questões tecnoafetivas

Romance virtual

O namoro pela internet destruiu minha noção de mim mesma como alguém que eu conheço e compreendo, e que consigo expressar em palavras

Emily Witt
Quando postei no OkCupid que gostava de doces e de documentários, recebi uma enxurrada de sugestões de vídeos sobre espécies ameaçadas e dicas para fazer panetone de chocolate
Quando postei no OkCupid que gostava de doces e de documentários, recebi uma enxurrada de sugestões de vídeos sobre espécies ameaçadas e dicas para fazer panetone de chocolate ILUSTRAÇÃO: JASON MUNN

Normalmente não me sinto à vontade sozinha num bar, mas eu já estava morando em San Francisco havia uma semana e o apartamento que subloquei de outra pessoa não tinha nenhuma cadeira, só uma cama e um sofá. Meus amigos na cidade eram casados ​​ou trabalhavam de noite. Na terça-feira, meu jantar foi uma sopa de lentilhas que comi em pé no balcão da cozinha. Quando terminei, passei para o sofá na sala de estar quase vazia, e sentei debaixo da lâmpada incandescente do teto buscando alguma novidade no meu laptop. Isso não era jeito de viver. Um homem nessa situação iria sozinho a um bar, pensei comigo. E assim, fui sozinha a um bar.

Sentei em um banquinho no balcão, pedi uma cerveja e comecei a ler as notícias no meu celular. Fiquei esperando que alguma coisa acontecesse. Um jogo de basquete passava em várias tevês ao mesmo tempo. O bar tinha assentos forrados com uma imitação de couro vermelho, luzinhas de Natal, e a bartender era mulher. Em uma ponta do balcão, um casal de lésbicas estava aos beijos. Na outra extremidade, depois da curva onde eu estava sentada, um homem de óculos, mais ou menos da minha idade, assistia ao jogo. Como nós dois éramos as únicas pessoas que estavam sozinhas no bar, olhamos um para o outro. Daí fingi que estava assistindo ao jogo em uma tevê que me permitia olhar para o outro lado. Com isso, ele virou as costas para mim para olhar a tevê acima das mesas de bilhar, onde alguns rapazes aplaudiam alguma boa jogada.

Esperei que alguém se aproximasse. Alguns banquinhos adiante, dois homens caíram na risada. Um deles veio me mostrar por que estavam rindo. Apontou no seu celular uma mensagem no Facebook. Li a mensagem e dei um sorriso discreto. O homem voltou para o lugar dele. Recomecei a tomar minha cerveja.

Por um momento, me permiti sentir saudades da minha sala de estar e do meu sofá. Ele tinha um cobertor de lã com desenhos de inspiração Navajo – exemplo de uma tendência em San Francisco que um amigo meu chama de “Gente Branca Selvagem”. Quando me mudei para lá, o recibo do cobertor estava no console sobre a lareira. Tinha custado 228 dólares. Na lareira havia um fogão a gás, de ferro fundido. Eu já havia tentado mexer nos botões e no gás, mas não conseguia descobrir como acendê-lo. À noite a sala tinha a temperatura e a palidez de um cadáver. Não havia televisão.



Voltei para o meu celular e abri o OkCupid, um serviço grátis de namoro online. Atualizei o serviço OkCupid Locals, que informa se há outras pessoas nas proximidades que também estão sentadas sozinhas em bares. Um convite para alguém no OkCupid Locals tem que começar com a palavra “Vamos”:

Vamos fumar um baseado e bater papo 🙂 .

Vamos fazer um brunch, almoçar ou tomar uma cerveja e curtir o sábado.

Vamos beber um drinque depois de assistir Koyaanisqatsi.

Vamos nos encontrar e fazer cócegas.

Vamos tomar um chá com biscoitinhos.

Vamos ficar amigos e explorar algum lugar.

“Vamos agora, eu e você” – é algo que sempre me vem à mente, mas eu nunca mandei nenhum convite no bate-papo do OkCupid, apenas respondo. Naquela noite fiquei percorrendo as mensagens na tela até que encontrei um cara bonitão com um convite do bem: “Vamos tomar um drinque.” Li seu perfil. Era brasileiro. Eu falo português. Ele toca bateria. “As tatuagens são uma parte importante da vida dos meus amigos e da minha família”, escreveu ele. Cada época tem seus ideais utópicos: o nosso é a possibilidade de tornar nossas vidas mais suportáveis por meio da tecnologia.

