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Relato de uma guerra

Baianas no candomblé insistem que Jesus não comia acarajé

Roberto Kaz
ILUSTRAÇÃO: ANDRÉS SANDOVAL_2006

Às nove e meia de uma manhã de domingo, abrem-se as portas de um templo de cinco andares da Igreja Universal do Reino de Deus, a Catedral da Fé, em Salvador. O culto das oito terminou. Os crentes, que entraram ávidos pela palavra de Deus, agora saem famintos. Diante do templo, uma família trabalha há catorze anos vendendo acarajé, comida típica do candomblé. A frase pintada no toldo afasta qualquer suspeita de heresia: “Em Cristo Jesus somos mais que vencedores”. Tânia Palma dos Santos é evangélica – e acorda todo dia às cinco da manhã para preparar o seu “acarajé de Jesus”.

O acarajé de Jesus deve ser entendido como uma espécie de cruzada menos gastronômica do que teológica. Explica-se: com respaldo da prefeitura de Salvador e apoiada no Decreto n° 12.175, de 1998, a Associação das Baianas de Acarajé e Mingau – responsável pela fiscalização dos tabuleiros – exige que as profissionais do acarajé se vistam como baianas. Isso implica adotar as vestimentas do candomblé, como a vistosa bata de cartão-postal. Na segunda-feira, as cores das batas são livres, pois é dia de todos os santos. Na terça, deve-se usar azul em homenagem a Xangô. Na quarta, dia de Iansã, usa-se vermelho. Dizem que as mais ortodoxas estendem a norma cromática até as roupas de baixo. Tudo isso é inaceitável para as quituteiras evangélicas. A solução é cair na ilegalidade.

Na Avenida Sete de Setembro, próximo ao centro histórico, uma evangélica chamada Maria de Lourdes veste bata somente porque a prefeitura obriga–mas se recusa a usar os colares igualmente previstos no decreto de 1998. No bairro de São Caetano, onde predominam famílias de classe média baixa, é mais comum encontrar o quitute nas mãos de evangélicas do que de baianas regimentais. E no largo da Amaralina, o ponto de acarajé mais antigo de Salvador, uma evangélica chamada Josélice – que só aceita dar entrevista mediante pagamento – trabalha com a Bíblia aberta sobre o tabuleiro.

Quando Tânia chegou à Catedral da Fé, não vestia saia, bata, torço ou colar. Era uma baiana à paisana. Ilegalmente à paisana. Depois de montar o tabuleiro, pôs um boné vermelho e o avental branco de cozinheira, uniforme que usa diariamente, ignorando as regras da Associação das Baianas de Acarajé e Mingau. Às dez e meia da manhã, estava com o tabuleiro montado – e começavam a brotar clientes para o seu acarajé.



Um dos primeiros é um homem na faixa dos trinta, de calça social preta, camisa de botão fechada e Bíblia na mão – um obreiro do templo. Pediu acarajé com camarão, ao preço de R$1,50, um pouco mais barato do que os de rua, os dentro da lei, que costumam custar R$2,00. Comeu e se despediu: “Adeus, irmã”. A Catedral da Fé é um dos raros lugares onde a profissional que prepara acarajé é chamada de “irmã”, e não de “baiana”.

Tânia foi baiana por dois dias, o tempo que demorou até que ela aprendesse a driblar a fiscalização. Se exigissem, compraria uma bata, mas se recusaria a usá-la antes da bênção do pastor – segundo ela, a maneira teologicamente correta de neutralizar todo traço do candomblé e fazer da roupa um simples uniforme.

Para as evangélicas que se vestem de baiana, a roupa não passa disto: um uniforme. Já o acarajé não passa de um “bolo de feijão-fradinho feito no azeite”, como explica Roberto Quirino, membro da Congregação Cristã do Brasil. Quirino faz acarajé há vinte anos, desde que ficou desempregado: “Entrei nesse ramo por necessidade e não vejo problema. Para mim, o acarajé é uma comida africana, sem nada que ver com feitiçaria. O que faço é uma merenda que podia ser cachorro-quente ou batata frita. Por isso uso guarda-pó e chapéu de cozinheiro, como qualquer um que trabalhe num ramo de comida”.

 

Rita Maria Ventura dos Santos, vice-presidente da Associação das Baianas de Acarajé e Mingau, diz que preparar o bolinho de Iansã sem a roupa apropriada é “terminantemente proibido. Quem coloca Bíblia ou adesivo de Jesus no tabuleiro está na completa ilegalidade”. É bem verdade que a maioria das baianas – evangélicas ou não – trabalha na ilegalidade. Há 5 mil pessoas fazendo acarajé em Salvador, mas apenas 450 são registradas. As outras, talvez por falta de condições, preferem não pagar a mensalidade de R$5,00 da Associação das Baianas e a anuidade de R$ 119,00 cobrada pela prefeitura. Estão sujeitas às punições da lei.

Miraci é uma baiana que nunca esteve na ilegalidade. Trabalha há quinze anos no Pelourinho, último reduto do acarajé tradicional: “Se nós entramos com a nossa roupa e esses colares num templo evangélico, eles nos expulsam. Então, também não deixamos baiana evangélica entrar no Pelourinho. Quando vejo um tabuleiro com letreiro escrito ‘acarajé de Jesus’, pergunto à baiana se ela por acaso já viu Jesus comer acarajé. Quem é que já leu na Bíblia que em tal ano Jesus comeu acarajé? Jesus come é pão. Não sou contra Jesus – Ele é o Todo-Poderoso –, mas se os evangélicos dizem que o acarajé deles está com Jesus, é porque, na lógica, o nosso só pode estar com o demônio”.

 

Em frente à Catedral da Fé, ninguém acha que o quitute feito por Tânia tenha parte com o demo. Um dia, durante uma pregação, um bispo da Universal anunciou que nunca tinha comido acarajé, e que ficaria feliz se algum fiel o presenteasse com um bolinho. Foi a senha para que o acarajé saísse do index proibitorum e caísse definitivamente nas graças do mundo evangélico.

Ao meio-dia, termina o segundo culto. Homens, mulheres e crianças, que vieram de longe com suas melhores roupas, fazem fila diante do tabuleiro de Tânia. Rosany Amorim de Araújo é uma delas. Formada em antropologia pela Universidade Federal da Bahia, veste um uniforme em que se lê: “Exército de Cristo em Ação – Grupo de Evangelização”. Ela só come acarajé de Jesus, e usa seus conhecimentos antropológicos para reconhecer uma baiana evangélica: “Procuro sempre pelos adesivos de Cristo no tabuleiro”. Ângela Maria Santos Silva é outra freguesa. Diz que não come acarajé de fora “porque pode estar amaldiçoado”. Explica: “Tem acarajé pro mal e pro bem. O gosto não muda, mas o fato de Deus faz diferença”.

E pode fazer mesmo. Euflazio Bispodos Santos é um senhor de bengala. Está convencido de que passa mal da barriga quando come acarajé de rua. Quando come o de Deus, não. Já tendo certa idade, prefere ser cauteloso. Só come acarajé de Jesus. E dane-se se for ilegal.

Roberto Kaz

Roberto Kaz

Repórter da piauí, é autor do Livro dos Bichos, pela Companhia das Letras

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