ficção

Seleção artificial

De como os genos deram origem a uma espécie saudável e sábia, e o que aconteceu com o Homo sapiens e o peru de Natal

Carlos Diegues
IMAGEM: ONA SMITAITE

Na terceira década do século XXI, o mapa do genoma humano foi enfim integralmente decifrado. A manipulação de células humanas, sobretudo a de células-tronco, que já vinha sendo utilizada para reverter processos de degeneração física, passou a substituir os medicamentos, servindo para curar todas as doenças e a maior parte dos aleijões. Com o tempo, a nova medicina permitiu não só o aperfeiçoamento da vida, como também a sua maior extensão, prevenindo males e protegendo o organismo humano de vírus e bactérias. A nova medicina se tornou conhecida como genoterapia.

A genoterapia continuou a ser aprimorada velozmente. Mas, por ser um procedimento extremamente caro, só estava ao alcance de famílias bastante ricas, de países ricos e estáveis que nela podiam investir. Famílias de classe média escolhiam um ou dois dos filhos para se beneficiarem dos planos de saúde que ofereciam o procedimento, ficando os outros sob o regime da medicina convencional. Líderes árabes, altos funcionários asiáticos, ditadores de países africanos e bilionários latino-americanos trataram logo de garantir o acesso à nova medicina.

As pessoas beneficiadas pela nova terapia foram chamadas de genos e, em pouco tempo, seu número cresceu o suficiente para que os laboratórios pudessem passar a viver exclusivamente da genoterapia. Os lucros se tornaram de tal modo elevados que os laboratórios deixaram de fabricar os medicamentos convencionais, responsáveis por uma relação custo-benefício insignificante.

Alguns governos de países desenvolvidos, e outros do mundo em desenvolvimento, tentaram obrigar os laboratórios a seguir fabricando medicamentos convencionais, capazes de atender os que não podiam pagar pela nova terapia. Mas esses governos foram derrubados por processos de impeachment, mecanismo previsto em suas Constituições e votado por Parlamentos democráticos. Ou foram eliminados por revoluções sangrentas, feitas em nome da liberdade, do livre-arbítrio e do direito de escolha.



Apesar da decadência da medicina convencional, a parcela grandemente majoritária da população de países ricos e estáveis que não tinha condições financeiras para se beneficiar da genoterapia continuou a crescer, embora a elevação estatística dos óbitos infantis causasse preocupação. Esses não-genos, cumprindo o dever de proteger a saúde de suas famílias, se organizaram para evitar a exportação do que havia restado de médicos e de medicamentos convencionais.

Essa política protecionista provocou guerras localizadas, e focos de conflitos regionais explodiram pelo mundo afora. Os genos não se envolveram, limitando-se a agir por motivos humanitários e, sempre que necessário, procuraram evitar graves prejuízos ao meio ambiente, ao planeta e à civilização, impedindo o uso de armas químicas e nucleares de destruição em massa. Graças a essas intervenções, aprovadas pelos organismos internacionais, as conseqüências desastrosas das guerras ficaram restritas aos combatentes e suas regiões.

Apesar de viverem cada vez mais isolados e protegidos do resto da população, os genos praticavam, em relação a essa, atos de caridade, provendo serviços de assistência social e sistemáticas contribuições humanitárias. A vida já tinha sido estendida a possibilidades centenárias para eles, quando uma crise gigantesca atingiu os não-genos.

 

Vivendo em condições sanitárias lastimáveis, sem o atendimento de um sistema de saúde eficiente e sem medicamentos convenientes, os não-genos foram assolados por grandes epidemias, que resultaram em interrupção do trabalho e fome crescente. Bandos deles passaram a tentar se apropriar ilegalmente dos benefícios da genoterapia, praticando roubos, assaltos, seqüestros e outros atos abomináveis. As autoridades foram obrigadas a declará-los inaptos à convivência democrática. E decidiram negar-lhes o direito de cidadania, isolando-os definitivamente de seu convívio. Para tanto, tiveram que usar a força.

Foi mais ou menos por essa época que, por meio de estreita cooperação entre biocientistas e neurocientistas, se descobriu o infra-ego – o regente de um mecanismo autônomo que ordenaria todo o conjunto do corpo humano -, o oposto simétrico do superego. Assim como este se encontrava num espaço indeterminado fora da pessoa, aquele se localizava em algum ponto, igualmente inidentificável, no interior profundo dela. O infra-ego regia a circulação do sangue, o sistema digestivo, o ritmo pulmonar da respiração do ser humano e a coordenação necessária entre essas atividades orgânicas, capaz de mantê-lo vivo.

Acabou-se descobrindo que a própria Terra, como um corpo vivo, possuía também um infra-ego que cuidava da harmonia entre seus diversos elementos de distintas naturezas, podendo eventualmente alterar seu comportamento, humor e clima, provocando calamidades imprevisíveis ou intermináveis primaveras.