 

O homem que geralmente é considerado o criador dos sites de relacionamento, tais como os conhecemos hoje, é um nativo do estado americano de Illinois chamado Gary Kremen; mas Kremen já tinha saído completamente do negócio da paquera online em 1997, justamente quando as pessoas estavam entrando em massa na internet. Hoje ele dirige uma empresa de financiamento de energia solar, tem um cargo público em Los Altos Hills, na Califórnia, e é mais conhecido por sua longa batalha judicial pela propriedade do site de pornografia Sex.com do que por ter inventado o namoro pela internet. Tal como muitos empreendedores visionários, Kremen não é muito bom administrador.

Eu o conheci, em janeiro passado, em um congresso da indústria do namoro online, em Miami. Em uma sala repleta de casamenteiros profissionais, Kremen contou como surgiu a ideia de armar encontros pela internet. Em 1992, com 29 anos, ele trabalhava na área de computação e era um dos muitos formandos da Escola de Administração de Stanford que tinha uma empresa de software na área da baía de San Francisco. Certo dia, recebeu um e-mail de rotina com um pedido de compra. Mas não era rotina: o e-mail vinha de uma mulher. Era raríssimo na época receber e-mails de mulheres nesse ramo de trabalho. Kremen olhou bem para o texto e mostrou para os colegas. Começou a imaginar a mulher por trás do e-mail. “Será que ela gostaria de namorar comigo?” Então teve outra ideia: e se ele tivesse um banco de dados de todas as mulheres solteiras do mundo? Se conseguisse criar esse banco de dados, e cobrar uma taxa para acessá-lo, certamente seria um negócio lucrativo.

Isso ainda não era viável em 1992, pois os modems transmitiam as informações muito lentamente. Além disso, havia muito poucas mulheres conectadas. Como de início a internet predominava nos setores que historicamente excluíam as mulheres – Forças Armadas, finanças, matemática, engenharia –, não havia muitas delas online. Em 1996, a provedora America Online estimou que 79% dos seus 5 milhões de usuários eram homens. No entanto, nas áreas ligadas à administração das empresas um número crescente de mulheres tinha e-mail.

Kremen começou pelo e-mail. Abandonou o emprego, contratou alguns programadores, pagos com seu cartão de crédito, e criou um serviço de namoro baseado no e-mail. O assinante recebia um endereço de e-mail anônimo, a partir do qual podia enviar seu perfil e uma fotografia. As fotos chegavam impressas, e Kremen e seus funcionários as escaneavam manualmente. As ​​pessoas solteiras interessadas que ainda não tinham e-mail também podiam participar, por fax. Em 1994 os modems já estavam mais rápidos, e Kremen decidiu criar uma empresa online. Ele e quatro sócios fundaram a Electric Classifieds, cuja ideia básica era recriar na internet os classificados dos jornais, começando pelos anúncios pessoais. Os cinco alugaram um escritório em um subsolo em San Francisco e registraram o domínio Match.com.

“ROMANCE – AMOR – SEXO – CASAMENTO E NAMORO”, dizia o título do primeiro plano de negócios que a Electric Classifieds apresentou a possíveis investidores. “As empresas americanas já compreenderam, há muito tempo, que as pessoas procuram ansiosamente serviços dignos e eficazes que atendam a essas necessidades vitais do ser humano.” Kremen acabou eliminando “sexo” da lista de necessidades. Os assinantes preenchiam um questionário indicando que tipo de relação desejavam – “Casamento, namoro, alguém para jogar golfe ou um companheiro de viagem”. Também postavam fotos: “O cliente pode aparecer em várias atividades e com diversos tipos de roupas, para dar uma ideia mais concreta de sua aparência e de sua personalidade.”

