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Suplicy: chateado

Secretário de Haddad cobra de Dilma seus direitos humanos

Carol Pires
ILUSTRAÇÃO: ANDRÉS SANDOVAL_2015

Eduardo Suplicy estava quarenta minutos atrasado para o único compromisso na sexta-feira depois do Carnaval: conhecer os 188 funcionários e 88 estagiários que passara a chefiar três semanas antes, quando foi nomeado secretário municipal de Direitos Humanos e Cidadania de São Paulo — a estreia dele no Executivo, aos 73 anos. Suas preocupações naquela manhã, no entanto, eram outras.

“Viu o que saiu no UOL?”, perguntou a Rogério Sottili, seu secretário adjunto. Estava aflito com a manchete que lera na internet: “Suplicy vai receber 52 mil reais de salário.” Sottili começou a rir, balançando os cachinhos do cabelo: “Tá bem, hein, Suplicy?” Em seguida, Suplicy queixou-se de que não conseguia falar com Miguel Rossetto, secretário-geral da Presidência. “Eu ligo pra ele agora”, disse Sottili.

Há mais de quatro anos Suplicy tenta encontrar a presidente Dilma Rousseff para retomar sua ideia fixa: o projeto da renda básica de cidadania, marca de seus 24 anos como senador. Não há sinal de encontro à vista. Andando pelo Centro a caminho da secretaria (seu gabinete fica em outro prédio), ele lembrou a primeira vez que procurou Dilma, então chefe da Casa Civil, para defender o programa. Foi em 2008. “Ela me convidou para almoçar e colocou uma placa de não incomodar na porta”, disse, com uma ponta de orgulho.

 

Suplicy apresentou o projeto em 1991, mas o texto só foi aprovado pelo Congresso quando o Partido dos Trabalhadores chegou à Presidência. Pela regra, sancionada por Lula em 2004, todos os brasileiros e residentes no país há mais de cinco anos teriam direito incondicional a um benefício anual. Os mais pobres começariam a receber primeiro. Não são especificados valores nem de onde sairia o dinheiro. A lei, nunca regulamentada, é de número 10.835. A seguinte, 10.836, transformou-se na bandeira petista: o Bolsa Família, que atende um quarto da população, com a condição de que os filhos estejam na escola.

A quem explica o projeto, Suplicy inexoravelmente cita o exemplo do Alasca, onde parte da renda do petróleo é destinada a um fundo cujos lucros são repartidos igualmente entre os moradores. Em 2008, Dilma ouviu e pareceu interessada. No ano seguinte, os dois se encontraram no almoço de Natal da base aliada. O paulistano prometeu apoio na campanha dela à Presidência. “Ao se despedir, ela me disse: ‘Essa foi a melhor notícia que recebi hoje.’”

Desde que Dilma foi eleita, Suplicy enviou-lhe oito cartas reivindicando o direito de ser recebido no Palácio do Planalto. Pede a criação de um grupo de estudo para “preparar a nação” para a transição do Bolsa Família para o Renda Básica, e anexa cartas de apoio de políticos e intelectuais.

Em 2014, passou a ser mais incisivo nas investidas. Em 23 de abril, foi ao Planalto disposto a falar com Dilma. Acabou recebido por Tereza Campello, ministra do Desenvolvimento Social, e Aloizio Mercadante, chefe da Casa Civil, que lhe deu um banho de água fria: o custo do Renda Básica equivaleria aos orçamentos da saúde e da educação juntos.

O ex-senador voltou a acossar Dilma em dezembro, no dia em que ela se diplomava na Justiça Eleitoral. Na fila dos cumprimentos, disse-lhe que seria justo que um petista que representou São Paulo no Senado durante tanto tempo fosse recebido por ela. “Mais que justo, senador”, respondeu a presidente. Perto do Natal, foi atrás de Joaquim Levy, que antes da posse na Fazenda despachava numa sala próxima à de Dilma. Suplicy disse não ver contradição entre as posições do ministro Chicago Boy e seu projeto. “A Sarah Palin é do Partido Republicano e como governadora do Alasca aprovou, durante a crise americana, uma lei que pagou uma parcela extra de 1 200 dólares.” No ano passado, cada habitante do estado recebeu 1 884 dólares.

 

No tour pela Secretaria de Direitos Humanos e Cidadania, Suplicy perguntava nome e função de cada um. Dava o número de seu celular. “Pode ligar para o que precisar.” Avisou que iria para Nova York naquela noite, mas estaria de volta em 3 de março. Uma funcionária disse que fariam uma campanha na internet para ajudá-lo. “Dia 3 a Dilma vai te receber no aeroporto, secretário.”

Uma assessora comentou que Suplicy é como criança. “Não pode prometer, porque ele não esquece. Ela disse que ia recebê-lo, ele está esperando.” Para Suplicy, não é pirraça, e sim uma filosofia de vida. Citou Goethe: “Quando uma criatura humana desperta para um grande sonho e sobre ele lança toda a força de sua alma, todo o universo conspira a seu favor.” Mais tarde, mostraria o e-mail de um amigo frei, que lhe garantia que as notícias de sua mágoa com Dilma haviam sido discutidas no Planalto.

Sua incursão pela secretaria só terminou no meio da tarde. No setor de políticas LGBT, contou sobre a amizade com Anderson Herzer, poeta transexual que ele tirou da Febem em 1979, oferecendo-lhe um trabalho em seu gabinete. Herzer jogou-se de um viaduto aos 20 anos. Em seu bolso encontraram o nome e o telefone do então senador. A história foi adaptada para o cinema, com Raul Cortez como Suplicy, que chorou ao lembrar a história. Na sala seguinte, foi instado a cantar. Foi de Father and Son, de Cat Stevens, a capela.

Nos Estados Unidos, o secretário encontraria o responsável por políticas de imigração da Prefeitura de Nova York e faria uma palestra no Congresso Norte-Americano da Renda Básica, que se reúne anualmente. Antes de encerrar o expediente, Suplicy e Sottili telefonaram ao prefeito paulistano para sugerir que recebesse prisioneiros de Guantánamo. Fernando Haddad ficou de pensar.

No carro, a caminho de casa, Suplicy disse ter encontrado a solução para seus dois problemas. Ficaria com a aposentadoria do Senado, mas a parte de seu salário de secretário que excedesse o teto do funcionalismo público seria doada a um fundo, a ser criado pela prefeitura, para instituir a renda básica na cidade. No dia seguinte, a má publicidade estava desfeita: “Suplicy dispensou salário de 19 mil reais”, dizia uma manchete.

Para persuadir Dilma, recorreria à providência divina. A ideia é convencê-la a anunciar o Programa Renda Básica durante a visita do papa Francisco ao Brasil, em 2017. Antes seria preciso cooptar o sumo pontífice para fazer a cabeça da presidente. “Falta pouco tempo. Vou pedir logo uma audiência com o papa.”

Carol Pires

Carol Pires é colaboradora do New York Times en Español e redatora do Greg News, na HBO. Foi repórter da piauí de 2012 a 2016

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