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Paraíso abalado

Resort da festa de casamento que irradiou a Covid-19 prepara reabertura

Emily Almeida
ILUSTRAÇÃO: ANDRÉS SANDOVAL_2020

Um dos primeiros locais que a Covid-19 visitou no Brasil foi um resort em Itacaré, cidade no litoral Sul da Bahia. No dia 7 de março, sábado, ocorreu ali o casamento de Marcelo Bezerra e Marcella Minelli, irmã da influenciadora digital fitness Gabriela Pugliesi. Ninguém suspeitava que a festa com cerca de quinhentos convidados, alguns vindos havia pouco do exterior, se tornaria um dos irradiadores iniciais do vírus no país. Dias depois do evento, os convidados começaram a apresentar os primeiros sintomas, incluindo a própria Pugliesi, que precisou entrar às pressas em isolamento.

Naquele sábado de festa na Bahia, havia na Itália 5 883 pessoas contaminadas pela Covid-19; na França, 959; na Espanha, 500; nos Estados Unidos, 377; e no Brasil, apenas 13. Para alguns brasileiros, o novo coronavírus parecia algo tão distante quanto Godzilla. Para outros, era apenas uma gripe qualquer. “Está sendo superdimensionado o poder destruidor desse vírus”, disse o presidente Jair Bolsonaro num pronunciamento público, dois dias depois do casamento.

Até 25 de junho, a Bahia havia acumulado 54 291 casos positivos, com 1 601 óbitos. De acordo com o último boletim epidemiológico de Itacaré, publicado na mesma data, a cidade de cerca de 28 mil habitantes tinha até então 127 casos positivos, com 4 óbitos.

 

O casamento de Minelli e Bezerra ocorreu no Txai, resort considerado luxuoso para os padrões nacionais, construído numa propriedade de 92 hectares, decorada pela Mata Atlântica e por uma praia de cerca de 3 km, cujos frequentadores são sobretudo os hóspedes – 350 por mês, em média, antes da pandemia. No hotel com quarenta bangalôs e catorze vilas residenciais funcionam dois restaurantes, dois bares, seis piscinas, spa, academia, sala de jogos e quadras de tênis. A diária de um bangalô premium, com 70 m2 de área e varanda privativa, custa de 2,26 mil reais, na baixa temporada, a 3,6 mil reais, na alta.



Em 19 de março, por causa dos casos de contaminação no casamento, o Ministério Público da Bahia pediu ao resort que informasse o nome e o local de residência dos funcionários que trabalharam na festa. Quis saber também se essas pessoas e seus familiares haviam feito o teste do novo coronavírus. Em Itacaré, o alarme soou bem alto, depois das núpcias. O município correu para adotar medidas contra a Covid-19, como monitorar os primeiros doentes, exigir dos moradores autorização prévia para viagens e criar barreiras sanitárias nas rodovias – os carros eram lavados com um composto feito de água sanitária e água. Em 30 de março, o Txai fechou as portas, como a maioria dos hotéis e resorts da região. Parte dos 150 funcionários foi mantida em regime de home office e parte entrou em férias coletivas. Segundo o estabelecimento, ninguém foi demitido.

“Todos nós passamos por momentos difíceis sem saber qual a dimensão da situação. Era uma quarentena de um mês e depois foi aumentando”, disse Bruna Dib, diretora de vendas e marketing do Txai. “Ficou difícil tanto para os colaboradores quanto para os hóspedes que perderam a possibilidade de viagem já agendada.” A perda de receita no resort é ainda maior quando se põe na conta os vários eventos cancelados ou adiados, como as festas de casamento.

 

O Txai de Itacaré planejava sua reabertura para o primeiro dia deste mês. Em meados de junho já havia movimentações para ajustar o local aos novos cuidados sanitários, que deverão mudar bastante a sua rotina. A área extensa do local e a ocupação máxima prevista para os próximos meses – cerca de oitenta pessoas – tende a favorecer o distanciamento no resort. Mas o número de hóspedes pode ser reduzido mais ainda por força de um futuro decreto que irá definir as novas regras de ocupação em hotéis.

Outras providências estão sendo tomadas no Txai. As mesas nos restaurantes e as espreguiçadeiras nas piscinas e na praia, os lugares mais movimentados do resort, serão mantidas a uma boa distância umas das outras. Os concorridos bufês do café da manhã sairão de cena: só haverá opções à la carte. Os cardápios em papel dos restaurantes deixarão de existir. Para fazer o pedido, o hóspede precisará consultar cardápios virtuais, que poderão ser acessados por meio de QR Code nos celulares. Os hóspedes receberão todas as informações via celular. Os funcionários usarão equipamentos de proteção individual (EPIs), como máscara, óculos e luvas.

Nos primeiros meses, a academia e a sauna ficarão fechadas – ambas costumavam receber um bom número de pessoas. O spa, situado no alto de um monte e com vista panorâmica para o mar, funcionará com horário marcado, em sessões individuais. Um dos serviços oferecidos é o banho de purificação, que pode se tornar um hit no resort, depois de tantos meses de energias negativas.

Dib garante que os preços de hospedagem serão os mesmos de antes da pandemia, mas é pessimista quanto ao futuro imediato do turismo. “Dificilmente as empresas conseguirão se recuperar financeiramente desse tombo, mesmo com os empréstimos e os financiamentos. A ajuda do governo, por exemplo, demorou muito para vir.” Apenas em maio o Ministério do Turismo liberou recursos – 5 bilhões de reais – na forma de empréstimos para empresas do setor.

O ramo do turismo foi um dos mais afetados economicamente com a pandemia, em todo o mundo. Uma pesquisa realizada pela Fundação Getulio Vargas (FGV) estima que o setor turístico brasileiro terá uma queda de quase 40% no faturamento entre 2019 e 2020. A situação vai afetar profundamente Itacaré, cuja principal fonte de renda vem do turismo (representa cerca de 90% do PIB do município). Abalo semelhante deve atingir outras cidades do litoral da Bahia.

Por causa da suspensão dos voos, Dib, 33 anos, não visita o hotel desde o fechamento. Porém, de seu escritório comercial no bairro Itaim Bibi, em São Paulo, ela monitora o local diariamente, por meio de câmeras instaladas no resort. Nos últimos três meses, sua visão foi todo dia a mesma: as portas trancadas, os ambientes despovoados, o silêncio e o vazio em toda parte. “É triste”, ela disse. “O resort era um local de celebração.”

Emily Almeida

Repórter da piauí

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