O plano de negócios citava uma previsão de que, em 2000, 50% da população adulta do país estaria solteira (uma pesquisa de 2008 revelou que 48% dos adultos americanos estavam solteiros, em comparação com 28% em 1960). Na época as pessoas solteiras, em especial as de mais de 30 anos, ainda eram vistas como um grupo estigmatizado, ao qual pouca gente queria se associar. Mas a idade em que os americanos se casam estava aumentando, e a taxa de divórcio era alta. Uma força de trabalho mais flexível levava as pessoas solteiras a viver em cidades que não conheciam, e a camaradagem de outrora, quando um pai podia apresentar um jovem colega de escritório para sua filha, tinha ficado para trás. Desde que Kremen fundou sua empresa, pouca coisa mudou no setor. Os sites de namoro proliferaram, inclusive atendendo a públicos específicos; as novas tecnologias abriram caminho para novas maneiras de conhecer pessoas; e novos recursos, com novas gracinhas, chegam ao mercado todos os dias. Mas, como eu já sabia por experiência própria, as características básicas da paquera online continuam iguais.

Ao mesmo tempo, parece que as grandes cidades estão encolhendo. Em seu ensaio sobre a decisão de não morar mais em Nova York, a escritora Joan Didion diz a um amigo que vai levá-lo a uma festa em que ele poderá conhecer algumas “caras novas” e ele zomba dela. Didion comenta: “Parece que a última vez que ele foi a uma festa em que lhe prometeram ‘caras novas’ havia quinze pessoas na sala. Já tinha dormido com cinco das mulheres e devia dinheiro para todos os homens, exceto dois.” Ela não conta o fim da história, mas sempre assumi que o amigo acabou aceitando o convite mesmo assim.

Entrei no OkCupid aos 30 anos, no final de novembro de 2011, com o pseudônimo de viewfromspace (“vistadoespaço”). Quando chegou a hora de escrever “quem sou” no meu perfil, contei o caso de Joan Didion e acrescentei: “Mas agora podemos conhecer gente pela internet: caras novas!” Depois achei que a história da Didion dava uma impressão desagradável, e a substituí por uma afirmação mais otimista: disse que os encontros pela internet recuperavam as possibilidades da vida urbana, que havia se confinado entre o trabalho, o metrô e o apartamento. Mas achei que isso parecia deprimente. Finalmente, escrevi: “Gosto de assistir a documentários sobre a natureza e de comer doces.” Daí em diante passei a receber uma enxurrada de sugestões de vídeos do YouTube sobre espécies ameaçadas e dicas para fazer panetone de chocolate.

 
O OkCupid foi fundado em 2004 por quatro alunos de matemática de Harvard, todos especialistas em dar de graça coisas que as pessoas estavam acostumadas a pagar para obter (músicas, apostilas). Em 2011, eles venderam o site por 50 milhões de dólares para a IAC, companhia que agora é dona da Match. Tal como a Match, o OkCupid pede ao usuário que preencha um questionário. O serviço então calcula a porcentagem de afinidade [match] da pessoa em relação a outros usuários, computando três indicadores: a resposta da pessoa a uma pergunta, como ela gostaria que a outra pessoa respondesse à mesma pergunta, e a importância que ela atribui à pergunta.

Essas perguntas variam desde “Você acha que fumar é repugnante?” até “Com que frequência você se masturba?”. Muitas perguntas são destinadas especificamente a medir o interesse da pessoa pelo sexo casual: “Deixando de lado quaisquer planos para o futuro, o que é mais interessante para você neste momento: o sexo ou o verdadeiro amor?” “Você dormiria com alguém no primeiro encontro?” “Digamos que você começou a sair com alguém de quem está realmente gostando. No que depender de você, quanto tempo vai demorar até dormir com essa pessoa?” Concluí que esses algoritmos me colocavam na mesma área – ou seja, classe social e nível educacional – das pessoas com quem eu saía; fora isso, ajudavam muito pouco a prever de quem eu poderia gostar. Um fato interessante, tanto na paquera online quanto na vida real, é que descobri um talento inexplicável da minha parte para atrair vegetarianos – e olha que eu não sou vegetariana.

