concurso literário

Saia dessa, José!

O vencedor e os finalistas do mês

SAIA DESSA, JOSÉ!
DÉA ARAÚJO

N

unca se viu pela vizinhança um casal tão inseparável quanto José Simeão e Magdalena Maria. Viviam se esfregando, bitocas pra lá, bitocas pra cá, meu bem, meu amor, meu Zezinho, minha Maguidalena – a mulher fazia questão de ouvir o g nada mudo de seu nome. De outro modo fosse, nem respondia.

Viviam em uma casa branca de janelas azuis, rente à calçada, sem cerca e sem jardim. Três quartos: um para o casal, do outro fizeram um escritório e o terceiro era para hóspedes. Tinha um primo de José, o Mandinho, que de mês em mês passava por ali, a trabalho, e uns cinco dias ficava. Seu ofício era um tanto misterioso. Executava suas tarefas no horário noturno. Quase não se encontrava com o primo. Uma meia horinha por dia, e olhe lá. Enquanto um chegava, o outro já se preparava para zarpar. Resolvia seus negócios e voltava para sua terra. Tinha mulher, filhos, não podia se ausentar muito. Precisava marcar seu território e dar assistência à patroa.



O quarto do casal era uma festa. Todos os dias. Muito amor, sussurros, gemidos, gritos, passava-se de um tudo ali dentro. Entre quatro paredes, coisas insanas podem acontecer. O aposento só ficava calmo nos dias em que o primo estava na casa. Parecia que Maguidalena não gostava de visitas. Ficava murcha à noite, uma tal dor de cabeça a consumia, arredava José para o lado da cama, nem um afaguinho ele ganhava.

Mandinho ia embora e tudo voltava ao normal. A festa na alcova iluminava as noites, produzia estrelas cintilantes que brilhavam na escuridão. Durante o dia José trabalhava e Maguidalena cuidava da casa. Era professora, mas não queria saber de crianças. Nem filhos estavam nos seus planos. Às vezes ela ia à cidade fazer compras. Trazia perfumes, lingeries, maquiagens, tudo para se enfeitar para a festa noturna. Costumava usar os acessórios durante o dia também. Alguma ocasião especial talvez. Às dezoito horas o bonde vinha e deixava Maguidalena na porta. Toc, toc, toc… Tamancava pela casa à procura do seu José, beijocas pra cá, beijocas pra lá, não se desgrudavam mais.

Da última vez em que o primo veio, Maguidalena não voltou das compras. Acho que nem o bonde passou. Um bilhete, com a letra bordada de professora, pousado sobre a mesa de jantar: “Meu querido e amado José, parti com Mandinho. Não podemos mais esconder nosso amor. Vou e não mais retornarei. Cuide de Severina. Da sempre sua, Magdalena.” – o g até emudeceu. A única lembrança que restou do casamento foi Severina, a periquita de estimação da mulher que morava numa gaiola dourada de pés torneados num canto da sala. O primeiro ímpeto de José foi estrangular a bichinha. Vingança maligna. Mas o marido não era dado a vinganças. Dava muito trabalho. Preferia abstrair.

A noite custou a passar. Saudade dos beijos “calientes”, das pernas se enroscando, dos corpos se penetrando… A festa acabou, a luz apagou, o bonde não veio. E agora, José? O dia amanheceu e encontrou o pobre homem ainda a pensar. Desistir da vida não era opção. Nenhum escape a não ser seguir em frente.

José olhou para Severina e decidiu que ia ensiná-la a falar. Árdua tarefa. A bichinha nem piava! E começou a passar horas a repetir para a avezinha: “Magdalena morreu; antes ela do que eu” – resolveu emudecer definitivamente o g. Será que havia endoidecido? Poderia o chifre ter penetrado tão profundamente a ponto de lhe perfurar os miolos?  “Magdalena morreu, antes ela do que eu.” Severina, tentando entender, virava a cabecinha de um lado para o outro e continuava muda – mudinha – acolhida na sua insignificância de periquita abandonada. José não desistia: “Magdalena morreu, antes ela do que eu.” Coitado! Se fosse um papagaio, calopsita ou algo semelhante… Naquele dia José nem trabalhou, absorto na sua tarefa hercúlea. Mas até o mais convicto dos teimosos desiste. E José emudeceu também. Deitou-se e dormiu o sono dos justos.

