ficção

Sobre o êxodo

Pela primeira vez o monumento não estava decorado com excremento de pombo, talvez porque até as pombas tivessem partido

Mario Benedetti
O número de famintos que emigraram representou um contingente tão ou mais importante do que o de suspeitos e de suspeitos de serem suspeitos. Mesmo assim, o governo se fez de desentendido
O número de famintos que emigraram representou um contingente tão ou mais importante do que o de suspeitos e de suspeitos de serem suspeitos. Mesmo assim, o governo se fez de desentendido IMAGEM: H.KOPPDELANEY_FLICKR.COM/H-Q-D

É óbvio que o êxodo começou por motivos políticos. No exterior, os jornalistas começaram a escrever que a atmosfera daquele paisinho era irrespirável. E era mesmo difícil respirar. Os jornalistas estrangeiros continuaram escrevendo que ali a repressão era monstruosa. E realmente era monstruosa. Mas o fato de essas verdades terem sido difundidas por jornalistas estrangeiros levou as autoridades a uma invocação inflamada do orgulho nacional. O erro do governo foi, talvez, ter posto a invocação na boca do presidente, já que, nos últimos tempos, sempre que a voz e/ou imagem do primeiro mandatário aparecia na tevê ou nas rádios, as pessoas corriam para apagar seus aparelhos. De modo que a população jamais chegou a se inteirar da invocação do orgulho nacional feita pelo governo. E, em consequência, continuou partindo.

Primeiro se foram todos os suspeitos que estavam soltos. Depois começaram a ir os parentes e os amigos dos suspeitos (presos ou soltos). No início, apesar de serem muitos os que emigravam, sempre era maior o número dos que iam aos portos e aeroportos para se despedir. Mas o dia em que um barco com mil emigrantes zarpou diante do aceno de apenas 24 pessoas, o fato insólito ficou registrado na indiscreta câmera de um fotógrafo estrangeiro, e a publicação de tal testemunho numa revista de grande circulação internacional provocou uma nova invocação patriótica do presidente, e, em consequência, o momentâneo e preventivo apagão dos poucos aparelhos de rádio que ainda tinham ouvintes e das escassas telas de tevê que ainda tinham telespectadores. O mais curioso foi que o governo não pôde punir esse novo hábito, já que, a partir da crise do petróleo, havia exortado a população a não poupar sacrifícios em prol da economia do combustível e, portanto, de energia elétrica. E que maior sacrifício (dizia o pretexto popular) que se privar da esclarecida e esclarecedora voz presidencial? Por isso, dessa vez, o povo também não ficou sabendo que seu orgulho pátrio havia sido invocado pelo chefe do governo. E continuou partindo.

Quando todos os suspeitos que estavam soltos, mais os seus amigos e familiares, emigraram em sua quase totalidade, começaram então a partir os que passavam fome, que não eram poucos. A última pesquisa do Gallup tinha registrado que 72,34% das pessoas passavam fome, dado importante sobretudo quando se sabe que os 27,66% restantes eram compostos, em sua maior parte, por militares, latifundiários, banqueiros, diplomatas, voluntários do Corpo de Paz, mórmons e agentes da CIA. O número de famintos que emigraram representou um contingente tão ou mais importante do que o de suspeitos e de suspeitos de serem suspeitos. Mesmo assim, o governo se fez de desentendido e, como contrapropaganda, começou a difundir, pelos canais e emissoras oficiais, um programa alimentar de emagrecimento.

 

Certo dia circulou o rumor de que na Austrália havia uma grande demanda por trabalhadores especializados. Imediatamente cerca de 30 mil operários embarcaram rumo à Oceania, cada qual com sua mulher, seus filhos e sua especialização. Sabe-se que, em qualquer lugar do mundo, os grandes empresários captam rapidamente as situações-chave. Os do paisinho também e, ao compreender que suas fábricas não poderiam continuar produzindo sem a mão de obra especializada, desmontaram velozmente seus planos e parques industriais, e se foram com máquinas, dólares, musak, família e amantes. Em alguns poucos casos, deixaram no paisinho um único funcionário para apresentar a liquidação dos impostos, mas não deixaram ninguém para pagá-los.

Outro dia circulou o rumor de que, também na Austrália, havia uma grande demanda de serviço doméstico. Imediatamente, embarcaram para Sidney 40 mil empregadas, mucamas etc., incluído no et cetera um ex-mordomo que estava sem trabalho desde o sequestro do embaixador britânico. Nas grandes famílias da oligarquia do gado, as senhoras com quatro ou seis sobrenomes também captaram rapidamente a situação e, ao compreenderem que sem serviços domésticos elas mesmas teriam que cuidar da comida, da limpeza, das roupas (as lavanderias e as tinturarias já haviam emigrado há meses), da higiene das latrinas e pias, convenceram seus maridos a organizar às pressas a mudança familiar para algum país medianamente civilizado, onde, ao apertar um botão, serventes que falam inglês, francês e que não têm nem piolhos nem filhos se apresentam com prontidão. Por aqui, na melhor das hipóteses, ao se apertar o botão, só apareceriam os piolhos. E não se sabia por quanto tempo.

Há que reconhecer que os militares foram os que ficaram até o final. Por disciplina, claro, e também porque recebiam soldos suculentos. Seu enraizamento os fez emitir, em determinado momento, um comunicado especialmente otimista, no qual se assinalava que, no último ano, o número de pessoas que havia sofrido acidentes de trânsito caíra 35,24%. Os jornalistas estrangeiros, com sua habitual malevolência, tentaram minimizar a evidente conquista, dizendo que ela não constituía mérito nenhum já que havia cada vez menos gente para ser atropelada em território nacional. O único jornal que reproduziu esse comentário insidioso foi fechado de forma definitiva.

