ficção

Redemoinho de círculos secretos

Alguém pode começar a morrer muito cedo, e levar dias, horas ou anos para não existir mais

Vanessa Barbara e Emilio Fraia
FOTO: MARTIN BARRAUD_STONE_GETTY IMAGES

Lá estão os meninos no corredor de milho onde o tiroteio começa; o Bruno escapa na dianteira com a barriga mole de tanto dar risada, atrás vem o Cabelo, que cai sempre nos mesmos buracos e abre fogo com munição colorida – posso jurar, mesmo de longe, que o bombardeio de balas de goma tomou o campinho e riscou o ar feito serpentina. Meu irmão, o Chibo, ia no banco de trás. Eu estava no do passageiro, de joelhos, com a cabeça para fora.

Pela janela avistei o Cabelo que não conseguia alcançar ninguém, ainda mais entre os pés de milho, e novamente o espião búlgaro chegaria à fronteira do país neutro sob uma chuva de masca-masca sabor banana, talvez ferido nas costas, subiria a escada de sisal da casa da árvore e gritaria mulherzinha, mulherzinha. O Cabelo diria que não valeu porquessim, porque a brincadeira já perdeu a graça e os planos de Sua Majestade estavam criptografados, ou a Bulgária não existia de todo (no que decerto teria razão). Seria acometido da mais gorda e suntuosa birra desde os tempos do prezinho, e iria bater nos meninos mais novos. No Chibo não, claro. De todos, o meu irmão era o mais velho, tinha acabado de fazer doze anos, ele era forte, sempre me defendia e – olhei pelo retrovisor. Ele estava quieto: as palavras sumiam de vista feito uma estação fora do ar. Quando o carro parou, saltei com um pé só, e o Chibo, cheio de relâmpagos, nem se mexeu. Ficou lá, distante. Tentei dizer alguma coisa, mas peguei soluço ao bater a porta do carro (e sei que todo mundo ri quando começo uma frase e sou interrompido por um soluço, entrecortado por um susto que me faz perder o equilíbrio), então me calei. Engoli a respiração e fiquei vendo o carro diminuir, diminuir cada vez mais, depois sumir pela borda do milharal.

Na plantação, o Cabelo vinha na direção do Bruno, de banda, como desgovernado. O Bruno acelerou com força (os pulsos firmes), disparou uns restos de mato por cima do ombro – a essa altura eu também corria sem saber direito por quê – e nos cruzamos no ponto médio entre a casa da árvore e a estrada. Ou melhor, quase fui atropelado: ele passou voando por mim e me girou feito uma catraca, levando uma nuvem de poeira e vento sul de mormaço. Eu tossia e soluçava em seqüências alternadas e mal conseguia abrir os olhos quando (o soluço passou) surgiu o Cabelo em alta velocidade e, plof, me derrubou. O chão estava quente, dava para fritar as mãos; aos poucos, a plantação começava a queimar e ficaria pior, mas naquele dia caiu um temporal de machucar as costas, desses que acabam em cinco minutos e deixam um rastro de civilizações e formigas submersas.

Sem parar, o Bruno olhava para o céu com a boca aberta e tentava engolir os pingos. Não percebeu que a terra já escorregava e que as chances de acontecer uma derrapagem eram tantas quanto nosso amontoado de tralhas da casa na árvore, de modo que ele patinou, patinou e perdeu um sapato. Praguejou alguma coisa que não escutei e seguiu correndo de meias. Logo atrás, o Cabelo parou, apanhou o artefato e classificou-o como prova A da Promotoria – mas nem chegou a pedir autorização do juiz para girar o tênis pelo cadarço e arremessá-lo à distância. Plof: uma artilharia de palmilha e cano alto bem na mira do espião búlgaro.

Apesar do ferimento de calibre 35/36 nas costas, o Bruno continuou correndo. Arrastava-se aos tropeços, imaginando sua consagração como herói nacional. A perseguição passaria na tevê em câmera lenta, depois o povo o aclamaria em carro aberto. Ele mostraria aos tataranetos a marca da sola durante um churrasco da família e contaria longas histórias de guerra, talvez até participasse de encontros de veteranos e coisa e tal.

O Bruno chegaria à casa na árvore, de fato, não fosse a intervenção da Grande Poça, a mãe de todas as lamas, que aconteceu de repente bem quando ele olhava para trás. O espião afundou em cheio e caiu de cara. Emergiu daquela massa de lodo um Bruno caramelado e viu que era inútil continuar fugindo. A dois passos, a silhueta do Cabelo já lembrava seu direito de permanecer calado, citava a primeira emenda de cabeça e mostrava as algemas (que sequer existiam). A 2 centímetros, um aro sujo de metal encarava o Bruno, talvez um anel. Ele deu um jeito de guardar o objeto sem que o Cabelo percebesse, em seguida foi detido pelas autoridades e preso na casa da árvore.

