despedida

Sem prêmio de consolação

Uma fábrica de medalhas fecha as portas no Rio

Mônica Manir
Nos bons tempos, a Randal – que nasceu em 1951 – fabricava não apenas medalhas, mas também chaveiros
Nos bons tempos, a Randal – que nasceu em 1951 – fabricava não apenas medalhas, mas também chaveiros

Mal examinou uma das condecorações que 25 mil soldados brasileiros receberam em 1945 por lutarem na Segunda Guerra Mundial, Henrique Martins torceu o nariz. As honrarias careciam de refinamento. “Eram todas chinfrins, mal-acabadas, de segunda categoria”, costumava contar. O português teve, então, uma ideia reluzente: iria montar uma fábrica de medalhas no Rio de Janeiro. Ele maturou o projeto por alguns anos à medida que sentia o mercado como representante comercial das poucas firmas do ramo. Um dia, convocou a mulher e os três filhos para anunciar a nova empreitada. A família ganhara dinheiro no início da década de 1940, durante o segundo ciclo da borracha, quando Martins produzia as canecas de folha de flandres que os seringueiros da Amazônia usavam na coleta do látex. Os tempos áureos, porém, haviam passado. Era hora de cunhar um futuro melhor.

A fábrica de medalhas nasceu em 1951 com o inusitado nome de Randal. Fixou-se primeiro no Caju, bairro carioca da Região Portuária, e depois migrou para Vigário Geral, na Zona Norte. O escritório ficava no Centro. Enquanto morava em Manaus – aonde chegou aos 12 anos, vindo de Paços de Ferreira, uma aldeia no distrito do Porto –, o imigrante conheceu um cantor que se chamava Randal e primava pela elegância. O português meteu na cabeça que, cedo ou tarde, abriria um negócio com esse nome. “Meu avô era inculto, mas tinha modos finos”, relembra um de seus netos, Carlos Henrique Martins.

O senhor Randal, como muitos passaram a tratar o empresário, mal sabia atarraxar um parafuso. Por isso, trouxe de Portugal dois exímios gravadores, que faziam as matrizes e as estamparias das medalhas. A dupla também treinava a mão de obra local. Ao longo da ditadura militar, a demanda por honrarias cresceu. Martins entrava nos gabinetes das Forças Armadas para pegar encomendas, e os soldados lhe batiam continência, talvez imaginando que ele fosse um oficial do Exército.

À época, proliferaram igualmente as medalhas por tempo de serviço. Funcionários de grandes corporações recebiam a distinção quando completavam duas, três, quatro décadas de casa. “Se o sujeito realmente vestia a camisa da empresa e ganhava uma homenagem dessas, não ligava para a medalha em si, mas para a história que aquela peça resgatava. Já um aventureiro qualquer não entendia a simbologia da coisa”, explica o neto, engenheiro mecânico que decidiu vestir a camisa da Randal em 1983 (seu pai, Nelson, entrara na firma em 1964).

A partir de certo momento, a fábrica agregou ao portfólio chaveiros em diferentes formatos: redondos, retangulares, recortados. Havia ainda os emblemas metálicos para uniformes da Panair do Brasil, companhia aérea que operou entre 1929 e 1965. Outro produto importante foram os medalhões que festejavam a construção da Ponte Rio-Niterói. O governo os entregou a autoridades em 1974, quando inaugurou a estrutura de 13 km. Cinco anos depois, a empresa confeccionou os passes de metal que os convidados usavam nas catracas durante a cerimônia que lançou a primeira linha do metrô carioca.

Galardões esportivos nunca estiveram na mira da Randal. “Esse setor não quer gastar dinheiro”, diz o neto de Martins. “Ninguém aceita pagar 50 reais por medalha para cada maratonista amador que cruza uma linha de chegada, por exemplo.” Em eventos de porte, como a Olímpiada, quem assume a produção das honrarias é a Casa da Moeda. “Eu até defendo isso porque, pô, olha o tamanho da responsabilidade! Não pode dar vexame numa competição assim.” Das 5 130 medalhas olímpicas e paralímpicas entregues no Rio em 2016, 150 acabaram rechaçadas pelos atletas, que as devolveram ao Comitê Organizador. Estavam arranhadas, descascadas ou com manchas. A própria Casa da Moeda as restaurou.

