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Sociedade alternativa

Não é preciso muito dinheiro para produzir shows na Casa Fora do Eixo

Raquel Freire Zangrandi
ILUSTRAÇÃO: ANDRÉS SANDOVAL

Na virada do ano, Dríade Aguiar, uma morena lépida de 20 anos, ligou para os pais em Cuiabá e avisou que não voltaria. Tinha ido encontrar amigos em São Paulo e decidira ficar. Viveria num sobrado de dois andares no bairro da Liberdade, junto com outros moradores da Casa Fora do Eixo, que em janeiro inaugurou ali sua base nacional. A mãe curtiu; o pai, não.

A nova casa de Dríade Aguiar é o quartel-general para a produção de projetos culturais de todos os naipes. Ali são arquitetados shows de bandas independentes, mostras de cinema e vídeo, lançamentos de livros, turnês de trupes teatrais, seminários e oficinas. A casa tem uma população flutuante de moradores fixos – atualmente são dezessete –, mas serve também de abrigo para artistas, produtores e simpatizantes de passagem por São Paulo. A lotação máxima é de 45 pessoas.

Quando um grupo se reúne em torno de um projeto cultural, passa a ser chamado de “coletivo”. A rede Fora do Eixo – ou FDE – é justamente um conglomerado de coletivos, um enxame de gente com ideias na cabeça, projetos no laptop e mão na massa. A rede de artistas, produtores e prestadores de serviço articulada pelo FDE envolve 93 coletivos e 2 500 pessoas de várias cidades do Brasil e da América Latina, entre membros oficiais e agregados.

No QG paulistano, o ambiente é o de uma república de estudantes onde se acorda tarde e se trabalha até de madrugada, sete dias por semana. As salas estão sempre cheias de moradores e colaboradores que discutem animadamente. Em comum, têm a idade na virada dos 20, o uso orgânico da internet, a paixão pelo que fazem – e a falta de grana. “A gente vive confortavelmente no vermelho”, explicou Dríade, enquanto tomava um copo de Toddy para começar o dia. “Não dá para ser transgressor trabalhando só no azul.”

O relógio da cozinha marcava 11 horas quando os primeiros moradores desceram para o café. O casarão tem cinco salas, dois quartos de casal e quatro de solteiro, uma cozinha grande, cinco banheiros, quintal, lavanderia, garagem e um lugar chamado pub, que serve para shows e transmissões pela internet. Nos fundos, há um anexo com quarto de hóspedes.

O ciclo completo de produção de um show pode ser resolvido ali, em volta de uma mesa cheia de laptops: Ávner Andrade, de Goiás, negocia a apresentação das bandas e resolve problemas logísticos. A paulista Isis Maria se encarrega de passagens e hospedagem. João Paulo Lopes, de Juiz de Fora, cria o cartaz de divulgação. Camila Cortielha, de Belo Horizonte, cuida dos contatos com a imprensa. Dríade, por fim, lida com a gráfica e alardeia o evento nas redes sociais.

 

A rede FDE surgiu no final de 2005 em Cuiabá, quando o produtor cultural Pablo Capilé, hoje com 31 anos, se associou a colegas do Acre, de Minas e do Paraná. O objetivo era promover as bandas locais Brasil afora, trocar experiências e unir forças. Graças à internet, a rede se alastrou como faísca sobre um fio de pólvora. Seis anos depois, desembarcaram em São Paulo, para que tivessem uma base em pleno eixo. Há outras quatro casas espalhadas pelo Brasil.

 

Os projetos do FDE geram uma economia paralela, inclusive com moeda própria. Muitas transações entre músicos, técnicos, fornecedores e prestadores de serviço são realizadas em FDE cards, cuja unidade equivale a 1 real. Cada hora de serviço prestado vale 20 cards, quer se trate de trabalho intelectual ou braçal. Uma hora lavando um dos carros da casa ou uma criando o cartaz para um festival têm o mesmo valor.

Vige o sistema do socialismo numa só casa. Nenhum morador anda com cartão bancário pessoal. Fica tudo guardado no armário de madeira que serve como caixa coletivo, e todos sabem a senha de todos. Entradas e saídas de dinheiro são registradas no “livro-caixa off-line”, um caderno espiral pautado. Ninguém saca dinheiro para uso pessoal sem que o grupo autorize.

Quando vence uma conta, o encarregado do caixa checa os extratos bancários. Aquele que tiver maior saldo será usado para quitá-la. Ninguém ganha salário, mas recebe o básico para viver: casa, comida e internet sem fio. Quando Dríade precisou comprar sapatos, há dois meses, comunicou ao banco e anotou a despesa. Para quem pernoita, a diária custa o equivalente a 5,50 reais, refeições incluídas. Mas os moradores preferem receber em serviços.

O funcionamento tem também suas regras de etiqueta – homens não podem circular sem camisa e cada um se encarrega de afazeres domésticos. Os moradores recorrem a termos grandiloquentes para se referir a coisas triviais. Ficar uns dias longe do computador é “fazer imersão off-line”; poder descentralizado e falta de hierarquia é “horizontalidade”; espaço de troca de ideias é “zona autônoma temporária”. O léxico básico também incorpora expressões do mundo corporativo e político, como fomento, gestão, sustentabilidade e articulação – tudo na maior sinergia.

 

No início de setembro, lançaram um glossário virtual com 58 verbetes que inclui gírias tecnológicas e expressões de uso corrente na casa, mas opacas para forasteiros. Pode ser muito útil para o neófito que tenha sido objeto de um “choque pesadelo” (bronca), acostumado a “dar a volta no Maranhão” (resolver coisa simples de forma complicada) ou acusado de um “conflito picareta” (contestar a filosofia da casa).

No andar de cima, há um armário coletivo. Moradores e visitantes podem utilizar as roupas disponíveis, mas devem devolvê-las limpas e inteiras. Fazem uso comum de lençóis, xampu, toalhas e meias, e são de uma geração que aboliu o ferro de passar.

A lotação da casa faz a alegria do padeiro mais próximo. Consomem-se, por baixo, 60 pães e 32 litros de refrigerante a cada 24 horas. As idas semanais ao supermercado incluem pelo menos 1 quilo de achocolatado e 64 rolos de papel higiênico, e são planejadas de acordo com o gosto da maioria. Quem é fã de Sucrilhos, como Dríade, tem que se contentar com granola. “A bancada do cereal é mais forte”, lamentou, resignada.

Raquel Freire Zangrandi

Produtora-executiva da piauí

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