esquina

Rota fantástica

Um caminhoneiro narra o sobrenatural das estradas brasileiras

Manuela Ferraro
ILUSTRAÇÃO: ANDRÉS SANDOVAL_2021

No fim dos anos 1980, Márcio Couxa de Ferro avistou de sua caminhonete Ford 350 a carcaça de um ônibus acidentado na perigosa estrada que liga Cascavel a Londrina, no Paraná. O ônibus levava brasileiros que tinham ido fazer compras no Paraguai. Muitos passageiros morreram. Ferro era um jovem caminhoneiro e estava transportando uma carga de objetos de decoração.

Na volta, quando uma chuva fina começou a cair, ele notou na estrada, ao longe, um vulto se aproximando de sua caminhonete. Seu coração acelerou, suas mãos enrijeceram. “Mas que caralho que é esse vulto branco?”, perguntou-se. Uma mulher de véu e grinalda, sorrindo, como se fosse um pássaro agourento, acompanhava seu veículo pela rodovia. Em pânico, ele acelerou a caminhonete, sem se preocupar com o limite de velocidade.

Finalmente, viu um posto e se dirigiu para lá. Ao saltar do veículo, o frentista, observando a palidez do motorista e seu olhar estatelado, adivinhou logo o que se passara. “Pelo jeito, você viu a noiva, não foi?” O vulto que o perseguia era a assombração de uma mulher que morrera no acidente de ônibus vindo do Paraguai e percorria a região em busca de seu noivo, ou de um noivo qualquer, entre os rapazes vivos que passavam por ali.

Essa foi uma das histórias contadas por Ferro no podcast Estrada Sobrenatural, lançado em junho do ano passado. Caminhoneiro há 32 anos, ele narra no programa causos extraordinários ocorridos nas estradas brasileiras, vividos por ele ou por seus colegas de profissão. “Na estrada há muito mais do que quilômetros para percorrer. Há também muitas histórias a serem contadas. Vem comigo nessa carona. Eu vou te contando no caminho”, diz ele na abertura de um dos episódios.

As histórias provêm de várias regiões do Brasil. Uma delas, de Fortaleza, conta como dois caminhoneiros que viajavam juntos ouviram um aviso no rádio para tomarem cuidado, pois havia uma aglomeração na estrada. O motorista quase bateu o caminhão ao se aproximar da multidão – que não passava de um bando de fantasmas andarilhos. Outro episódio, O Causo do Seu Libório, ambientado numa fazenda de café no interior de São Paulo, conta sobre uma mãe e seu filho, trabalhadores da roça que carregavam uma terrível maldição.

 

Ferro tem 51 anos e nasceu em Cambé, município na Região Metropolitana de Londrina, no Paraná. É descendente de italianos cujo sobrenome – Coccia di Ferro – foi registrado de maneira errada no escritório da imigração. Seu pai foi o primeiro da família a conseguir uma habilitação de motorista. Tornou-se caminhoneiro e transmitiu o amor pela boleia aos seis filhos. Ferro já dirigiu por todas as regiões do país, na maioria das vezes acompanhado apenas pelas ondas do rádio. “Já transportei grãos, combustível, móveis, tudo o que você pode imaginar.”

Em 2019, ele comprou pela primeira vez um celular no qual podia baixar aplicativos de música e descobriu esse novo formato de informação e entretenimento: o podcast. Ficou entusiasmado. Depois de ouvir um episódio do Hangar 18, podcast sobre ufologia, Ferro resolveu enviar um áudio contando sua própria abdução por uma nave espacial no fim da década de 1980. O áudio foi transmitido no episódio seguinte do Hangar 18, e o caminhoneiro foi convidado a participar do grupo de WhatsApp do programa, onde passou a compartilhar mais áudios sobre a vida nas estradas e seus causos inexplicáveis.

Ganhou a simpatia do grupo, que sempre pedia que ele contasse mais histórias. Animado com os áudios de Ferro, um produtor de conteúdo digital de Blumenau (SC), Celézio Cadilhac Junior, decidiu remontar um deles e acrescentar efeitos sonoros, como ruídos de estrada. Deu a gravação de presente ao caminhoneiro quando ele fez 50 anos, em março de 2020, e a divulgou no grupo de WhatsApp. A gravação chamou a atenção do Hangar 18, que convidou a dupla para novas produções. Ferro e Cadilhac Junior, porém, decidiram andar com as próprias pernas.

Para o podcast Estrada Sobrenatural, eles não fazem roteiro. Ferro conta as histórias espontaneamente, apenas trocando as gírias dos caminhoneiros por palavras mais conhecidas. Os áudios são gravados na cabine do seu caminhão, um Volvo FH380, ano 2005. Depois são transmitidos a Cadilhac Junior, que faz a montagem e acrescenta os efeitos sonoros. Por causa da pandemia e das constantes viagens de Ferro, os dois amigos nunca se encontraram.

 

Os primeiros onze episódios do podcast conseguiram chegar à marca de 100 mil audições, no total. Em junho passado, o cantor sertanejo César Menotti, que faz dupla com Fabiano, comentou em sua página no Twitter, com mais de 1 milhão de seguidores: “Vocês conhecem o Estrada Sobrenatural? É muito bom. Tô ouvindo todos os dias.” No mês passado, o programa chegou às paradas de podcasts brasileiros.

Cadilhac Junior atribui o sucesso à maneira simples e direta com que Ferro se comunica. “Os ouvintes sempre falam que o Márcio lembra o pai deles, ou o avô, ou um tio que contava histórias assim. Acredito que boa parte deles cria uma relação afetiva com o Márcio”, afirma.

Ferro diz que não pretende convencer ninguém sobre a veracidade dos causos. Nem é o caso. O que chama a atenção em seu podcast é a forma como revive uma tradição popular: a dos contadores de história. No Brasil, quando não havia rádio nem tevê, os relatos mitológicos e extraordinários enchiam de mistério as noites vazias da zona rural. “Na verdade, quero contar bons causos e gerar entretenimento para os ouvintes”, diz Ferro. “O mundo dos caminhoneiros é muito rico em histórias. Quando eles se reúnem, sempre comentam sobre o caminhão que têm, a entrega que fizeram… A conversa flui e vai parar num causo, numa assombração.”

O podcast Estrada Sobrenatural estreou há pouco sua terceira temporada, mas a dupla já reuniu histórias para contar até a sexta temporada. Mesmo que o projeto ganhe maior proporção, Ferro não pensa em parar de dirigir. “É minha vida, minha paixão, desde menino, né?”, diz. Quando a pandemia arrefecer, seu primeiro objetivo é guiar o caminhão até Blumenau para conhecer Cadilhac Junior pessoalmente. E deve colher mais alguns bons causos no caminho.

Manuela Ferraro

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