questões cinematográficas

Tempo e limite

As entrevistas viraram a panaceia do documentário brasileiro

Eduardo Escorel
ILUSTRAÇÃO: CAIO BORGES_ESTÚDIO ONZE

Entre as estreias, ainda em outubro, de Herbert de PertoAlô, Alô, Terezinha, e as de Jards Macalé, um Morcego na Porta Principal e Cidadão Boilesen, previstas para novembro, mais quatro documentários brasileiros também devem estrear. Concentrados em dois meses, antecedendo os grandes lançamentos de fim de ano, a maioria desses filmes parece fadada a uma carreira comercial breve. Embora desiguais, mereceriam ficar mais tempo em cartaz para poderem ser vistos e debatidos.

Herbert de Perto, dirigido por Roberto Berliner e Pedro Bronz, revela a transformação sofrida por Herbert Vianna, contrapondo os períodos anterior e posterior ao acidente em que sua mu-lher morreu quando ele pilotava um ultraleve. Além disso, o filme demonstra a existência de um limite que documentários não devem ultrapassar.

Na primeira imagem, Herbert abre um portão e convida a câmera para entrar. O gesto parece franquear acesso irrestrito do espectador à sua vida pessoal, o que não se concretizará. Na sequência seguinte, Herbert assiste a uma gravação dele, ainda jovem, dizendo que “se acontecesse uma tragédia ia começar de novo” e voltaria a conquistar o que já alcançara. Virando para a câmera, comenta, referindo-se a si mesmo: “O mané não sabe bem o que ele tá falando.”

Esse confronto entre dois tempos, separados pela tragédia cujas marcas estão no rosto de Herbert Vianna, é mais interessante que a própria biografia dele e a trajetória dos Paralamas do Sucesso. Pontuando a narrativa, Herbert revê imagens do passado, algumas que nunca tinha visto, outras de que não se lembrava. Do passado recente, ele diz não ter memória. Ficamos sabendo, através do cirurgião, que ele correu “risco de vida concreto”. Vemos a cicatriz na sua cabeça quando ele se vira de costas, apaga a luz e se afasta na cadeira de rodas. Mas seu sentimento íntimo é um enigma que não será decifrado.



Próximo ao final, Herbert toma um pequeno elevador circular, para ir escolher a guitarra que tocará no ensaio. Ouvimos alguém pedir para gravar a escolha do ins-trumento e perguntar se “tem algum problema”. Herbert não permite a gravação e, sozinho, aciona o elevador para descer.

O recato expresso nessa recusa define um limite. Mesmo em se tratando de uma celebridade que viveu em público um doloroso processo de recuperação, há situações tão banais como a escolha de um instrumento para ensaiar que não podem ser gravadas.

 

Já Alô, Alô Terezinha, dirigido por Nelson Hoineff, comprova que exibicionismo é uma doença incurável. Ex-chacretes e calouros se mostram dispostos a voltar a fazer papéis degradantes diante da câmera. Passados vinte anos, apesar de decadentes e sofridos, não aparentam ter mudado. A diferença é que Chacrinha era um palhaço “jocoso, libidinoso, safado, criativo e encrenqueiro”, como diz Alceu Valença. Fora do contexto original, porém, as reencenações estimuladas por Nelson Hoineff resultam aviltantes e constrangedoras. Em Alô, Alô Terezinha falta critério para definir até onde é possível ir.

“Pra que vocês querem essas entrevistas todas?”, pergunta Macalé no primeiro plano de Jards Macalé, um Morcego na Porta Principal, dirigido por Marco Abujamra. Não poderia haver indagação mais apropriada. De fato, entrevistas viraram a panaceia do documentário brasileiro. Há razões de sobra para Macalé desconfiar e ter medo de uma catástrofe que “desconstrua” sua vida pessoal.  Essa ameaça está sempre presente quando trechos curtos de depoimentos são reunidos para dar conta de um assunto.

Relutante de início, Macalé negaceia. Não parece disposto a se expor diante da câmera. Nem por isso se furta a abrir o baú de lembranças e trazer a público sua coleção de imagens filmadas em super-8. No fundo, sabe que o personagem não pode pretender controlar o filme. Precisa firmar um pacto de confiança mútua com o diretor e se deixar levar. É o que acontece em Herbert de Perto e falta em Alô, Alô Terezinha.

As imagens pessoais de Macalé revelam a coexistência do músico radical com o pacato filho de dona Lygia. Sentado ao lado dela, toca violão, no balanço do jardim. Para Macalé, a ação do tempo parece ter sido benéfica. No início da carreira, não compactuava com os interesses das gravadoras e dizia o que todos pensavam mas não tinham coragem de dizer, declara o fotógrafo Cafi. Sem ter aberto mão da irreverência da juventude, hoje transmite serenidade. Sentado num banco, de costas para a câmera, olha o horizonte e ouve seus próprios barulhos.

 

Como fez Macalé, os entrevistados de Cidadão Boilesen, dirigido por Chaim Litewski, também deveriam ter perguntado “pra que vocês querem essas entrevistas todas”. Fiel ao preceito jornalístico de ouvir todos os lados, Cidadão Boilesen fragmenta e embaralha mais de quarenta depoimentos que acabam se anulando uns aos outros. Uma notável pesquisa de material de arquivo é desperdiçada por um uso arbitrário e falta de identificação da maioria das imagens. A inegável relevância do assunto sufocada por um acúmulo de recursos de linguagem banais. Exemplo disso é o tom da trilha musical que oscila entre o jocoso e o enfático. A rigor, Cidadão Boilesen é mais uma reportagem descosida do que, propriamente, um documentário.

O meritório propósito de recuperar a história de Henning Boilesen, acusado de coletar recursos entre empresários para financiar a repressão e assistir, ele mesmo, a sessões de tortura, poderia ter servido para os envolvidos nos fatos que levaram o empresário a ser metralhado, em 1971, por um comando de uma organização armada, refletirem sobre suas participações no episódio. O filme, porém, sequer lhes dá essa oportunidade.

O ex-comandante do DOI-CODI de São Paulo limita-se a ler uma declaração em que reafirma antigas posições.  O ex-militante que declara ter proposto à sua organização transformar o sequestro planejado “em ação de justiçamento” também admite ter dirigido a ação e dado o tiro de misericórdia em Boilesen. Não renega o que fez e diz sofrer “as mortes que viveu e as mortes que cometeu”. Protegido pelo texto escrito, o ex-comandante do DOI-CODI não deixa transparecer se foi afetado pela ação do tempo. O ex-militante deixa entrever que traz consigo as cicatrizes do que viveu. A força potencial desse confronto entre o militar e o militante dilui-se, porém, na miríade de breves depoimentos.

Uma funcionária da escola em que Henning Boilesen estudou, na Dinamarca, lê uma anotação feita no boletim dele sobre uma “briga no pátio em que Henning não estava envolvido mas se divertiu vendo as crianças de castigo, tendo que ficar em pé, encostadas no muro”. Vindo logo depois de ele ter sido descrito como um homem “cruel e sádico”, a inclusão do episódio da infância de Henning Boilesen pretende ter valor explicativo. Na verdade, não passa de uma tentativa simplória de decifrar sua personalidade. Cidadão Boilesen demonstra que um bom assunto não basta para fazer um bom documentário.

Em tempo: Cidadão Boilesen recebeu o principal prêmio do Festival de documentários É Tudo Verdade, em 2009.

Eduardo Escorel

Eduardo Escorel, cineasta, diretor de Imagens do Estado Novo 1937-45

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