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Um circo se reinventa com espetáculos online

Maurício Frighetto
ILUSTRAÇÃO: ANDRÉS SANDOVAL_2020

Sob a lona rosa e amarela do Circo Rakmer, os artistas se preparavam para o início do espetáculo, na noite de 4 de abril, sábado. “Vai ser duro se apresentar sem plateia”, disse o proprietário do circo, Jefferson Rakmer, para a trupe atrás das cortinas. “Mas precisamos entrar com garra e devolver com carinho a ajuda que recebemos nos últimos dias.” Pela primeira vez, o show seria transmitido ao vivo pela internet.

Há quase dois anos, os artistas do Circo Rakmer estão percorrendo o estado de Santa Catarina. Enquanto se apresentavam em Camboriú, durante os meses de janeiro e fevereiro, começaram a ouvir notícias sobre o cancelamento de eventos por causa da epidemia do novo coronavírus. Mesmo assim, mantiveram os planos e seguiram para São José, na Grande Florianópolis. Por ser uma região metropolitana, o circo investiu alto no aluguel do terreno e em divulgação na mídia.

A estreia ocorreu em 6 de março, sexta-feira. Nos três primeiros dias, pouco mais de mil pessoas assistiram aos sete espetáculos, um bom público para início de temporada. Na semana seguinte, à medida que o novo coronavírus avançava no país e as medidas para evitar aglomeração aumentavam, a plateia foi minguando. Na segunda-feira, dia 16, o circo – com capacidade para novecentos espectadores – teve que interromper as atividades. “Quando paramos, não tínhamos dinheiro nem para a polenta do urso”, disse o proprietário, recorrendo a uma frase antiga do mundo circense, usada para expressar uma situação financeira difícil.

Estima-se que existam cerca de 2 mil circos no Brasil. Segundo a Associação Brasileira do Circo (Abracirco), devido às medidas de isolamento social, todos pararam. Alguns, que estavam na estrada, não receberam autorização para entrar nas cidades e tiveram que estacionar em postos de combustível ou em terrenos cedidos por solidariedade.



O Circo Rakmer tinha pagado o aluguel do terreno até o fim de março. Sem dinheiro para o mês de abril, os artistas acharam que precisariam se mudar – sem ter para onde ir. Mas o Shopping Itaguaçu, dono do estacionamento onde o circo foi montado, os surpreendeu: deixou de cobrar a locação até que retomem os espetáculos tradicionais. Os artistas também receberam apoio da Prefeitura de São José, de moradores e organizações sociais, que lhes enviaram cestas básicas.

Sem o dinheiro da bilheteria, foi necessário buscar outra fonte de renda. Como a estrutura já estava montada, o circo resolveu fazer um espetáculo com transmissão pela internet. Ao divulgar o show nas redes sociais, sugeriu aos espectadores uma doação mínima de 5 reais – os ingressos antes da quarentena custavam entre 10 reais e 50 reais.

A live do dia 4 de abril foi transmitida via Facebook e Instagram pelos celulares dos artistas, de maneira um tanto improvisada. Mesmo assim, cerca de 12 mil pessoas assistiram ao espetáculo ao vivo, segundo Rakmer. “Ganhamos um bom dinheiro”, disse o proprietário, que não quis revelar o valor arrecadado.

 

Natural de Franca (SP), Jefferson Rakmer, nome artístico de Jeferson Batista Urbano, tem 54 anos. Como seus pais trabalhavam sob a lona, ele “nasceu no circo”. Estudou até a terceira série do ensino fundamental, abandonou os estudos e virou o palhaço Fuça. Já foi acrobata, trapezista e adestrador de animais. Aos 35 anos, após ter um problema de coluna, tornou-se apresentador. Trabalhou 22 anos em circos do Beto Carrero e só em 2007 decidiu montar seu próprio negócio.

Apesar da longa experiência, Rakmer ficou bastante preocupado com a estreia online. “Eu tremia. Geralmente fico nervoso no início do show, mas logo depois passa. Na live foi uma tensão do começo ao fim”, contou. “Acho que era a necessidade de dar certo e devolver às pessoas o que elas nos deram.”

A apresentação foi um desafio para todos os artistas, mais ainda para Fernando Fernandes, de 26 anos, o palhaço Potato, que também atua no Globo da Morte. “Eu fazia piada e ninguém ria, nem aplaudia. Foi uma experiência que vou levar para o resto da vida”, disse.

 

Quando as apresentações foram interrompidas por causa da pandemia, Rakmer perguntou aos trabalhadores se queriam voltar às suas casas ou às de seus parentes. “Ninguém quis. Me disseram que a casa deles é aqui.” O proprietário, assim como muitos artistas, sequer tem residência fixa. Ele mora em um trailer com a mulher e três filhas pequenas – um filho e uma filha adultos também vivem com suas famílias no mesmo circo.

Lonas foram estendidas na frente dos quinze trailers estacionados ao lado da tenda do circo. São como varandas com cadeiras, varais para estender roupas e brinquedos para a criançada. A casa da família da trapezista Jéssica Rodrigues, de 28 anos, que mora com o marido e a filha de 6 anos, foi montada dentro da carroceria de um caminhão Volvo. Dispões de dois quartos, sala, cozinha e banheiro. O cômodo da menina, decorado com papel de parede florido, tem televisão, ar-condicionado, lustre e até uma pequena banheira.

Manter o isolamento social no circo significa permanecer no trailer. “Cada um tem sua casa. A gente fica aqui dentro o máximo possível. É como se fosse um condomínio”, comparou Rodrigues. A quarentena mudou bastante a rotina da sua família: a trapezista deixou de frequentar a academia; o marido parou de fazer reparos em casas da região; a filha não foi mais à escola – as crianças do circo são matriculadas em algum colégio próximo quando a trupe chega numa cidade.

No domingo de Páscoa, 12 de abril, aconteceu a segunda apresentação online do Circo Rakmer. Dessa vez, de maneira mais profissional, graças ao trabalho da produtora Live tv Brasil, que utilizou três câmeras e fez uma boa captação do som. “Transmissão perfeita”, elogiou @Luis Pessoa​. “Em tempo de quarentena, tem coisa melhor???”, escreveu @Geraldo Banas. Os artistas estavam mais adaptados ao espetáculo sem público. “Quero ver todo mundo em casa nas palmas”, pediu Rakmer. As palmas aconteceram, mas na forma de emojis no chat da transmissão. Os palhaços recebiam smiles gargalhando. “Parabéns, lindo show, rimos muito com o Palhaço”, comentou @Cristiane Souza​.

Ao ver Potato contando piadas, dançando e pulando no trapézio, era difícil imaginar a angústia de Fernando Fernandes, que encarna o palhaço. Desde o ensaio para a live, uma pergunta sobre o futuro do circo não lhe sai da cabeça: “Será que isso vai virar nossa nova realidade?”

Maurício Frighetto

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