esquina

Retrato de classe

Uma conversa com alguns burgueses

Dorrit Harazim
ILUSTRAÇÃO: ANDRÉS SANDOVAL_2010

Mateus Beluco de Carvalho ainda é aprendiz. Aprendiz de burguês, segundo classificação cunhada pelo presidente Lula, que vê na prática do tênis uma fronteira intransponível da luta de classes. O moleque de 10 anos cursa a 4ª série na escola estadual Pandiá Calógeras, na Zona Leste de São Paulo, e sempre que pode frequenta a quadra pública de cimento do bairro. Quem o acompanha a pé até o Clube Escola da rua Taquari é sua bisavó, uma vez que os pais do tenista mirim trabalham fora e só voltam para casa à noite. Mateus não quer saber de futebol nem de futsal. Seu herói das quadras continua sendo “o Guga”, aposentado há dois anos depois de ter conquistado 20 títulos internacionais. Mateus ganhou raquete própria – uma Wilson básica, presente dos pais que jamais praticaram qualquer esporte. “Adoro isso aqui”, diz ele.

Ao todo, são 32 as quadras de tênis da Secretaria Municipal de Esportes, Lazer e Recreação de São Paulo concentradas na periferia da capital. A maioria é de cimento cru, algumas têm a marcação pintada com tinta emborrachada, oito são de saibro, várias fazem as vezes de quadras poliesportivas e 18 delas, ou seja, mais da metade, estão com as atividades temporariamente interrompidas por motivos diversos.

Ainda assim, o conjunto de espaços públicos do programa Clube Escola, criado pela prefeitura em 2007, aglutina mais de 3 mil jovens da rede pública loucos para rebater uma bolinha. Nesse universo, a Teoria do Tênis como Agente da Burguesia construída por Lula de improviso foi bola fora.

 

Jhonatan Souza de Assis, apelido Maradona, faz parte desse novo mundo e pede que se grafe o nome dele corretamente. Aos 16 anos, já tem altura de gente grande e ainda não parou de espichar – altura de atleta, não de presidente da República. Filho de pai taxista e mãe cabeleira, está no 2º colegial de escola pública e não sabe se tenta entrar para engenharia ou educação física. Foi apresentado ao esporte burguês por um colega de escola e descobriu que era talentoso. Apontado como um dos mais promissores da turma, além de primeiro jogador de tênis do cortiço em que mora, Jhonatan já não usa as raquetes cedidas pela prefeitura, que ficam na beira da quadra à disposição dos sem-raquete. Treina com uma Yonex que lhe custou 70 reais e dá a liberdade de jogar em qualquer lugar.

Só que essa liberdade tem limites. Para se inscrever em torneios oficiais que definem o ranking nacional de cada categoria, o tenista precisa ser federado. E para se tornar membro da Federação Paulista de Tênis é preciso mesmo ser burguês, pois é necessário desembolsar 230 reais de anuidade, além da taxa de inscrição por torneio, que varia entre 50 e 80 reais. Jhonatan não quer ser presidente da República – parafraseando o próprio Lula, “isso é cargo da burguesia, porra” – quer apenas tentar ser tenista.

Pede licença para levantar e vai se juntar ao treino das duas da tarde que está para começar na quadra pública da Mooca. Vivian Sampaio, há três décadas funcionária da Secretaria de Esportes, é a morena roliça, dinâmica e empolgada que faz as vezes de professora e treinadora do grupo. Postada junto à rede, ela tem ao alcance da mão um tonel de PVC contendo mais de 100 bolinhas usadas. Com a quinzena de alunos em formação indiana no fundo da quadra, joga quatro bolas para o primeiro da fila – uma na direita, uma na esquerda, duas curtas junto à rede. A fila avança em ritmo principiante, as bolas sendo rebatidas nas direções mais imprevisíveis e aleatórias.

Tudo muda quando um petardo certeiro cruza a quadra em diagonal, passando rente à rede. As próximas três rebatidas também têm potência e direção. Saíram da raquete de um moleque de 16 anos, aparelhos nos dentes e muito gel para sustentar o corte de cabelo moicano. João Victor Barbosa Santos começou a bater bola ali mesmo aos 13 anos de idade e federou-se em 2008. “Desde a primeira vez que botei a mão numa raquete soube que não ia parar nunca mais”, conta o adolescente, que treina de três a quatro horas todos os dias, “menos aos domingos, que é dia da família”.

 

João Victor recita na ponta da língua o nome dos torneios que compõem o Olimpo do tênis profissional (Australian Open, Wimbledon, Roland Garros e US Open) e lista com familiaridade os brasileiros da geração pós-Guga – Thomaz Bellucci, Tiago Fernandes, Thiago Alves e Ricardo Mello. O suíço Roger Federer é o seu ídolo maior.

Nascido numa família modesta decididamente não burguesa, o jovem tenista dedicou-se a ensinar aos pais as impenetráveis regras do esporte que pratica. Conseguiu, um feito notável considerando-se que não seguem qualquer lógica e só poderiam ter sido inventadas por um inglês do século XIX. Pouco a pouco o casal da Mooca foi se enfronhando nesse cipoal de regras esdrúxulas e pontuação delirante e passou a torcer das arquibancadas pelo filho. O imenso troféu de campeão municipal de 2008, categoria principiante, reina na estante da casa.

O vídeo de Lula irritado com a pretensão de um pobre em querer jogar tênis não provocou risadas em João Victor. Gerou, sobretudo, desalento. “Acho que ele falou algo totalmente errado”, disse, constrangido com o preconceito do presidente de seu país.

Para a baiana Patrícia Medrado, segundo maior nome do tênis feminino brasileiro depois de Maria Esther Bueno, o comentário de Lula é um retrato da visão estereotipada do esporte no Brasil. “Aqui, quando se pensa em futebol, costuma vir à cabeça uma pelada de várzea, um joguinho na praia com dois coquinhos fazendo as vezes de gol. Mas e a Jabulani ou as chuteiras que custam uma fortuna? Já o tênis é sempre apresentado como algo elitista e importado.”

A ex-atleta fundou um instituto que leva o seu nome e tornou-se parceira do programa Clube Escola. “Conseguimos demonstrar que até mesmo um estacionamento pode ser transformado em quadra”, contou por telefone, referindo-se à primeira unidade da zona leste voltada só para o tênis, com 300 alunos praticantes e o envolvimento da vizinhança. O mito da raquete cara foi logo resolvido pela distribuição de raquetes de plástico, que facilitam a iniciação.

Até mesmo o jovem carioca que gravou o revelador bate-boca com Lula trata o tênis com menos nobiliarquia do que o presidente. “Eu gosto de tênis, só isso. Jogo aqui na rua com estas raquetes que compro na feira. São usadas mas dá pra jogar”, garantiu.

Lula ainda tem seis anos para decidir se prefere um Brasil sem pobres, logo pronto para jogar tênis, ou um país de brasileiros envergonhados com o esporte. A partir de 7 de agosto de 2016, contudo, quando os Jogos Olímpicos desembarcarem no Rio de Janeiro, proletários, pequenos burgueses e burgueses de 213 países disputarão as mesmas medalhas. Convém ao Brasil estar preparado para colher o que plantou.

Dorrit Harazim

Dorrit Harazim é jornalista. Foi editora de piauí de 2006 a 2012

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