Na manhã seguinte vestiu seu terno de linho branco, gravata azul-petróleo e chapéu. Guarda-chuva em punho. Pronto para a labuta.  Saiu empinado, empertigado como nos tempos de Maguidalena. Fechou a porta e seguiu rumo à calçada para esperar o bonde. Lá dentro, Severina, com um sorriso no bico, trinou em alto e bom som: Maguidalena não morreu; ela agora sou eu!!!

Saia dessa, José!

*

CONCURSO LITERÁRIO

É com grande alegria que temos visto a quantidade de inscritos crescer a cada mês. Participe você também do nosso estrondoso desafio Encaixe a frase.

Funciona assim: a cada mês, propomos uma nova frase e um ingrediente maluco que devem ser encaixados num texto de até 5 mil toques ou numa HQ de 1 página. Envie até o dia 20 de setembro para: concurso@revistapiaui.com.br

O texto vencedor será publicado na próxima edição da piauí, e o autor premiado terá os seus 15 minutos de fama.

FRASE A SER ENCAIXADA:
Imagine-se em um barco num rio com árvores de tangerina e céu de goiabada.
Elemento estranho: Tubaína
Prazo: 20 de setembro

A VENCEDORA DO MÊS: Déa Araujo ultrapassou com galhardia seus 73 concorrentes. A frase a ser encaixada no mês passado era “A festa acabou, a luz apagou, o bonde não veio. E agora, José?”, e o elemento estranho era “Periquita”.

Os demais finalistas estão abaixo.

Confira aqui as regras detalhadas do nosso paleolítico certame literário.

*

Textos finalistas:

A FANTÁSTICA LOJA DE ANIMAIS
WILLIAM GUILHERME SAMPAIO

Foi numa festa em que estavam presentes os críticos de literatura e alguns dos escritores mais importantes daquela geração – homens maduros, altos e grisalhos, acompanhados por suas distintas e jovens segundas ou terceiras esposas em vestidos chiquérrimos. O ponto alto do sarau, porém, foi ofuscado por uma presença ilustre: Drummond. Não o poeta em pessoa, mas o papagaio do congo recém-adquirido pela anfitriã. Não obstante a belíssima plumagem gris com pontas rubras, que por si só já valeria o espetáculo, a ave não fora batizada à toa com o nome de nosso poeta-mor: recitava de cor os versos de “José”, sem falhar na ordem, nem titubear entre as estrofes. Era só dar um biscoito que o bicho declamava, com voz estridente e ar sofisticado: “E agora, José? A festa acabou, a luz apagou, o bonde não veio. E agora, José?”. Não deu outra: todos saíram da festa morrendo de inveja e desejando para si um mascote com dons artísticos daquele nível.

Já no dia seguinte, a esposa do Ministro foi à tal da loja. O vendedor, muito solícito e educado, a conduziu através dos largos corredores até uma jaula com cadeias de cobre, forrada com uma cortina de veludo vermelho e adornada com arabescos folheados a ouro. Indicando com um gesto a placa de identificação do animal, o homem deixou que ela se aproximasse e lesse a inscrição: “Bourgeois, o bugio. Puxe a corda.”. A mulher obedeceu ao comando da placa; as cortinas se abriram e de algum auto falante oculto começaram a soar as primeiras notas do Bolero de Ravel; do fundo da jaula, surgiu Bourgeois. Trajando um tule branquíssimo, o primata se postou em duas patas e arqueou a coluna com os braços esticados muito acima da cabeça, saltitando de um lado a outro da gaiola, rodopiando e fazendo espacates. Por dez minutos, ela assistiu – espantada e comovida – ao balé do bugio Burgeois; ao final, aplaudiu com entusiasmo, ao que o macaco respondeu com uma respeitosa vênia e se retirou, coçando os fundilhos do tule com o indicador e cheirando em seguida. Impressionada, a mulher sondou com o vendedor o preço do animal; sempre em silêncio, o velho estendeu um pequeno bilhete com o valor escrito à mão: seis dígitos bem gordos.

