esquina

Rico não entra

De moeda em moeda o leão enche a pança

Bruno Moreschi e Thiago Ramari
ILUSTRAÇÃO_ ANDRÉS SANDOVAL_2008

O tempo em Maringá, a 430 quilômetros de Curitiba, deu sinais de fim dos tempos. A tempestade de 26 de dezembro aterrorizou a população, levou telhados de casas pobres e inundou o ginásio de esportes Chico Neto, uma espécie de Pacaembu local. Ligaram para os bombeiros de madrugada: “Nosso cartão-postal vai por água abaixo!” Os homens fardados vieram com balde e vassoura.

Enquanto chovia na cidade, conhecida pela obstinação em tentar entrar no Livro dos Recordes como a mais arborizada do Brasil, uma mulher travava batalha solitária contra o temporal. Com uma das mãos, Maria Vida tentava proteger o rosto; com a outra, tateava o chão em busca de três moedas de 25 centavos que tinham caído de um cofre em forma de leãozinho de pelúcia. Recuperou duas; a terceira escapuliu pelo bueiro.

Maria Vida não é um dos 602 colecionadores da Sociedade Numismática Brasileira. Sua obsessão pelas pratinhas, como costuma chamá-las, vem do projeto social Suficiente, instituído por ela em 2004 para ajudar famílias necessitadas. Em relação a outras iniciativas do gênero, a peculiaridade é que, aqui, doador endinheirado não entra. Vida só aceita doações de 25 centavos, nem mais, nem menos. Ela esclarece: “Quando você fala do projeto com um rico, ele quer oferecer 100 pila para se livrar do problema. Não quer ter compromisso”.

Ao explicar seu esquema de arrecadação, ela chacoalha o leãozinho; o barulho mostra que o felino está abonado: “É simples. Espalho oitenta cofrinhos de leão em locais estratégicos, como balcão de boteco, minimercado e salão de beleza”. Ao lado dos bichinhos, trazidos do Paraguai, há sempre um papel que explicita o valor máximo da doação. Eventuais exageros, como uma moeda de 50 centavos, são acatados a contragosto. O montante é recolhido pela própria Vida, funcionária única da organização, na primeira e na última semanas do mês. O campeão de arrecadação é o Bar da Lena, freqüentado por desempregados e catadores de lixo, famoso pelo doce de abóbora em formato de coração.



 

Vida tem 45 anos e mora na Zona 7, bairro de classe média baixa onde divide um apartamento modesto com três filhos e o marido aposentado, que nunca doaram 25 centavos. O projeto surgiu depois de sucessivas frustrações com o mundo do voluntariado. Em 2004, ela tentou dar aulas de artesanato para jovens internos de um presídio. Em menos de quatro meses, desistiu: achou que a molecada não levava jeito para o ofício.

Veio então a idéia de convencer empresários e comerciantes da cidade a contribuir com uma quantia mensal, no estilo “Eu adoto uma família”. Ela foi de escritório em escritório, mostrando como era fácil ajudar. Diante da explanação, os virtuais doadores sorriam, mas, na hora de pôr a mão no bolso, um único se dispôs: daria 50 reais – desde que ela aparecesse no palanque durante sua campanha para vereador. Vida recusou.

Um prenúncio de tempestade em fevereiro de 2005 mudou as coisas. Voltando a pé para casa, desiludida por mais um encontro com a elite empresarial, Maria Vida buscou refúgio num barracão onde já estava seu Jorge, um catador de recicláveis. Ela suspirou: “Lembra aquela idéia de empresário ajudar pobre? Já era…” Depois de ouvir a história que ela tinha a contar, seu Jorge tirou do bolso 25 centavos, na época o valor de 1 quilo de papelão, e disse: “Todo mês vou contribuir com uma moeda dessas”. Vida teve um estalo: o segredo era pobre ajudar pobre.

Reuniu então uma multidão de descamisados e, sobre um monte de papelão, discursou. A conta aparentemente não fecharia: para cada 110 reais – valor que estipulou como ajuda mensal às famílias -, 440 pessoas precisariam colaborar com uma moedinha de 25 centavos. Mas o projeto caiu na boca do povo, e hoje quarenta famílias contam com a ajuda. Do dinheiro recebido, os beneficiados são obrigados a deixar 10 reais na conta para as despesas bancárias; 70 se destinam a necessidades básicas, como comida e remédio; e 30 podem ser gastos em lazer, de preferência em alguma farra comunitária. “A última foi na sala de cinema, para ver a reprise do filme do Zezé di Camargo & Luciano”, relembra.

A maratona até chegar aos leõezinhos criou em Maria Vida uma espécie de ojeriza aos ricos da cidade. Numa quarta-feira recente, ela desdenhou de uma dondoca que lhe telefonou para contribuir com 100 reais. A história se repete quando, uma vez por semana, ela navega pela internet nos computadores da Câmara Municipal. Um e-mail dizia: “Cara Maria Vida, meu filho tentou entrar em contato com você por telefone, mas não obteve sucesso. Sei de sua insistência em deixar o projeto como está, mas creio que o correto seria unir forças”. Ela esbravejou ao ver o sobrenome comprido: “Se rico entrar, mela tudo”.

De dezembro para cá, a raiva parece crescente. Ela acha que novos aumentos de impostos virão depois da queda da CPMF e que mais gente aparecerá em busca de ajuda. Desgostosa, imagina que uma hora terá que dividir o fardo a que se impôs e abrir a porteira do seu mundo de felinos para os ricos – esses, leões de verdade.

Bruno Moreschi

Bruno Moreschi, jornalista e artista plástico, é coautor de 501 Grandes Artistas, da Sextante.

Thiago Ramari

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