esquina

Ruivos, uni-vos

Vítimas de bullying, “cabeças de cenoura” dão a volta por cima

Marcela Donini 
ILUSTRAÇÃO: ANDRÉS SANDOVAL

Duas senhoras morenas flanavam nas imediações da Usina do Gasômetro, em Porto Alegre, numa tarde ensolarada de sábado, quando se depararam com a cena inusitada: um grupo de ruivos sob a sombra de uma árvore. Se já não é usual encontrar um único ruivo pelas ruas da cidade, mais de vinte deles juntos é uma raridade. Intrigadas, perguntaram com ironia se aquilo era alguma manifestação de classe. Obtiveram como resposta que, sim, estava em curso naquele lugar o 2º Encontro de Ruivos da capital gaúcha.

Razões para a reunião não faltavam. Argentino radicado há mais de trinta anos em Porto Alegre, o engenheiro elétrico Eduardo Eifer tomou a palavra: “Queremos vagas para carros mais próximas às entradas dos shoppings!” Demanda justa para quem corre mais riscos de desenvolver câncer de pele devido à baixa produção de melanina. “É sério”, ele precisou acrescentar. “Temos que evitar a exposição ao sol. Na Austrália, parece que existe essa lei”, disse, com um sorriso mal disfarçado entre o bigode laranja e a barba branca.

O encontro de Porto Alegre podia chamar a atenção dos incautos, mas não era exatamente uma novidade. Desde 2005, a cidade de Breda, na Holanda, reúne milhares de ruivos todos os anos, no primeiro fim de semana de setembro, batizado de Roodharigendag (Dia dos Ruivos).

Mesmo no Brasil uma peça de teatro chamada Os Ruivos estreou em 2008, no Rio de Janeiro, com a expectativa de que teria vida curta. Não foi o que ocorreu. Depois de percorrer várias cidades do país, a dramatização bem-humorada dos constrangimentos de que os ruivos são alvos, principalmente quando crianças, chegou à sua apresentação de número 200 no Teatro Amazonas, em Manaus, em novembro passado.

Os ruivos de Porto Alegre não estavam, pois, sozinhos. Faziam parte de uma pequena legião, cada vez mais organizada. Alguns se divertiam com o livro Redheads, do fotógrafo Uwe Dietz, uma coletânea de retratos repletos de peles branquinhas, olhos claros, rostos sardentos e cabeleiras que variam entre alaranjadas e avermelhadas. Havia certa excitação dos participantes diante da obra exibida por Eduardo Eifer: “Vejo tão poucos ruivos, fico encantada quando há tantos juntos assim”, explicou a estudante Paula Berté, usando brincos de pena rosa, bem chamativos, que combinavam com a cor do seu cabelo.

Os ruivos são, de fato, uma minoria – estima-se que menos de 2% da população mundial possua no cromossomo 16 uma versão recessiva do gene que produz o receptor de melanocortina 1. Conhecido pela sigla MC1R, esse receptor é um dos principais responsáveis pela pigmentação da pele e dos cabelos.

Num mundo dominado por opressivas cabeleiras pretas, castanhas e loiras, em quase todo lugar não há infância tranquila para quem nasce com o cabelo cor de fogo. Tocha humana, água de salsicha, cabeça de fósforo, crush, lagosta, ferrugem, fofão, foguinho – eis alguns apelidos de que costumam ser vítimas quando crianças. “Na época isso nem se chamava bullying, mas era exatamente o que faziam conosco, os cavalos de fogo, os cabeças de cenoura”, relembrou a enfermeira Liliana Dimer, que compareceu ao encontro ao lado da irmã gêmea, Ediana. Um dos rapazes presentes jurou ter catalogado mais de sessenta alcunhas recebidas na infância – mas tratou de esquecê-las após a puberdade.

Na Idade Média, crianças ruivas eram vistas como fruto do sexo proibido e tinham parte com o diabo. A Inquisição perseguiu as mulheres ruivas, condenando-as, quando pôde, à fogueira. A julgar pelo prefácio do livro de Uwe Dietz que os gaúchos consumiam, seria tudo culpa de Judas Iscariotes, frequentemente retratado como ruivo. Contraexemplos não faltam: Cristóvão Colombo, Galileu Galilei, Van Gogh e muitos outros.

Em todo caso, não é preciso voltar tanto no tempo para entender o estigma. A série de filmes O Pestinha (Problem Child, no original), protagonizada por um garoto ruivo, tratou de carimbar esse apelido em toda uma geração de crianças sardentas. O desenho animado South Park não fez muito pela categoria ao exibir, em 2005, um episódio no qual um personagem afirmou que os ruivos não tinham alma e eram como vampiros escondendo-se do sol.

Passada a pré-adolescência, porém, o vento costuma virar para os pimentinhas. O que era uma tormenta na escola pode-se tornar um trunfo na vida amorosa. O grande número de blogs dedicados a ruivos de ambos os sexos atesta que o fetiche pelos cabelos avermelhados está em alta. Aos 32 anos, o empresário José Roberto de Oliveira assegura que não tem do que reclamar. “Hoje o diferente é interessante”, confirmou Liliana Dimer, a quem não têm faltado emoções, a julgar por sua expressão.

A profusão de falsas ruivas e dos cabelos tingidos em tons de acaju é um termômetro do sex appeal das donzelas alaranjadas. “Nunca vi besteira maior”, desdenhou o ambulante Adolfo Teodor Tiefel, de 78 anos. “Como se ser ruivo fosse alguma vantagem”, completou, atrás de sua carrocinha de churrasco. A quem duvidou de sua condição, fez questão de vasculhar o porta-malas de seu Chevette 93 em busca de uma foto antiga que comprovasse que já foram ruivos os cabelos brancos escondidos pelo boné surrado. A obsessão lhe custou cinco espetinhos queimados.

A primeira edição do encontro dos ruivos em Porto Alegre juntou dez adultos e duas crianças. Na segunda, o público mais que dobrou, mas ainda assim não passou de trinta pessoas – isso com a adesão de vermelhos de Santa Catarina e São Paulo.

O administrador de empresas Guilherme Brunstein, de 26 anos, viajou da capital paulista para o encontro. Foi conhecer pessoalmente os amigos com quem trocava ideias pelo Facebook, no grupo que reúne mais de mil ruivos naturais – a adesão é condicionada à comprovação da autenticidade do candidato, mediante apresentação de uma foto de infância. Com mais de dez encontros no currículo, Brunstein assevera que, com o tempo, o grupo acaba se tornando uma turma como outra qualquer. Mas é só amizade, disse. Até porque não tem lastro na realidade a fama de voluptuosidade das mulheres ruivas, ele admitiu, com a autoridade de quem já namorou uma: “Não tem nada de diferente, não.”

Marcela Donini 

Marcela Donini é jornalista gaúcha.

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