunca tomou parte de agitações reivindicatórias. DEM, PSDB e PMDB têm horror a elas. O seu mundo é o dos gabinetes, dos conchavos e dos comícios bem enquadrados. Que tenham descido à avenida Paulista é mais um sintoma da turbulência dos idos de junho.

 

As manifestações perderam a reivindicação unificadora do congelamento das tarifas. Agora, vale tudo. Uns buscam a satisfação de dificuldades locais com ônibus, hospitais e escolas. Outros denunciam os gastos extravagantes na construção dos elefantes brancos para a Copa do Mundo. Defendeu-se a derrota do projeto que retirava poderes do Ministério Público, o que acabou ocorrendo. Há aqueles que se insurgem contra a discriminação homofóbica. Muitos pedem – metaforicamente – a cabeça do presidente do Senado. Poucos, a da presidente da República.

Dilma Rousseff voou às carreiras de Brasília a São Paulo para se encontrar com o seu antecessor e, sinal dos tempos, o marqueteiro de ambos. Voltou à capital e, abatida, fez dois pronunciamentos seguidos na televisão. Reuniu-se com organizadores do Movimento Passe Livre, que uma semana antes levavam cacetadas da PM no lombo. Eles a consideraram despreparada para discutir transporte coletivo. Algumas das ideias da presidente são de viabilidade mais remota que o passe livre para todos.

Fica difícil ir a algum lugar se não há placas nem quem aponte um rumo. Há muita lança e pouca ponta na rua. Existem mil ideias no ar e nenhuma prevaleceu. A depender dos desdobramentos, algumas delas vingarão. Não necessariamente as mais assentadas. As ideias do Iluminismo estavam à margem do pensamento predominante na Europa do século XVIII. Rousseau e Voltaire eram pequenos diante da força da Igreja Católica. Em 1789, porém, suas ideias fizeram sentido para artesãos, camponeses, comerciantes e trabalhadores que se puseram em movimento. Figuras obscuras emergiram e foram levadas ao centro dos acontecimentos: Danton, Marat, Robespierre.

A social-democracia russa do começo do século anterior era composta de grupelhos e extremistas exilados. Eles dedicavam boa parte da sua energia a querelas internas. Poucos sabiam que existiam. Veio 1917 e os desconhecidos criaram o partido bolchevique, que serviu de instrumento para a tomada do Palácio de Inverno. A revolução do século passado que teve maior participação popular não foi a russa. Foi a iraniana, de 1979. Quando ela começou, o seu líder sequer estava em Teerã. Vivia no exílio há quinze anos e morava em Neauphle-le-Château, perto de Paris. Era o aiatolá Khomeini.

Repita-se: o Brasil não é a Rússia nem o Irã. Mas desencadeou-se um tempo de agitação prenhe de riqueza. Em semanas, o Brasil realizou um aprendizado coletivo equivalente ao de décadas de baixa voltagem. Haverá ciclos de desânimo e exaltação. Clivagens, diferenciações, celeuma e choques. Avanços, recuos, rodeios e zigue-zagues. O sistema político resistirá a mudanças materiais. Ele é integrado por gatos de sete vidas, capazes de cair de pé depois de piruetas esdrúxulas. Além do mais, rua é uma coisa e urna, outra. A hora é de participar: debater, criar e fazer escolhas. Muita coisa parece possível. Menos uma. Que o Brasil volte à rotina de antes do outono em que o raio bateu em gasolina.

Mario Sergio Conti

Mario Sergio Conti é jornalista e autor de Notícias do Planalto, da Companhia das Letras. Foi diretor de redação de piauí de 2006 a 2011

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