Cientistas mais astutos não acreditaram que o infra-ego regesse apenas o funcionamento físico de um organismo, como uma simples ignição mecânica, e continuaram a busca de sua verdadeira natureza e do entendimento da totalidade de suas funções. Logo chegariam à descoberta de que o infra-ego era também capaz de pôr ordem nas mentes humanas, através de sinapses que não passavam pelo cérebro, mas tinham conseqüências decisivas em seu circuito de neurônios. Essas sinapses, sem aparente nexo ou finalidade, podiam ser controladas artificialmente, reorganizando o sistema moral de cada um segundo seu próprio programa individual, interferindo voluntariamente na clássica dialética entre os princípios de prazer e de realidade, e neutralizando interferências indesejáveis do superego.

Os estudos das funções do infra-ego evoluíram simultaneamente a novas e complementares descobertas relativas à genoterapia. A interação entre os dois campos de pesquisas aproximou a pequena humanidade que se beneficiava delas de uma existência quase milenar, cujo sentido não cabia mais na mera palavra “vida”. Em harmonia com a natureza, sua e do mundo à sua volta, a procriação dos genos privilegiava novas e sucessivas vantagens e aptidões. Logo os genos sofreram uma mutação genética, tornando-se uma nova espécie, dentro do gênero humano.

Lembrando a origem fundadora de sua evolução, antropólogos e biólogos convencionaram chamar a nova espécie de Homo ricus. A denominação foi adotada universalmente.

 

Os decadentes Homo sapiens seguiam espalhados em desordem pelo planeta, vagando pelas áreas mais pobres dos continentes, com famílias numerosas e sobrevivência cada vez mais curta. A partir de certo momento, seus governos não haviam conseguido exercer mais nenhuma autoridade em seus territórios, muito menos prestar qualquer tipo de serviço público. Estados entraram em colapso. Impossibilitadas de conservar suas fronteiras e os laços comuns entre seus cidadãos, nações desapareceram.

Conforme os Homo ricus iam prescindindo delas, os programas de assistência às populações de Homo sapiens foram sendo abandonados, já que não serviam para mais nada à comunidade dos contribuintes que pagavam por eles. Era um dinheiro jogado fora, um desperdício de recursos sem nenhuma racionalidade econômica.

Hordas nômades de Homo sapiens doentes e famintos evitavam o contato com seus semelhantes, pois os encontros costumavam terminar em disputas violentas pelos restos de alimentos, que logo se transformavam em morticínios e, às vezes, no genocídio dos mais fracos. Os poucos que conseguiam sobreviver à falta de tudo fugiam das cidades empestadas e em ruínas, onde epidemias, algumas novíssimas e totalmente desconhecidas, arrematavam a miséria em que viviam. As manifestações culturais rarearam, por desnecessárias e inúteis, e a própria linguagem perdeu o sentido.

Os Homo ricus progrediam, desfrutavam de uma vida cada vez mais saudável, de rostos e corpos cada vez mais belos, mentes cada vez mais livres de ilusões, existências cada vez mais longas e despreocupadas. Sobre esses fundamentos, construíam uma cultura de sabedoria e contemplação. Eles tinham orgulho de sua beleza, inteligência e longevidade, se reconheciam como uma espécie superior, a obra mais perfeita de Deus, feita à Sua semelhança, fosse Ele quem fosse.

Na cultura dos Homo ricus, a lembrança dos Homo sapiens se restringia à narrativa científica da evolução, como ancestrais da espécie a que pertenciam, eucariontes mamíferos e bípedes, como tantos outros animais existentes ou já extintos. Primeiro por diversão e esporte, os Homo ricus passaram a caçar os Homo sapiens, como se caçavam macacos num passado longínquo. As caçadas eram organizadas para comemorar a chegada do verão no hemisfério norte, mas logo se tornaram preliminares à alegria coletiva de grandes churrascos.

Devido ao entusiasmo generalizado e excessivo originado pelas caçadas, as autoridades foram obrigadas a promulgar leis rigorosas, com penas severas para salvar o Homo sapiens da ameaça de extinção. Algumas áreas reflorestadas do subcontinente sul-africano, do sudeste asiático e da América do Sul foram transformadas em pequenas reservas vigiadas, onde os Homo sapiens restantes eram mantidos em estado natural, e não podiam ser vítimas da violência de safáris exterminadores. Um número mínimo de caçadas formalmente autorizadas tinha por objetivo capturar alguns poucos exemplares da espécie, encaminhando-os a zoológicos, onde eram mantidos em cativeiro para estudo de sábios e diversão das crianças.

Em algumas das reservas destinadas a esse fim, no entanto, a caça aos Homo sapiens com o objetivo de abatê-los era permitida, em certas condições especiais e em temporadas muito precisas, com absoluto controle do número anual de vítimas. A carne deste animal em extinção havia se tornado rara e nobre. Só era servida em circunstâncias especiais, sobretudo por ocasião do Natal, quando a iguaria substitua o antigo (e já extinto) peru.

Carlos Diegues

Carlos Diegues, cineasta, é diretor de Bye Bye, Brasil.

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