O Chibo também não estava quando o Bruno falou do homem morto – um corpo do lado de lá do arame, em um lugar da plantação que, contando daquele jeito, parecia muito, muito distante. Não demorou: no meio do milharal, um redemoinho vivo de círculos secretos, entradas e saídas, o Bruno propôs o jogo. Ficou de joelhos e espalhou as folhas do caderno espiral (toda sua cartografia) pelo chão de terra. Calculou distâncias e provisões, pediu para todo mundo girar em torno do próprio eixo a fim de despistar o inimigo e, finalmente, baseado em estudos preliminares sobre a geografia local e o posicionamento das nuvens, apontou o caminho mais estreito, onde as folhas pareciam manchadas de ferrugem. Por ali, disse. Suas orientações vagas e intensas (o oeste correspondia ao norte e o centro estava junto à fronteira leste) passavam ao lado de uma árvore sozinha e muito vermelha, entre uns velhos pés de caqui, por trás de uma elevação onde o corredor se bifurcava em um, dois, três outros. O Cabelo decidiu, de repente, que também tinha visto o presunto, e para provar que não estava mentindo se apressou em ir na frente sem maiores (ou menores) perguntas, abrindo caminho com o braço, colhendo amostras de mato: “Vira à direita ou segue em frente porque dá na mesma”, e protegeu o rosto com a outra mão.

Fizemos silêncio e fomos andando, peteleco aqui e ali para espantar os carunchos que grudavam nas pernas. O Cabelo parecia animado e caminhava rápido: “Agora é traçar linhas coloridas nos mapas do Bruno, fazer a volta, vinte, trinta passos e pronto”. Às vezes ele parava num estalo, olhava para trás e dava alguma ordem a esmo (a gente quase nunca entendia). Na minha frente o Bruno, que lidava bem com aquelas freadas bruscas, continuava quieto – talvez pressentisse uma dor de barriga. Eu apenas seguia, na popa.

O caminho de milho não parecia levar a parte alguma, era cada vez mais espesso e abafado. Olhei para trás e notei que também se fechava por onde a gente tinha passado, mas não disse nada. Nunca dizia. O Cabelo estava todo picado e parecia feliz, parou para coçar a perna e analisar um besouro grudado no ossinho do tornozelo. O Bruno pensou em aproveitar a ocasião e subir nas costas dele, lá no alto gritar “terra à vista”, mas acabou agindo de maneira polida e pediu escadinha. Em dois segundos foi erguido o brunoscópio; por cima do milharal, ele não achou o arame nem nada, mas viu uma clareira à distância de vinte passos a estibordo, onde poderíamos descansar da coceira e analisar os mapas.

Era um pequeno espaço de folhas pisadas, que do alto formava um desenho alienígena (segundo o Cabelo). Sentamos sem vigiar a retaguarda ou saber se o terreno estava minado, apenas desabamos no chão e passamos a nos abanar. O Bruno juntou os joelhos e cantou baixinho. A essa altura, ele já devia ter uma explicação terrível para tudo e ficaria cada vez mais quieto – ele parou de cantar e olhou para a gente, como se fosse a vez do coral. O Cabelo abaixou a cabeça e confessou que, bem, na verdade, não tinha visto o morto, visto, assim, com os olhos, sabe?, tinha apenas ouvido uma história que – o Bruno se levantou, tomando a frente: “Minha vez de guiar”. Consultou o mapa, falou que estávamos no caminho certo e (só para impressionar) tirou do bolso um anel. “Não toquem nisto”, disse, satisfeito com o olhar de espanto dos expedicionários. “Achei na poça semana passada… É uma aliança”, e esperou uns segundos para fins dramáticos, “do cara morto.”

De cócoras, tragado por um sol imenso, o Bruno remexia as folhas secas do chão. Quando me viu, levantou rápido e fingiu estar interessadíssimo em um graveto sem nenhuma graça. Com as mãos cheias de pedras, o Cabelo apareceu. Distribuiu a artilharia e se afastou. A gente brincava de acertar pedras nas lagartixas da árvore, mas, por medo, nojo ou piedade, o Cabelo só assistia, ensaiando caretas a cada tiro. Não tardou para que um golpe dividisse ao meio uma das lagartixas. O Cabelo apertou os olhos, virou o rosto.As duas partes do bichinho despencaram tronco abaixo. Fiquei olhando para o vazio que separava a cabeça – os olhos estavam muito vivos ainda – e o rabo. Com um pauzinho, o Bruno cutucou a lagartixa: “Será que um homem demora assim para morrer?” Pensei no Chibo, em todo aquele silêncio do banco de trás, e que sim, alguém pode começar a morrer muito cedo (e levar dias, horas ou anos para não existir mais).

Vanessa Barbara

Jornalista e escritora, é colunista do International New York Times.

Emilio Fraia

Emilio Fraia, jornalista e escritor, é co-autor, com Vanessa Barbara, do romance O Verão do Chibo, lançado pela Alfaguara.

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