 

A Lei de Licitações e Contratos da Administração Pública, aprovada em 1993, significou um baque para a Randal. Até então, recorda-se Carlos Henrique Martins, existiam no país seis bons fabricantes de medalhas e outros tipos de honrarias. O grupo tinha como principal cliente o Estado – as assembleias legislativas, os tribunais de Justiça, os órgãos militares. “Havia concorrência, claro. Empregados do governo não podiam chegar e dizer: ‘Quero comprar o teu produto.’ Geralmente, o pessoal convocava os fornecedores mais estabelecidos no ramo e considerava as condições de cada um. Avaliava o custo das mercadorias, mas não só.” Depois da lei, as licitações tiveram de priorizar o concorrente que oferecia o menor preço. “Adivinha o que aconteceu? Numa disputa, apareciam quinze ou vinte propostas de fabricantes que não entendiam nada do riscado, embora vendessem barato.” O engenheiro mecânico conta que, em vez de usar o habitual latão, uma liga de cobre e zinco, alguns dos fornecedores “sem expertise” se valiam de matérias-primas sofríveis e descuidavam do acabamento – tudo que o velho Martins abominava. As fitas das medalhas perderam o requinte, as letras das inscrições ficaram tortas e as efígies se transformaram “num arremedo de escultura”. “Lógico que um produto desses saía a preço de banana e vencia as licitações.”

Em paralelo, as empresas privadas deixaram gradativamente de presentear a freguesia e os parceiros comerciais com distintivos e chaveiros metálicos. “Agora dão, no máximo, uns ímãs de geladeira. Os brindes se plastificaram”, lamenta o neto de Martins.

A perda progressiva de clientes e a atual crise econômica fizeram a Randal decretar falência no último dia 30 de julho. Nem mesmo o afã condecorativo do governo de Jair Bolsonaro pôde salvar a fábrica quase septuagenária (no primeiro semestre de 2019, o Planalto desembolsou 1,6 milhão de reais para a produção de medalhas, gasto que supera os do mesmo período de 2017 e 2018). “Melhor fechar do que baixar a qualidade”, sentencia o engenheiro. “Se a Randal entregasse uma medalha ruim, certamente ia ter devolução. O consumidor aprendeu a examinar nossos produtos com lupa e exigir perfeição da gente.” O site da empresa ainda continua ativo e encaminha os fregueses remanescentes para outro fornecedor carioca, que absorveu alguns dos vinte funcionários da Randal.

 

O neto do empresário gosta de evocar a fase em que o avô fez fortuna com as canecas que vendia para os norte-americanos no Amazonas. Entre 1941 e 1943, os Estados Unidos perderam o acesso à borracha da Malásia e resolveram explorar a daqui. Em um ano e meio, as encomendas saltaram de 10 mil unidades para 100 mil. Entusiasmado, Martins inaugurou uma segunda fábrica, desta vez em Belém. Quando retornaram à Ásia, porém, os gringos dispensaram os serviços do português, que amargou uma vertiginosa derrocada financeira.

Tempos depois da aventura amazônica, o empresário cismou de produzir tampinhas para garrafas de refrigerante e cerveja. Com dois empreendedores, investiu numa máquina estrangeira que, à semelhança de uma metralhadora, disparava seiscentas chapinhas por minuto. Um dos sócios faliu antes de liquidar o pagamento da engenhoca, que jamais chegou ao Brasil.

Com 68 anos, em 1967, Martins enfartou no escritório da Randal enquanto lia o jornal de todas as manhãs. “Era um homem de ação, não de previsão”, define o neto. “Por isso, quebrou e ressuscitou duas vezes.”

Mônica Manir

Jornalista com mestrado e doutorado em bioética

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