Devo notar que respondi negativamente a todas as perguntas sobre meu interesse pelo sexo casual, o que é bem comum nas mulheres. Quanto mais um site de encontros apresenta os símbolos tradicionais do desejo masculino – fotos de mulheres de calcinhas, sugestões claras sobre sexo –, menor é a quantidade de mulheres inscritas. Com uma relação de 51 homens para 49 mulheres, o OkCupid apresenta um certo equilíbrio, algo que muitos sites invejariam. Não que as mulheres sejam avessas à possibilidade de um encontro casual (eu ficaria muito feliz se a pessoa certa aparecesse), mas elas precisam de algum álibi antes de sair à procura de um parceiro. Kremen também tinha observado isso, e deu ao Match uma aparência neutra e até meio insossa, com um logotipo em forma de coração.

Eu queria um namorado. Também estava obcecada por um certo cara e queria parar de pensar nele. Nesses sites as pessoas fazem listas dos seus filmes favoritos, e ficam torcendo para que algo de bom aconteça; mas debaixo dessa animação algo borbulha em fogo brando – a escuridão. Há uma enorme quantidade de arrependimentos e remorsos espreitando por trás de todos os perfis, até os mais bem ajustados. Eu lia romances do século XIX para lembrar que manter um estado de espírito equilibrado e solar logo após um desgosto amoroso nem sempre é possível. Por outro lado, os sites de relacionamento são os únicos lugares em que já estive onde não há ambiguidade nas intenções. Há, isso sim, uma gradação na sutileza: desde o básico “Você é bonitinha” até coisas que te fazem sair correndo, como “Oi, você gostaria de vir aqui em casa, fumar um baseado e me deixar tirar umas fotos de você nua na minha sala?”.

 

maior site gratuito de namoro nos Estados Unidos é outro serviço baseado em algoritmos, o Plenty of Fish, nome que brinca com o ditado “o mar está para peixe”. Mas, em Nova York, todo mundo que eu conheço usa o OkCupid, então foi lá que me inscrevi. Também me inscrevi no Match, mas o OkCupid acabou sendo meu favorito, sobretudo porque lá eu recebia uma atenção ostensiva dos homens. Já no Match, aqueles banqueiros de queixo quadrado, com fotos fazendo mergulho submarino em Bali e esquiando em Aspen, me davam tão pouca atenção que eu acabava com pena de mim mesma. Meu ponto mais baixo no Match foi quando mandei um recadinho digital (com uma carinha dando uma piscadela) a um homem cujo perfil dizia “tenho covinha no queixo” e incluía fotos dele jogando rúgbi sem camisa em um navio em alto-mar, segurando um peixe enorme. Ele nem me respondeu.

Fui a uma palestra do escritor Ned Beauman, que comparou a experiência no OkCupid com as ideias do astrônomo Carl Sagan, quando falava dos limites da nossa capacidade de até mesmo imaginar um tipo de vida extraterrestre não baseada em carbono. Isso sem falar que nem iríamos perceber se esse tipo de vida estivesse nos enviando sinais.  Você sai jogando a rede no OkCupid para tentar pegar aquilo que você acha que quer – mas e se não formos capazes nem sequer de enxergar os sinais que estão nos enviando, e muito menos de interpretá-los?

O OkCupid dava uma impressão muito forte de ser aquele banco de dados com que Kremen havia sonhado: escolha ilimitada. Mas isso tem suas desvantagens. Como escreve a socióloga Eva Illouz em O Amor nos Tempos do Capitalismo, “a experiência do amor romântico se relaciona a uma economia da escassez, o que por sua vez permite a novidade e a emoção”. Em contraste, “o espírito que preside a internet é a economia da abundância, na qual a pessoa precisa escolher e maximizar suas opções, e é obrigada a usar técnicas de eficiência e custo-benefício”. No começo foi até divertido, mas, depois de alguns meses, os problemas começaram a aparecer. Acabei achando bem verdadeiro o que Beauman diz sobre a nossa incapacidade de avaliar o que poderia ser atraente. Considere o seguinte.

