esquina

Terror à argentina

Como matar dezesseis personagens com 7 mil pesos

Kelly Cristina
ILUSTRAÇÃO: ANDRÉS SANDOVAL_2013

O braço da mocinha tinha que descolar do corpo com um golpe de faca do psicopata, voar longe e esguichar sangue – detergente com colorante – por todos os lados. Mas o truque não funcionou. E não havia tempo para tentar outra vez. O jeito seria sufocá-la, decidiram os irmãos Quintana, diretores, roteiristas e produtores de Making Off Sangriento.

“Nem sempre dá para matar as pessoas como a gente previa no roteiro por causa do baixo orçamento”, disse mais tarde Gonzalo Quintana, o mais velho e falante dos irmãos, numa quitinete em Buenos Aires. Ainda assim, naquele filme eles conseguiram dar cabo de dezesseis personagens gastando apenas 7 mil pesos (cerca de 3 mil reais). Houve mortes para todos os gostos – por estrangulamento, esfaqueamento, decapitação, golpes de canetas e cadarços.

Making Off Sangriento relata a saga de um assassino obcecado em trucidar estudantes de cinema. O filme integra a onda de zumbis, serial killers, profetas do fim do mundo, assombrações e moças seminuas indefesas que invadiram a cinematografia argentina nos últimos anos. São curtas e longas-metragens de terror feitos de maneira totalmente marginal, produções capazes de encher de orgulho Zé do Caixão.

Os filmes raramente chegam ao circuito comercial, mas têm seus fanáticos, sua distribuição underground de DVDs e até mesmo um festival: o Buenos Aires Rojo Sangre, que teve sua 13ª edição no final de 2012. O evento começou num cineclube escondido e hoje ocupa três salas de um cinema do centro da cidade, com um público estimado em cerca de 10 mil espectadores. Além do filme dos irmãos Quintana, outros dois representantes argentinos – Todos Mis Muertos e 555 – concorreram ao prêmio máximo do festival, na seleção internacional de longas.



Eles competiram na mesma categoria, mas só um neófito diria que são todos filmes de terror. Na linguagem dos entendidos, Todos Mis Muertos é um zombie film, por motivos óbvios. Já 555, uma história de suspense sobre o fim do mundo, é um “thriller de ficção científica”. E Making off Sangriento é um slasher film, posto que seu protagonista é um assassino por atacado. A galeria de subgêneros inclui ainda as fitas góticas, as de terror psicológico, as comédias de terror e os gore films, com sua abundância de vísceras, sangue e outros fluidos.

Para o espectador pouco habituado, porém, muitos dos filmes do festival poderiam ser considerados comédias de terror. Por causa do baixo orçamento, raras produções independentes conseguem de fato provocar medo – as que chegam lá, como a famosa A Bruxa de Blair, não mostram cenas violentas de morte explícita, que dependem de um trabalho caro de efeitos especiais. Mas os cineastas argentinos deram um jeito de usar a limitação em seu proveito. “Quando os diretores perceberam que os espectadores riam em vez de ter medo das cenas de matança, resolveram investir nisso”, explicou Gonzalo Quintana.

A Farsa Producciones, precursora no ramo, faz muito uso desse recurso. Plaga Zombie 3 – Revolución Tóxica, lançado online em março do ano passado, é uma grande festa de esqueletos de plástico, próteses improváveis e mortos-vivos carismáticos que cospem uma tinta roxa duvidosa à guisa de sangue. Liniers, um dos mais famosos desenhistas argentinos, faz uma ponta no papel de um zumbi baboso de rosto amarelado.

O primeiro Plaga Zombie, produção caseira de 1997, foi pioneiro entre os filmes de zumbis argentinos. Mas nem todas as produções que seguiram o filão tiveram a mesma escassez de recursos. Todos Mis Muertos, por exemplo, ganhou um prêmio do Instituto Nacional de Cine y Audiovisuales argentino e foi filmado com um orçamento de 100 mil dólares – uma superprodução para o gênero.

 

Making Off Sangriento estreou no festival Rojo Sangre numa sala de exibição abarrotada. A equipe de produção e vários atores aguardavam com ansiedade: a maior parte deles nunca tinha visto o filme pronto.

