questões político-culturais

Regina no país dos olavistas

Os 77 dias em que a atriz foi triturada pela polícia ideológica do governo Bolsonaro

João Gabriel de Lima
Regina, no mundo do bolsonarismo: afinal, como a atriz conseguiu se aproximar de um presidente que enaltece o torturador de uma de suas amigas? – eis a pergunta do ator Paulo Betti
Regina, no mundo do bolsonarismo: afinal, como a atriz conseguiu se aproximar de um presidente que enaltece o torturador de uma de suas amigas? – eis a pergunta do ator Paulo Betti ILUSTRAÇÃO: KLEBER SALES_2020

Selfies. Sorrisos. Mais selfies, mais sorrisos. Ainda mais selfies, ainda mais sorrisos. A atriz Regina Duarte, dona de uma carreira de quase seis décadas na televisão e no teatro, tinha certa dificuldade para caminhar entre os convidados no lançamento do novo canal de tevê a cabo, a CNN Brasil. Cinco dias antes, ela tomara posse como secretária especial da Cultura, o quarto nome a ocupar o cargo no governo de Jair Bolsonaro. Convidada para a função no dia 17 de janeiro, ela tomara todas as precauções possíveis antes de aceitar o convite. Esteve em Brasília duas vezes, fez um tour de reconhecimento pela secretaria, conversou demoradamente com o presidente e, depois de doze dias de avaliação, em 29 de janeiro, finalmente aceitou o convite. No dia 4 de março, numa cerimônia agitada pela presença do rosto famoso, mas com uma diminuta presença de artistas, Regina Duarte tomou posse e fez um discurso de quinze minutos. Anunciou que seu propósito era “a pacificação e o diálogo permanente”, lembrou que o presidente lhe prometera autonomia plena, com “porteira fechada, carta branca”, e disse a frase de efeito que virou meme: “Cultura é aquele pum produzido com talco espirrando do traseiro do palhaço.” Os críticos apelidaram sua posse de “pum do palhaço”.

Agora, cinco dias depois de assumir o cargo, Regina Duarte estava no Parque Ibirapuera, em São Paulo, prestigiando o lançamento da CNN Brasil. Na lanchonete ao lado da Oca, prédio que abrigava os 1 300 convidados do evento, ela chegou animada, sorridente e bem-disposta. Estava feliz com a nomeação de sua amiga de longa data, Maria do Carmo Brant de Carvalho, a Carminha, especialista em políticas públicas, para ser sua secretária da Diversidade Cultural. “Meu primeiro cargo em um governo foi no conselho do programa Comunidade Solidária, no governo Fernando Henrique Cardoso, e a Carminha estava lá comigo”, disse Regina, enquanto pedia licença para posar para mais uma selfie sorridente com uma fã angolana. Estava alegre porque havia vencido as dificuldades burocráticas com a nomeação da amiga. “Numa peça de teatro, você escolhe o elenco e marca os ensaios. Num ministério, há toda uma burocracia, você escolhe alguém e tem que passar por vários filtros.”

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João Gabriel de Lima

Colunista de O Estado de S. Paulo, é professor do Insper e da Faap, e autor de O Burlador de Sevilha

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