Fui a um encontro com um compositor clássico que me convidou para um concerto de John Cage. Depois do concerto, fomos ver o busto de Béla Bartók na rua 57. Não conseguimos encontrá-lo, mas ele me contou que Bartók morreu ali, de leucemia. Eu queria gostar desse homem, que era excelente por escrito; só que não gostei. Em todo caso, dei-lhe outra chance. Saímos uma segunda vez, para comer macarrão chinês no East Village. Eu encerrei a noite cedo. Depois disso, ele me convidou para um concerto na Universidade Columbia seguido de um jantar na casa dele. Eu disse que sim, mas cancelei no último minuto alegando algum problema de saúde, acrescentando que achava que nosso namoro já tinha se esgotado. Eu de fato estava adoentada, mas ele ficou com raiva de mim. Meu cancelamento, escreveu, tinha lhe custado “uma tonelada de tempo fazendo compras, limpando, cozinhando – tempo de que eu realmente não dispunha, já para começar, tão poucos dias antes do prazo para a entrega de um trabalho etc…”, com um texto cheio de elipses, à la Thomas Pynchon.

Pedi desculpas, e parei de responder. Nos meses seguintes ele continuou a escrever longos e-mails com as novidades da vida dele, e eu continuei não respondendo, até que tive a sensação de que ele estava atirando toda a sua tristeza num buraco negro, e ali eu a absorvia na minha própria tristeza.

Em outra ocasião, saí com um cara que fazia móveis artesanais. Marcamos encontro num café. Era uma tarde ensolarada de final de fevereiro, mas uma estranha nevasca começou a cair logo que chegamos, com os flocos brilhando ao sol. O café era no subsolo, sentamos numa mesa ao lado da janela, bem embaixo de dois chihuahuas, amarrados a um banco na calçada. Eles tremiam incontrolavelmente, apesar dos casaquinhos justos. Olhavam para nós pela janela, roendo a guia da coleira. O marceneiro pediu um café para mim e tomou chá numa caneca de cerveja.

Nossa conversa foi tensa. Ele parecia entediado. Usava bigode, e seus olhos azuis olhavam aqui e ali, sem sossego. Estudara em uma escola de design gráfico no Arizona. Mostrou fotos de vários móveis que havia feito. Tinha as mãos calejadas e era alto. Atraente, apresentava um ar meio soturno, e eu me perguntava por quê: seria por minha causa ou era a atitude geral dele contra o mundo? Descobrimos que nós dois nascemos no Allentown Hospital, em Allentown, na Pensilvânia, só que sou sete meses mais velha. Se vivêssemos em outra época, quando o casamento era ditado pela família, pela religião e pela comunidade, nós dois já poderíamos ter vários filhos nesta altura. Em vez disso, meus pais se mudaram para outra parte do país quando eu tinha 3 anos, e ele ficou em Allentown até ficar adulto. Agora nós dois morávamos no triste bairro de Bedford-Stuyvesant, no Brooklyn, e tínhamos 30 anos.

Ele se julgava um cara fora do padrão, e gostava muito de ser artesão, só para não ter que trabalhar num escritório. Depois de tomar seu chá, ele foi ao banheiro, voltou, e sem dizer palavra vestiu o casaco. Levantei e fiz o mesmo. Subimos a escada e saímos na calçada, no vento frio de fevereiro. Tchau, tchau.

Também tive um encontro com um sujeito que era cabeleireiro e que me atraiu pelo seu charme de cavalheiro do Texas: “Srta. Vista do Espaço, aqui vão meus cumprimentos e meu respeito”, escreveu ele. Chegou atrasado ao nosso encontro em Alphabet City, em Manhattan, depois de atender a algumas clientes de última hora que queriam fazer o cabelo para ir aos seus próprios encontros. Nos dois lados do pescoço tinha tatuagens de duas cimitarras cruzadas. Perguntei o que elas significavam. Ele disse que não significavam nada. Eram erros. Arregaçou as mangas e revelou mais erros. Quando adolescente, em Dallas, ele deixava seus amigos usá-lo como tela para treinamento. Chamar as tatuagens de erros parecia ser diferente de lamentá-las. Ele não se arrependia. Disse que era apenas a sua pessoa de 16 anos lhe mostrando a língua e o dedo médio. “Você acha que você mudou?” era o que a sua versão de 16 anos lhe dizia com as tatuagens. “Pois foda-se, eu continuo aqui!”

O OkCupid teve outro efeito indesejado: ao publicar meu perfil, embora com pseudônimo, eu tinha pregado em mim algo equivalente a uma placa de “à venda”. Os que me conheciam na vida real e viam minha foto no site muitas vezes entravam em contato comigo: “Vi você no OkCupid e pensei em te escrever.” Fui a um restaurante colombiano em Greenpoint, no Brooklyn, com um desses conhecidos. Quando cheguei, ele estava lendo documentos que a Agência de Segurança Nacional havia liberado recentemente, relativos a John Nash, o gênio esquizofrênico retratado em Uma Mente Brilhante. Pedimos tortilhas e cervejas.