Sem embaraço, ela agradeceu e pediu para ver outras opções. O homem anuiu com a cabeça e a levou ao que parecia ser a seção das aves. Pararam diante de uma gaiola de prata onde habitava uma periquita azul; a inscrição dizia “Elis”. Sob a regência do vendedor, a ave piou cada nota de “Retrato em Branco e Preto” com a mesma sofreguidão da Pimentinha. O preço da periquita era bem inferior ao do primata, porém continuava alto demais, especialmente para um repertório tão limitado (o vendedor dizia que ela estava aprendendo Fascinação, mas mesmo assim). Pelo corredor das aves, o homem ainda apresentou à cliente o estorninho Fernando (que declamava “Navegar é preciso, viver não é preciso” repetidas vezes) e o corvo Edgar (que se limitava a dizer “Nunca mais”).

A esta altura, percebendo que a mulher era menos uma cliente em potencial do que uma curiosa de bolsos vazios, o vendedor passou a lhe dispensar o tratamento “xô xereta”, mostrando apenas os animais mais baratos e economizando polidez e serventia. Rapidamente levou a mulher ao corredor dos répteis e parou diante de uma tartaruga; apontou a placa que dizia “Manuel”. Sempre fascinada, como é natural em qualquer um fora do círculo de connoisseurs, a cliente perguntou se a tartaruga declamava em performance muda o “Desencanto” do poeta.

– Naturalmente, não – respondeu o homem – Mas se a senhorita o observar bem de perto, vai notar uma inegável semelhança física com Bandeira. E o preço está, sem dúvida, mais próximo do que a senhorita procura.

Sem se deixar abalar pela alfinetada, a mulher empinou o nariz e começou a perambular a esmo pela loja; o homem se limitou a segui-la mantendo uma distância respeitosa e segura – para ambos. A moça se deixou ficar em frente a uma caixa de madeira, parcamente iluminada por uma lâmpada amarela, onde um coelho mordiscava uma folha de couve; a inscrição dizia “Paulo”, e nada mais. A cliente voltou-se e notou que o vendedor apenas sorria, irônico. Ela, então, ultrajada, agradeceu a gentileza e paciência:

– …mas não vi nada de tão impressionante e que seja do meu interesse.

O velho fez uma mesura, carregada de sarcasmo, e voltou a espanar e polir os viveiros e gaiolas.

A caminho da saída, porém, a mulher passou pelo corredor dos aquários. Estavam todos apagados e vazios, exceto pelo maior e mais vistoso deles. Com quase dois metros de diâmetro, iluminado por neons de diferentes tonalidades, adornado com toda sorte de enfeites e pedras coloridas, o aquário quase apagava seu único e solitário habitante: um lambari, como qualquer outro, cinza e sem graça. Uma inscrição luxuosa, em bronze polido, dizia “Capitão”. Sem poder resistir, a moça procurou pelo vendedor com os olhos e perguntou, levantando a voz:

– O que ele faz?

– Ele? – respondeu o vendedor, dando de ombros – Nada.

*

SEM SANGUE, SEM SUOR, SEM LÁGRIMAS
CARLOS GODOY

Tem horas que dá. Simplesmente isso. Pra mim, deu!

Cara, sério, eu fiz das tripas coração; o mano tava, sei lá, com menos alguma coisa nas intenções de voto: eu entrei na barca furada e com uns retoques bem mequetrefes, uma e outra intervençãozinha –  toda vez que ele enfiava as mãos pelos pés –, e uma… UMA IDÉIA! Não, eu não disse duas, muito menos mil… UMA idéia… nada brilhante, diga-se, e entregaram a chave da prefeitura pro animal de rabo. Custava ter enfiado uns canos na favela da Periquita e dado a droga da água e do esgoto pro pessoal de lá?   Custava? Custava, e pouco. Qualquer uma das negociatas, digo, da Economia Criativa em que ele se meteu, já dava até pra botar um puxadinho do Oceano Atlântico naqueles morros, com a garantia de mais trezentos e cinquenta mil cliquezinhos na urna eletrônica. Mas não, claro que não! Só o imbroglio com a starlet Global ficou a bagatela de uns milhões de dólares pra comprar a súbita e irrefreável paixão da moça pelo ‘setentão’ ‘quatrocentão’. E toma mais uns milhões pra consolar a esposa traída – plástica e botox made in USA, com direito a resort em Miami. Mimos.

