esquina

Serra sorri

O retratista dos governadores

Guilherme Pavarin
ANDRÉS SANDOVAL_2018

Gregório Gruber não está acostumado a trabalhar com prazos apertados. Daí seu desconforto quando, numa manhã de fevereiro, recebeu um telefonema do Palácio dos Bandeirantes: ele teria trinta dias para entregar o retrato de José Serra. Criada nos anos 70, a Galeria Governadores da casa abriga retratos de todos os governantes desde o final do século XIX. Recusar não era uma alternativa, pois em 2014 o pintor já se comprometera com a curadora do acervo. “Fui obrigado a aceitar”, contou.

Alto e magro, grisalho, Gruber tem 66 anos e usa óculos de aro grosso. São de sua autoria os retratos de Cláudio Lembo e Alberto Goldman, que ocuparam o Bandeirantes por nove meses em 2006 e 2010, respectivamente. O mandato de Serra, de janeiro de 2007 a abril de 2010, ficou ensanduichado entre os dois.

Se retratar políticos não era uma novidade para Gruber, desta vez ele teria uma complicação adicional: José Serra não estava disposto a posar para a posteridade e mandou uma foto. Nela, o ex-governador aparece sorridente, destoando não só dos costumeiros registros que nos habituamos a ver nos jornais, como das poses mais sisudas de seus antecessores, já emolduradas. “Acho a fotografia uma coisa muito fria”, queixou-se o retratista. “É muito difícil quebrar essa frieza.”

Gruber imprimiu uma reprodução da foto e pendurou em seu ateliê no bairro paulistano do Pacaembu. Trabalhou por trinta dias, em sessões diárias de mais de quatro horas. Seguiu o protocolo que lhe foi passado: fundo escuro, traços solenes e tons de bronze, com a bandeira do estado em segundo plano.



O artista sacou o celular para exibir à piauí o quadro, entregue em março. Vê-se um Serra bronzeado e descontraído, com os olhos saltados (que ele tem mesmo) e as maçãs do rosto iluminadas. Exigente, o autor não abriu mão do apuro artístico. “Quis fazer um trabalho pictórico, algo que fosse válido como pintura”, definiu.

 

Mário Gruber, pai de Gregório, foi o mais prolífico retratista dos governadores paulistas, autor de catorze das trinta telas que compõem a coleção. Na juventude, andava com Candido Portinari, Di Cavalcanti e Tarsila do Amaral, a turma de pintores de esquerda. “Meu pai foi muito perseguido por ser comunista, desquitado, estrambólico”, conta o filho. O que não o impediu de retratar políticos de todos os matizes, como os conservadores Adhemar de Barros e Paulo Maluf. “O segredo é não misturar trabalho com política”, disse Gruber filho, que aprendeu a lição com o pai.

Ao herdar o posto de retratista oficial, Gregório Gruber entrou para um clube seleto, de apenas seis membros, incluindo os Gruber. “Não é qualquer um que pode ir lá e fazer retrato oficial, como muitos pensam”, justificou o artista. “O critério é super técnico.”

O jovem Gregório bem que tentou não seguir os passos do pai, mas acabou se assumindo como artista por volta dos 25 anos. Apadrinhado por Pietro Maria Bardi, um dos criadores do Museu de Arte de São Paulo, ganhou uma exposição individual no Masp e se tornou uma jovem promessa da arte brasileira. Em 1982 a revista IstoÉ publicou uma reportagem onde se lia: “Todo mundo sabe que o paulista Gregório é o exemplo acabado do precoce sucesso absoluto.” Segundo a matéria, o pintor vendera uma tela por 1,7 milhão de cruzeiros, coisa de 100 mil reais em dinheiro de hoje.

O estúdio no Pacaembu, com três andares repletos de cômodos atulhados de telas, cadernos e esboços de desenhos, é onde o artista guarda seu acervo (para trabalhar, ele prefere outro ateliê, na Serra da Cantareira, ao norte da capital, um lugar mais tranquilo e isolado). Espalhadas pelo imóvel e por seus amplos jardins, estão esculturas, assemblages e óleos de cores frias, invariavelmente melancólicos. E retratos: de celebridades, dos dois filhos, autorretratos. Elis Regina foi pintada em preto e branco com flores na cabeça sobre um fundo sóbrio; Mick Jagger aparece sem camisa, ao lado de casais dançando. Quase não há espaço vazio no imóvel. “São quarenta anos de produção”, resumiu Gruber.

 

Em abril, o Diário Oficial do Estado de São Paulo publicou que Gregório Gruber havia sido contratado por 85 mil reais para pintar o retrato de José Serra. A notícia acabou com o sossego do pintor: para muitos, o valor soou exagerado. A polêmica culminou com a decisão do juiz Evandro Carlos de Oliveira, da 15ª Vara da Fazenda, de suspender o contrato. Um dos advogados que entraram com a ação popular alegou que o quadro era uma “afronta à moralidade”, já que era um gasto desnecessário enquanto havia redução de investimentos em educação, saúde, cultura e meio ambiente.

Gruber não esconde sua frustração. “Acho legal as pessoas se preocuparem com os gastos públicos, mas é injusto não me pagarem e compararem preços sem critérios”, alegou. “Todos sabem quanto cobro, qual é meu preço no mercado”, acrescentou, sem revelar quanto recebeu por seus últimos trabalhos e concluindo com o argumento de que “comparado a outros do mundo da arte, o valor do retrato do Serra é uma ninharia.” Nem tanto: em 2006, Ary Queiroz de Barros recebeu 20 mil reais pelo retrato de Geraldo Alckmin (38 mil reais corrigidos pela inflação). Barros teve setenta dias para executar o serviço, que foi recusado duas vezes. Insatisfeito com o resultado, o tucano pediu uma nova versão à cunhada Judith Ribeiro de Carvalho.

A última notícia que o artista teve de sua obra foi que ela estava no depósito do Bandeirantes, com uma “moldura colossal”, dourada. O governo paulista afirmou que aguarda a decisão da Justiça antes de tomar qualquer providência. Não que haja pressa: o retrato de Alberto Goldman, entregue por Gruber em 2012, ainda não foi oficialmente entronizado. Em geral aberta à visitação, a Galeria Governadores está fechada desde o imbróglio.

José Serra preferiu não se manifestar quando a piauí quis saber se ele estava satisfeito com a obra. E o retratista ignora o julgamento do ex-governador sobre o trabalho. “Olha, nem sei se ele viu”, disse Gruber, sem parecer preocupado. “Um dia pergunto para ele.”

Guilherme Pavarin

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