Gostei desse homem. Ele amava seu emprego, em uma galeria de arte de elite, e morava em um apartamento espaçoso, de pé-direito alto, com vista para um parque cheio de árvores e bancos serpenteantes. Conversamos sobre bandas de black metal de Seattle e sobre a ideia de resistir ao capitalismo recorrendo a uma música medonha e comida orgânica. Depois do jantar fomos caminhando do Cafecito Bogotá até seu apartamento, impecável, onde ele colocou música ambiente e eu fiz carinho nos seus dois gatos. Decidimos fazer uma experiência com o OkCupid Locals. Ele postou uma mensagem: “Vamos lkjdlfjlsjdfijsflsjlj.” Sentei ao seu lado no sofá. Chequei no meu celular para ver se a mensagem aparecia – e apareceu. Olhamos um para o outro. Ele me acompanhou até o metrô.

 

Mais ou menos nessa época conheci alguém no mundo real. Não deu certo, mas me fez lembrar, de modo muito claro, qual é a sensação de querer dormir com alguém sem nem sequer saber quais são seus livros favoritos. O tédio voltou, e meu ex-namorado retomou seu lugar nos corredores da memória. Mudei para a Costa Oeste e as paredes do apartamento de San Francisco, quase vazio, pairavam, ameaçadoras, sobre mim.

Como a maioria das pessoas, entrei nos sites de relacionamento devido à solidão. E logo descobri, como a maioria descobre, que a única coisa que isso traz é acelerar o ritmo e aumentar o número de encontros com outras pessoas solteiras, mas que cada encontro continua sendo um encontro casual. O namoro pela internet destruiu minha noção de mim mesma como alguém que eu conheço e compreendo, e que consigo definir em palavras. Teve um efeito igualmente nocivo sobre a minha ideia de que as outras pessoas conseguem conhecer a si mesmas e se descrever com exatidão. Isso me deixou irritada com tudo que me lembrasse psicologia. Comecei a responder apenas a pessoas com um perfil muito curto, e depois passei a renunciar por completo aos perfis no OkCupid Locals, usando-os apenas para checar se a pessoa tinha um domínio razoável do idioma inglês e não espumava pela boca professando opiniões políticas de direita.

O namoro pela internet me alertou para o fato de que as nossas ideias sobre o comportamento humano e as realizações humanas, expressas nessas centenas de perfis online, são todas mais ou menos iguais, e portanto são chatas e não são uma boa maneira de atrair outras pessoas. Outra coisa que aprendi: o corpo não é uma entidade secundária. A mente contém muito poucas verdades que o corpo é capaz de esconder. Quando dois corpos se encontram, quase tudo que é importante se revela rapidamente. E até que os corpos sejam apresentados um ao outro, a sedução é apenas provisória.

Nas profundezas da solidão, porém, os encontros pela internet me proporcionaram uma série de oportunidades de ir a um bar e tomar um drinque com algum homem desconhecido, noites que de outra forma eu passaria infeliz e sozinha.

Conheci todo tipo de gente: um técnico em raio X, um empresário de tecnologia verde, um programador de computador – este um polonês com quem curti uma espécie de afeto casto durante várias semanas. Nós dois éramos tímidos, e meus sentimentos só mornos (como também os dele, pelo que percebi); mas fomos à praia, ele me contou tudo sobre a colheita de cogumelos na Polônia, pediu seus burritos vegetarianos em espanhol, e descobrimos que tínhamos muita coisa em comum em termos de coisas de que não gostávamos.

Quanto àquela noite em San Francisco, respondi a um bilhetinho online e fui tomar um drinque com o rapaz desconhecido. Demos uns beijos, ele me mostrou sua coleção de pés de maconha especialíssimos, e conversamos sobre o Brasil. Depois fui para casa e nunca mais o vi.

Emily Witt

Emily Witt, escritora, é colaboradora das revistas The New York Observer, Marie Clairee do The New York Times.

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