Uma breve introdução foi feita pelo ator principal, conhecido pelo sugestivo nome de Marcelo Pocavida. É um punk excêntrico e legendário no underground argentino por suas apresentações musicais estrondosas, pontuadas por garrafas quebradas no palco. No filme, Pocavida interpretou um psicopata de cabelos longos e olhos esbugalhados. Filmados com profissionalismo, os assassinatos perpetrados por ele soavam verossímeis, ainda que não muito assustadores. Cada morte era aplaudida pelo público com entusiasmo crescente.

O assassinato mais festejado foi o do personagem do diretor Hernán Quintana. Num exercício sádico de metalinguagem, Hernán viveu – não por muito tempo – um cineasta que estava gravando um filme independente sobre um assassino serial. Intratável e arrogante – o oposto de sua personalidade real –, ele era secretamente odiado pelos outros personagens e teve o fim merecido. Fanático pelos filmes de terror e assassinatos em série, Hernán – que disse ter “muito carinho” por Freddy Krueger – comoveu-se ao ver a plateia ovacionar seu cadáver ensanguentado na tela.

O prêmio máximo do festival Rojo Sangre acabou indo para um filme chileno, En las Afueras de la Ciudad. Aclamado pelo público, Making Off Sangriento foi considerado o melhor roteiro pelo júri e melhor filme pelo voto popular. Nada mau para um longa cujo orçamento não foi suficiente para comprar mais de uma peça de vestuário para cada personagem. “Como não filmávamos de maneira linear, depois de cada cena com sangue você via os atores – que trabalhavam de graça – carregando um balde de água e sabão para lavar a própria roupa que teria que ser usada de novo, às vezes no mesmo dia”, contou Gonzalo. “Foi feito com muito amor e muito estresse.”

Kelly Cristina

Leia também

Últimas Mais Lidas

Estupro não é sobre desejo, é sobre poder

Em 70% das ocorrências de violência sexual no Brasil em 2019, vítimas eram crianças ou pessoas incapazes de consentir ou resistir - como na acusação contra Robinho na Itália

“Meu pai foi agente da ditadura. Quero uma história diferente pra mim”

Jovem cria projeto para reunir parentes de militares que atuaram na repressão

Engarrafamento de candidatos

Partidos lançam 35% mais candidaturas a prefeito nas cidades médias sem segundo turno para tentar sobreviver

Bons de meme, ruins de voto

Nomes bizarros viralizam, mas têm fraco desempenho nas urnas

Perigo à vista! – razões de sobra para nos preocuparmos

Ancine atravessa a crise como se navegasse em águas tranquilas, com medidas insuficientes sobre os efeitos da pandemia

Retrato Narrado #4: A construção do mito

De atacante dos militares a goleiro dos conservadores: Bolsonaro constrói sua história política

A renda básica, o teto de gastos e o silêncio das elites

Desafio é fazer caber no orçamento de 2021 um programa mais robusto que o Bolsa Família e mais viável em termos fiscais que o auxílio emergencial

A culpa é de Saturno e Capricórnio, tá ok?

Como Maricy Vogel se tornou a astróloga preferida dos bolsonaristas 

Mais textos
4

A metástase

O assassinato de Marielle Franco e o avanço das milícias no Rio

6

Do Einstein para o SUS: a rota letal da covid-19

Epidemia se espalha para a periferia de São Paulo justamente quando paulistanos começam a abandonar isolamento social

8

Assista a um trecho da mesa com Nikil Saval no Festival Piauí de Jornalismo

Nikil Saval é editor e membro da mesa diretora da revista literária n+1, revista de literatura, cultura e política, publicada em versão impressa três vezes ao ano.
Saval esteve em novembro no Festival Piauí de Jornalismo e conversou com os jornalistas Fernando de Barros e Silva e Flávio Pinheiro. 

9

Histórias da Rússia

Uma viagem pelo país da revolução bolchevique, cem anos depois

10

Em duas estratégias, um êxito e uma ópera trágica

Como a China barrou a transmissão do coronavírus enquanto a Itália tem mais mortes em metade do tempo de epidemia