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A revolta das carroças

Uma profissão centenária em risco

Leandro Aguiar
ILUSTRAÇÃO: ANDRÉS SANDOVAL_2019

Depois de promulgarem o Dia Municipal do Jazz, os vereadores de Belo Horizonte preparavam-se na tarde de 8 de abril para a votação do projeto de lei nº 142/17. “Se for aprovado, é capaz de eu sofrer um desmaio”, disse Luiz Vieira na galeria do plenário da Câmara Municipal. “Como já estou fazendo hora extra no mundo, talvez eu nem saia vivo daqui”, exagerou, ajeitando o chapéu de palha com uma imagem de Nossa Senhora Aparecida.

O projeto de lei propõe a substituição gradual das carroças de tração animal por veículos motorizados na capital mineira. Se aprovado, será o fim de uma profissão, a de carroceiro, que vem sendo exercida sem maiores contratempos há mais de 120 anos em Belo Horizonte – cidade planejada cuja inauguração se deu em dezembro de 1897.

A cisma com as carroças urbanas é coisa relativamente recente. Em 2013, o ex-vereador Adriano Ventura (PT) propôs um projeto de lei, que chamou de “Cavalo de Lata”, que pretendia substituir as carroças com animais por motos adaptadas ao transporte de cargas. Quando o projeto foi votado, em 22 de outubro de 2014, quatrocentos carroceiros, acompanhados de seus respectivos instrumentos de trabalho, tomaram conta da rua em frente à Câmara Municipal. Por causa da “carroceata”, o vereador Ventura acabou retirando o projeto.

Em 2017, o vereador Osvaldo Lopes – hoje deputado estadual pelo PSD e eleito com a bandeira da proteção animal e do vegetarianismo – repaginou a ideia de Ventura e propôs o projeto de lei nº 142. No dia da votação, ocorreu uma nova “carroceata”. “A cidade é nossa roça/nossa luta é na carroça”, gritaram os carroceiros às portas da Câmara Municipal. A votação foi novamente adiada.

O projeto de lei voltou à pauta mais três vezes, sem sucesso, até que no início de abril os vereadores decidiram votá-lo pela quinta vez. E lá estavam, na galeria do plenário da Câmara, aguardando o desfecho da votação, cerca de cem carroceiros muito tensos, entre eles Vieira, de 75 anos, que por exercer sua profissão há mais de cinco décadas é chamado de “vovô da carroça”.

 

Luiz Vieira desembarcou em Belo Horizonte pela primeira vez em 1965, acompanhando o pai e um irmão agonizante, ferido por um tambor de gasolina que caiu de um caminhão sobre sua perna. Como a cidade de Itamarandiba, no nordeste mineiro, não dispunha de tratamento médico adequado, o prefeito fretou um jipe para conduzir os três até Belo Horizonte. O irmão se recuperou da fratura exposta, e o pai resolveu ficar com os filhos na capital. “A vida na roça era custosa, lá a gente não fazia nem para comer”, lembrou Vieira.

Os primeiros meses não foram fáceis. Enquanto buscavam trabalho, os três foram morar na hoje extinta favela da Abadia, na Zona Leste da cidade, e sobreviveram comendo bananas velhas descartadas no Mercado Central. Um dia, Vieira ouviu falar que a prefeitura estava contratando quem dispusesse de carroça para trabalhar na retirada de cascalho do Arrudas, importante ribeirão da cidade que começava a ser canalizado. Ele então arrendou um cavalo e virou carroceiro.

De lá para cá, Belo Horizonte mudou inteiramente, mas os carroceiros permanecem.  Para se tornar um deles é preciso ter habilitação emitida pela Empresa de Transportes e Trânsito e, a cada três anos, passar pelo recadastramento da prefeitura – que inclui a vistoria do veículo e a apresentação do cartão de vacinas do animal. A Secretaria Municipal de Meio Ambiente estima em 5 mil o número de carroceiros na cidade, dos quais 1,6 mil estão cadastrados. A principal atividade da categoria é transportar lixo até as unidades de reciclagem.

Para incrementar as vendas, Vieira costuma distribuir um cartão de visitas com seu nome e o desenho de sua carroça rubro-verde, puxada por uma égua robusta de pelo branco. Brahma está com Vieira há cinco anos, e é uma das muitas éguas que ele já conduziu – os machos se assustam mais com o trânsito, ele avalia. Nos melhores dias, os dois faturam até 150 reais.

 

Em um vídeo postado no Facebook pelo deputado Osvaldo Lopes em defesa do PL 142, um homem aparece chicoteando um cavalo sujo e malcuidado, com o corpo ferido por causa do trabalho na carroça. “Luto pela aprovação do projeto por entender que ele protege os animais e propõe uma solução viável de transporte”, explicou o deputado à piauí. Se o projeto de lei for aprovado, os carroceiros precisarão se converter em motoqueiros, com habilitação para dirigir os “cavalos de lata”, nos quais seriam acopladas pequenas caçambas para os carregamentos. “Queremos oferecer facilidades tanto para o carroceiro adquirir uma moto quanto para aprender a pilotá-la. O que não pode continuar é essa dinâmica exploratória, na qual o animal sofre e depois de velho é abandonado à própria sorte”, completou Lopes.

O argumento dos maus-tratos irrita Vieira, que estima gastar mais de 400 reais por mês com Brahma, o que inclui a compra de ferraduras, vermífugos, soro e capim (“porque milho dá cólica nela”). Ele contou que a égua também toma banho diariamente e dorme no quintal, perto da janela do quarto do casal, na casa que Vieira adquiriu no bairro São Geraldo. “A relação é de amizade. Tiro do lombo dela o ordenado que ajudou a criar minha família”, afirmou o carroceiro, que tem cinco filhos – três dos quais atuam na mesma profissão do pai – e nove netos.

Vieira prevê outros dois problemas no caso de aprovação da lei. Milhares de animais seriam abandonados pelos donos, já que o custo para mantê-los é alto. Além disso, muitos carroceiros analfabetos, como ele, não teriam condições de tirar a carteira de motorista e ficariam desempregados. “Tenho quase 80 anos, nenhum lugar me aceitaria”, disse, e acrescentou, rindo: “Só o cemitério.”

Em 8 de abril, os carroceiros saíram vitoriosos. Os vereadores favoráveis ao projeto recuaram, a votação foi adiada outra vez e não se sabe quando voltará à pauta da Câmara. Além disso, os carroceiros confiam na promessa do prefeito Alexandre Kalil (PSD), feita a Zé da Horta, líder da categoria, em 2017, de vetar o projeto de lei, caso ele seja aprovado – indagada a respeito, a prefeitura não quis comentar o caso. Por enquanto, Vieira e Brahma podem continuar a percorrer tranquilamente a sua roça.

Leandro Aguiar

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