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Sherlock vai às compras

Uma rede de lojas na Espanha onde nada é o que parece

Flávia Mantovani
ILUSTRAÇÃO: ANDRÉS SANDOVAL

A crise econômica elevou as vendas de livros em uma rede de lojas da Espanha. Os clientes levam para casa títulos tão diversos como o Nuevo Diccionario Español, a novela americana Sister Mine [Irmã Minha] ou White Protestant Nation [Nação Branca Protestante], um calhamaço sobre o conservadorismo nos Estados Unidos. Mas, por favor: ninguém conclua que os espanhóis estão investindo em livros para combater o desemprego. Os volumes em questão são ocos. Sua função é servir de esconderijo insuspeito para joias, dinheiro e outros bens.

Os livros secretos são feitos com obras genuínas, comercializadas no mercado. As páginas iniciais são deixadas intactas, e a caixa só aparece depois de começado o primeiro capítulo. Estão à venda na Tienda del Espía [Loja do Espião], rede especializada em artigos de segurança e investigação. Dividem a vitrine com falsos potes de laquê, caixas de cereais e latas de refrigerante. Com a frágil situação do sistema financeiro espanhol, o mercado para a linha de recipientes ocultos ganhou impulso. “As pessoas já não confiam nos bancos”, explicou Antonio Durán, proprietário da loja. “Muitas estão tirando o dinheiro da conta para guardá-lo em casa.”

Na vitrine, nada é o que parece. Por trás de relógios, óculos, cintos, colares e até um capacete de ciclista, há câmeras ou gravadores escondidos. É o caso de uma calculadora que, além de fazer contas, grava até 33 horas de conversa. Ou de uma discreta caneta que pode registrar seis horas de vídeo.

Os pen drives vendidos ali também costumam esconder gravadores, quando não algo ainda mais sofisticado: programas para controlar computadores ou celulares a distância. “Serve para fiscalizar os filhos, o companheiro ou os funcionários”, exemplificou Yolanda Porras, braço direito do dono da loja. “É o máximo!”

Outro produto muito procurado é o sistema de escuta ambiental, que transmite as conversas de um recinto. “Se seu marido viaja muito, você pode colocar o aparelho no carro, debaixo do assento, e escutar tudo o que é dito lá dentro, em tempo real e sem que ele perceba”, sugeriu Antonio.

O acervo da loja inclui ainda estetoscópios para auscultar paredes, binóculos com visão noturna, óculos escuros com sistema retrovisor para enxergar o que acontece atrás do usuário e outros dispositivos que permitem “ouvir, ver e gravar”, lema da empresa.

 

Espera-se discrição de uma loja de produtos de espionagem – estabelecimentos convencionais costumam usar salas escondidas para se instalar ou limitam suas operações à internet. Nada mais diferente da Tienda del Espía. Suas filiais ficam em ruas movimentadas e têm vitrines chamativas. Na entrada, vê-se um manequim vestido de detetive e cartazes com frases como “Quem é a ovelha negra da sua empresa?” ou “Saiba quem utiliza sua cama na sua ausência”.

O espalhafato se justifica pelo público-alvo do estabelecimento. “Nossa loja é para o público em geral e tem que estar próxima das pessoas”, justificou o proprietário. De fato, há poucos detetives profissionais entre os clientes da Tienda del Espía. “Somos concorrência para eles”, observou Yolanda. “Aqui o leigo faz tudo sozinho.”

Quando fundou a empresa, há 22 anos, Antonio Durán trabalhava numa agência de cobranças, na qual precisava investigar o endereço de devedores ou gravar conversas que mantinha com eles. Soube que havia lojas de espionagem nos Estados Unidos e decidiu abrir um negócio nesse ramo. Hoje, além da matriz e de uma filial em Madri, a empresa tem unidades em Barcelona, Bilbao e Valência.

Possui também uma loja virtual, mas ela não traz muito retorno. “Isso aqui não é como servir um sorvete. É um produto que requer atenção personalizada”, disse o dono.

“Queremos que os clientes venham a nós, porque damos as soluções para seus problemas. Eles nos contam sua história, que normalmente é muito pessoal”, completou Yolanda.

 

Boa parte da clientela da Tienda del Espía é familiar. Entre os compradores habituais há cônjuges desconfiados e pais que querem controlar os filhos ou suas babás. Para os maridos cismados, até pouco tempo atrás havia um exame que detectava a presença de sêmen na roupa íntima da mulher. Muito propagandeado, o teste de infidelidade não teve o retorno esperado. Encalhou e foi retirado do catálogo.

O mundo corporativo com suas intrigas e traições também oferece terreno fértil para o mercado da espionagem. Funcionários costumam comprar gravadores e câmeras para registrar episódios de assédio moral. Nem sempre as provas obtidas por esse meio podem ser usadas judicialmente, mas cada vez mais consumidores chegam à loja por indicação de um advogado.

Já os patrões procuram dispositivos para descobrir desde o vazamento de segredos industriais até o mau uso de telefones e computadores. A própria loja recorre a esse expediente para fiscalizar seus funcionários, e não faz segredo disso. “Qualquer movimentação do caixa ou e-mail enviado na filial de Valência chega para nós aqui”, exemplificou Antonio.

Para os clientes mais paranoicos, a loja vende um produto de contraespionagem – um sistema de análise radioelétrica que localiza câmeras e gravadores escondidos e permite detectar se uma pessoa está sendo vítima de espionagem. Antonio não vê contradição nisso. “Quem melhor do que nós para procurar o que vendemos?”, questionou. Se nenhum dos produtos resolver seu problema e o cliente precisar recorrer aos serviços de um profissional, ele pode se aconselhar na própria loja, que tem convênio com uma agência de arapongas.

Tanto mistério atrai bastante gente. No fim de uma manhã de julho, a matriz madrilena foi visitada em menos de uma hora por dois senhores, um pai com duas crianças, dois jovens e um homem de meia-idade que saiu com a sacola cheia de recipientes secretos. Duas mulheres entraram em busca de uma câmera escondida para vigiar uma caseira. Sem descanso, a vendedora comentou: “Hoje em dia não dá para confiar em ninguém.”

Flávia Mantovani

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