esquina

Robéli e os 40 ladrões

Na falta da lei, experimente a fé

Felipe Sáles
ILUSTRAÇÃO: ANDRÉS SANDOVAL_2010

Depois de quarenta assaltos, o casal Tesch acha que só tem uma coisa a fazer: esperar o próximo. Quando abriram o supermercado em Mariópolis, há sete anos, e o batizaram de Robéli – união de Roberto e Eliana –, não podiam imaginar até que ponto acertavam na mosca. Mariópolis, um pequeno bairro à beira do Rio Pavuna, entre o Rio de Janeiro e a Baixada Fluminense, não era lá uma Suíça, mas até que parecia calmo. Eliana havia aposentado a voz de cantora – chegara a gravar discos de MPB na Europa e no Japão – e Roberto, um ex-vendedor de biscoitos, decidira virar patrão de si mesmo. Os dois matutaram um pouco e chegaram à conclusão de que um supermercadinho era uma boa coisa.

Só faltou combinar com o poder público. Nos primeiros 39 assaltos, as forças da lei ou não apareceram ou chegaram tarde demais. Somente no quadragésimo roubo foi possível prender um bandido, se bem que boa parte do mérito não coube à valorosa polícia mariopolense, mas aos métodos de combate ao crime postos em prática por um desalentado Roberto. Métodos para lá de subjetivos, diga-se, consistindo, basicamente, num sujeito contratado para desconfiar de pessoas com cara de meliante em potencial. O espião fica andando de lá para cá, ajuda a ensacar a compra de um, pergunta as horas a outro, finge comparar preços de geléia de mocotó e, nesse ínterim, mantém o olho vigilante na clientela.

Foi assim que, pela primeira vez na história de Mariópolis, capturou-se um assaltante do Robéli. O olheiro avisou ao patrão que três jovens suspeitíssimos acabavam de sair de um carro. Roberto pegou o celular, foi para o outro lado da rua e ficou à espreita. Dito e feito: era assalto. Discreto, ligou para a esposa e pediu-lhe que chamasse a polícia. Eliana, por sorte, estava logo ali, no fim da Rua Itajobi, a escassos 500 metros do supermercado, justamente ao lado do trailer da Polícia Militar – trailer este que fora plantado no local dois anos antes e que até então conseguira ser tão eficiente quanto uma carrocinha de pipoca.

Desta vez seria diferente. Os policiais saíram com sanha de justiça, e em pouco tempo tiros de fuzil e pistola explodiram nas paredes e vidraças do Robéli, levando clientes e funcionários a se jogarem atrás de frutas e legumes. Dois bandidos conseguiram fugir – a pé. O terceiro, um pouco mais atrapalhado, foi preso. Raras vezes o povo gostou tanto de um tiroteio. Foi como se os repolhos e nabos varados de bala atestassem que o Estado finalmente dera as caras naquele pedaço de mundo. Até aquela data, os Tesch só haviam contado consigo mesmos, o que não era grande coisa, dada a obsessão dos fora-da-lei. Um ex-segurança deles, por exemplo, fora o primeiro a ser rendido durante um assalto. Tentaram um sistema de câmeras de vigilância, mas enjoaram de colecionar filmes de ação em que eram sempre os protagonistas.

Uma vez, um assaltante foi lá pegar carne para o churrasco do chefe do tráfico. Bom funcionário, apresentou-se com jeito: “Quero carne de primeira para o aniversário do patrão.” Obteve-a – e partiu feliz da vida, esquecido de roubar também a fita de segurança. Um mês depois, deve ter acordado em sobressalto, pois foi quando voltou ao Robéli para ver se ainda dava tempo de apagar os traços de sua ação criminosa. Dava, sim. A fita continuava intacta, longe de quaisquer anseios dos agentes da lei. Como o bandido já estava ali mesmo, e não tinha nada melhor para fazer, aproveitou para assaltar a casa uma segunda vez. Fez até uma refém, ocorrência prontamente comunicada aos policiais, que reagiram com um bocejo metafórico. O desaforado levou as fitas, as câmeras, o dinheiro e, de lambuja, uma sacola cheia de camisinhas que um cliente acabara de comprar. A PM só chegou a tempo de ouvir a chacota dos cidadãos.

 

Em outra oportunidade, um cliente e amigo do casal, horas depois de presenciar um assalto, desconfiou que identificara o assaltante num bairro vizinho. O larápio, muito sossegado, gastava parte do butim num fliperama. O amigo voltou ao supermercado, conferiu a gravação e não teve dúvida: não haveria no mundo um segundo par de orelhas como aquele. A polícia, avisada, informou educadamente que não podia ir à favela “por falta de equipamentos”. O próprio Roberto chamou então um amigo policial e saíram juntos à cata do suspeito, que acabou admitindo o crime. A mãe do rapaz suplicou que não levassem o filho preso, prometeu que o mandaria para outro estado, insistiu, implorou… O casal, pais de um garoto da mesma idade, deixou pra lá. Um bandido a mais, um bandido a menos, àquela altura já não fazia diferença.

Nos últimos tempos, Roberto e Eliane vêm experimentando uma nova tática: entregar a Deus. Eliana anda investigando algumas religiões para descobrir qual delas lhes oferece maior proteção. Dia desses, deu uma ótima pontuação a São Jorge. Ela chegava ao supermercado quando dois homens quiseram levar seu carro. Num rasgo de desespero, sem nunca ter sido devota, resolveu invocar o santo guerreiro:

– Não façam isso, eu sou de São Jorge!

– São Jorge que se foda! – responderam os bandidos.

Aí foi um erro. Dita a impiedade, eles pisaram fundo e partiram. Ouviu-se a arrancada, e então uma freada brusca, e então uma batida esplêndida. São Jorge cravara sua espada. O carro ficou empinado na beira do rio, e os assaltantes não se espatifaram por pura misericórdia divina. De lá para cá, vem se fortalecendo a crença de que só São Jorge fala curto e grosso com a bandidagem do Robéli.

Felipe Sáles

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