Já viu, né? Eu tava que nem o outro escreveu (acho que o Sarney): “A festa acabou, a luz apagou, o bonde não veio. E agora, José?” O jeito foi consertar a lambança porque, como disse Monteiro Lobato no magnífico Os Sertões de Dona Benta (sem querer me gambá de minha cultura): “O brasileiro é antes de tudo um porre”, e o prefeito já tinha assumido, com a veemência do justos, que era toda minha a culpa por ele estar longe de Brasília nas prévias. Aí deu, né?

Deu, e eu mandei um ‘minha cabeça acima do pescoço, minha conta bancária acima de tudo’ e corri pra casa de meu guru espiritual que, cá entre nós, era meio que, assim, digamos, o dono daquela ideiazinha que fez o Bucéfalo ganhar.

Eu já tinha ouvido que a mansão do sujeito podia até ser vista por satélite, então fui me sentindo péssimo por tê-lo recebido, eleição passada, na maloca que era o escritório eleitoral. Mas meu mal-estar durou segundos até uma secretária, ou coisa parecida, abrir a porta e eu me lembrar de imediato do Veríssimo: veio um par de seios, e o resto foi chegar uma semana depois. Sinceramente – perdão pela singeleza do que vou dizer, pois já sacaram meu refinamento –, quando ela disse “Entre”, minha cabecinha adolescente despertou, imaginando modos de obedecê-la, enquanto seguia o Tsunami dos quadris dela, dando graças por viver numa Terra fixa e plana.

Pegamos um elevador e descemos até uma antessala, onde fui abordado por um exército de ninfas que –  em meio a um rápido baculejo – me despiram e me colocaram só com uma toalha em torno da na cintura, o que cortou meu banzo e me fez  voltar a centrar a atenção nas periquitas, quer dizer, na comunidade da Periquita.

A deusa que me havia atendido me levou, então, para uma sala enorme, com piscinas, aparelhos de ginástica, quadras e muitas garotas se divertindo e bebericando aperitivos coloridos. Meu foco foi de novo pras cucuias, ao mesmo tempo em que dizia a mim mesmo: isso só pode ser o Paraíso. Mas logo ultrapassamos o umbral de uma porta e demos num ambiente quente, todo esfumaçado, embora pudesse distinguir vários homens nus, num festival de pêlos e pelancas, me dando a certeza de estar no lugar certo.  Quando do vapor surgiu um conhecido:

–  Bem-vindo à humilde sauna!

– Preciso de você… a eleição… como eu tinha adiantado pelo celu… ei , aquele ali não é o A-an-tônio C-carlos Mag…?

– Ele mesmo

– E-e o ge-general Me-Méd…?

– Is-is-so mesmo. T-todos são meus convidados.

– M-mas aquele ali é P-Paulo Mal…

– V-veio e já foi fi-ficando. Ei, gostei da brincadeira de gaguejar!

– Não… sim…hein?

– Olha, já pensei no que disse sobre nosso amigo e tenho uma idéia matadora.

– Então, uma comunidade tão carente precisa de escolas, e eu pensei por que não uma profissiona…

– Parakeets twoX333.

– Lizante… Parak…como?!

– Uma banda Enesexual de TranceHop.

– Oi?!

– Oi, tudo bem? Banda da própria comunidade fazendo rave… sei lá… todo final da semana.

– Banda…? Final de sema …?

– Claro! Que burrice a minha: que fim de semana que nada! TODOS os dias da semana! E com as 25 vertentes sexuais representadas.

– 25? Tem 25?

– Patrocinada pelo sujeito que vai direto pra Brasília com o voto da moçada! Ráá!!

– Pôxa, … pode ser… Tão… tão simples…

– Simplicidade, Clarice.

– Clarice? Foi ela…

– Deixa pra lá. E, ó, te espero pra vir morar comigo, já viu que tem espaço de sobra. Tá ok?

– Nossa… esse cheiro…

– Águas sulfurosas: soberbas para pele e pulmões.

– Tá ok.

E com a idéia genial a gente conseguiu o que queria. A galera tá ainda pulando na Periquita, com o prefeito disparado nas intenções de voto. E eu? Comecei estas memórias, enquanto a embaixada de Londres me aguarda pra, pelo menos, alguns anos num lugar mais frio. Tá, ok?

(fim)

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