Sim, os militares (e os presos, claro, mas por outras razões) ficaram até o final. No entanto, quando o êxodo começou a ganhar contornos alarmantes e os oficiais descobriram que estava ficando cada vez mais difícil encontrar gente jovem para ser submetida à tortura e, mesmo que às vezes conseguissem remediar essa carência voltando a torturar os já processados, também eles, ao se virem de certa forma desocupados, buscaram pretextos para emigrar. As bolsas oferecidas pela grande nação do Norte, para o curso de aperfeiçoamento antiguerrilha na zona do Canal, começaram a ser aceitas massivamente. Aproximadamente a metade dos oficiais na ativa foi canalizada para o Canal. A metade restante se dividiu em dois clãs, que passaram a disputar o poder. Isso durou até a tarde em que um general medianamente lúcido reuniu seus camaradas no cassino do quartel e lhes lançou a seguinte pergunta: “Por que lutar pelo poder se já não há ninguém para ser comandado? Sobre quem, caralho, exerceremos o poder?” O efeito da dúvida filosófica fez com que no dia seguinte 90% dos oficiais embarcassem para o exterior. Os que permaneceram (quase todos muito jovens, recém-promovidos), felizes por se verem finalmente sem chefes, tentaram organizar uma pelada de futebol na praça de armas, mas quando descobriram que o total de fiéis servidores da pátria não somava os 22 exigidos pelas regras da Fifa, decidiram suspender a partida. E no dia seguinte emigraram.

 

O último dos militares a partir foi o diretor do presídio. Quando ele se afastou do cargo, sem se despedir sequer dos presos políticos (ainda que tenha dito adeus aos delinquentes comuns), deixou o grande portão aberto. Durante uma hora, os presos não se atreveram a se aproximar. “É uma armadilha para nos matar”, disse o mais velho. “É uma miragem”, disse o mais cego. “É tortura psicológica”, disse o mais esperto. E concordaram em não se arriscar. Mas depois de uma hora, e de fora só vinha o silêncio, o mais jovem anunciou: “Eu vou sair.” “Vamos todos!”, foi a resposta geral.

E saíram. Não se via ninguém nas ruas. Perto de uma árvore encontraram dois revólveres e uma metralhadora, abandonados. “Preferia ter encontrado um churrasco”, disse o mais gordo, que, por costume profissional, pegou um dos revólveres. E continuaram andando. Primeiro com cautela, e logo com relativa audácia. “Todos foram embora”, disse o mais velho. “Tomara que tenham deixado as presas para trás também”, disse o mais esperto. E, diante da gargalhada de todos, acrescentou: “Não pensem bobagem. Digo isso com a preocupação fundamental de repovoar o país.” “Hipócrita!” “Hipócrita”, gritaram vários.

Demoraram duas horas até chegar ao centro. Na praça, também não encontraram ninguém. O herói da pátria, do alto de seu corpulento cavalo de bronze, pela primeira vez em muitos anos, tinha um ar otimista. Também pela primeira vez, o monumento não estava decorado com excremento de pombo, talvez porque até as pombas tivessem partido.

 

O preso que levava o revólver abriu lentamente uma grande porta de madeira e entrou com certa parcimônia no palácio do governo. Os demais seguiram-no, um pouco impressionados porque aquele edifício era algo inacessível. Numa sala do 2º andar encontraram o presidente. De pé, silencioso, com as mãos nos bolsos do paletó preto.

– Boa tarde, presidente – disse o mais velho. Dissimuladamente, alguém lhe passou o revólver que haviam recolhido no caminho.

– Boa tarde – disse o presidente.

– Por que não foi embora? – perguntou o mais velho.

– Porque sou o presidente.

– Ah.

Os presos se entreolharam com uma única pergunta nos olhos: “O que vamos fazer com esse maluco?” Mas antes que alguém encontrasse uma resposta, o mais velho passou o revólver para o presidente.

– Senhor, queremos lhe pedir um favor: suicide-se.

O presidente pegou a arma e todos observaram como sua mão tremia. Alguns, no entanto, atribuíram aquilo ao excesso de cigarro.

– Não sei se os senhores sabem que sou cristão. E os cristãos estão proibidos de se suicidar.

– Bom – disse o mais velho –, não precisa ser tão rigoroso. O senhor tem razão no que diz, mas só em parte. O senhor é um cristão, senhor presidente, mas um cristão de merda, e essa subespécie está autorizada a se suicidar.

– Você acha?

– Tenho certeza, senhor – disse o mais velho.

O presidente assoou o nariz e ajeitou o nó da gravata.

– Vocês pelo menos permitem que eu coloque uma venda nos olhos?

O mais velho olhou os demais.

– Deixamos que ele vende os olhos?

– Sim! Claro! – disseram todos.

Como o lenço branco do presidente estava sujo por ter assoado o nariz, um dos presos pegou um guardanapo que estava sobre a mesa e com ele vendou seus olhos. O presidente então levantou a mão com o revólver em punho e, antes de disparar contra o lado direito do cérebro, disse com uma voz rouca:

– Adeus, senhores.

– Adeus – disseram todos, com os olhos secos, mas sem alegria.

O tiro soou estranho. Como um projétil que se afunda em palha podre.

Ainda ressoava o estampido opaco do tiro quando começaram a se ouvir os tambores dos primeiros jovens que regressavam.

Mario Benedetti

Mario Benedetti (1920-2009), poeta, romancista e ensaísta uruguaio, autor de A Trégua, da Alfaguara, e Gracias por el Fuego, da l&pm.

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