esquina

Silêncio não!

Persona non grata para uns, lacraia do mal para outros

Naira Hofmeister
ILUSTRAÇÃO: ANDRÉS SANDOVAL

Foi em busca de sossego que Walter Ricardo da Cunha Freese se mudou para Nova Petrópolis. Ele já conhecia a cidadezinha de colonização alemã na Serra Gaúcha, a respeito da qual as pessoas invariavelmente sacam do dicionário o adjetivo bucólico. Quando voltou de uma temporada na Itália, no final de 2010, pareceu-lhe uma boa opção para fixar moradia. Não queria se radicar em Porto Alegre, onde vive sua irmã – achava a capital urbana e movimentada demais. Precisava de algo mais pacato.

Ao visitar o apartamento no 4º andar que acabou alugando em novembro, Freese não atinou para o repique dos sinos da igreja luterana situada a 100 metros do prédio. Só foi percebê-los no silêncio solitário de suas madrugadas insones. Ele simplesmente não conseguia pegar no sono: quando sentia pesarem-lhe as pálpebras, acordava sobressaltado com o ressoar do bronze, como se o badalo estivesse dentro do abajur. Parecia-lhe que os móveis tremiam e as janelas vibravam. Mal se acalmava e lá vinha o sino de volta à carga. Era infernal.

Os dois sinos da igreja luterana de Nova Petrópolis tocam 468 vezes por dia. Para marcar o alvorecer, lá pelas seis da manhã, o menor deles badala 32 vezes e outras tantas ao final da tarde, doze horas depois. O sino grande é acionado para anunciar o meio-dia, com mais 32 badaladas metálicas. Além disso, a cada quarto de hora ouvem-se três badalos – sem contar as marcações das horas cheias, inclusive as noturnas.

O toque dos sinos pontua o dia a dia dos nova-petropolitanos. É o chamado para que os fiéis compareçam ao culto, além de anunciar nascimentos, falecimentos e casamentos. Cada evento é sinalizado de forma distinta e a população se orgulha de reconhecer esse código. É assim há 107 anos, desde a inauguração do templo, cuja fachada é em tons rosa, pastel e salmão.

Durante duas semanas de abril, no entanto, uma ação judicial silenciou o solene (ainda que insistente) ribombar. Era obra de Walter Freese. O gaúcho de Cerro Largo não tinha qualquer razão para acordar às seis da manhã, pois só eventualmente trabalha dando ajuda à irmã – aos 40 anos, vive da renda do aluguel de um apartamento que herdou. Incomodado com as badaladas, chegou a registrar ocorrência policial queixando-se do barulho. De nada adiantou. Pareceu-lhe legítimo então entrar com uma ação cível no tribunal de pequenas causas e um processo criminal contra o presbitério.

Numa audiência conciliatória com o Ministério Público, a igreja se dispôs a diminuir a frequência das badaladas. Era a garantia de sono que Walter Freese tanto queria. Mas ele não imaginava o vespeiro em que estava metendo a mão.

A maioria dos 19 mil habitantes de Nova Petrópolis descende dos imigrantes alemães que chegaram ali em 1858. São seguidores de Martinho Lutero, como seus antepassados, e cultivam outras tradições germânicas. Na Rádio Imperial, canções de bandinhas alemãs respondem por metade do repertório. Aos domingos, caixas de som instaladas ao longo da principal avenida da cidade tocam apenas músicas típicas da colônia. Muitos ainda se comunicam através do Hunsrückisch, dialeto falado pelos pais fundadores.

Vindos da Alemanha, os sinos da igreja luterana são parte das tradições que os nova-petropolitanos tanto prezam. Sua função original era informar aos trabalhadores rurais a hora do início e do fim do expediente, além de mantê-los atualizados sobre a vida social da comunidade. Ainda hoje, parte dos moradores se guia pelas badaladas. É o caso da pequena Ana Laura Casara, de 9 anos: ao ouvir os 32 toques matinais, ela sabe que é hora de se levantar para ir ao colégio.

Ao assistir a um silêncio judicial se deitar sobre uma tradição de Nova Petrópolis, a sociedade se mobilizou. Um abaixo-assinado em defesa dos sinos reuniu 6 mil assinaturas – um terço da população. Freese, que nesse ínterim conhecera outros opositores dos sinos, tentou contra-atacar com seu próprio abaixo-assinado. Conseguiu míseros 44 signatários. Diante do engajamento maciço da população, a igreja não teve outra solução senão retomar as 468 badaladas diárias.

Freese bem que conseguiu um laudo da Patrulha Ambiental da Brigada Militar que lhe dava razão. O documento mostrou que, no período noturno, o nível de emissão de ruído das badaladas no apartamento do contestador era de 56 decibéis, enquanto a ABNT estipula um limite de 45 decibéis. Mas o laudo não comoveu o leigo Josué Drechsler, que julgou a ação cível improcedente. Entre outros argumentos, alegou que há “uma regra específica para os casos de atividades em templos religiosos no estado do Rio Grande do Sul” e que, neste caso, “os níveis não ultrapassam os parâmetros legais”.

O ápice da mobilização contra o forasteiro foi uma audiência realizada em julho na Câmara dos Vereadores, na qual Freese foi considerado persona non grata em Nova Petrópolis – o primeiro da história da cidade. “Sentimos o maior orgulho do badalar dos sinos e da manutenção desta tradição. É um legado deixado pelos nossos antepassados, que certamente não são os antepassados deste senhor”, justificou o documento assinado pelo proponente, o vereador Jerônimo Stahl Pinto, do PDT. O texto áspero foi aprovado por unanimidade.

Desde que o caso começou, Freese é alvo de acusações ferinas na imprensa local, em artigos que ele recorta e guarda dobrados numa pasta. Num jornal, foi qualificado de “elemento de desprezível conduta”. Noutro, foi tratado de “lacraia do mal”. Sem meias palavras, o colunista Getúlio José Rodrigues da Fonseca cobrou do forasteiro que se mandasse. “Coloca a tua viola no saco e vai tocar bem longe das famílias alemãs e das famílias de bem”, escreveu. A vereadora Simone Elisa Michaelsen, do PMDB, articuladora do abaixo-assinado em defesa do sino, acha prudente que ele obedeça: “Se ele não for embora, é um perigo que ande na rua.”

Depois de quase apanhar de um ex-amigo num boliche de Nova Petrópolis, Freese decidiu capitular: é impossível brigar contra toda uma cidade. Está de malas prontas. Na primeira semana de agosto, deu o aviso prévio para deixar o apartamento. Procura uma cidade de ateus e agnósticos.



Naira Hofmeister

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