esquina

Testes privilegiados

O dia em que a elite precisou recorrer aos serviços da saúde pública

Selma Inocência
ILUSTRAÇÃO: ANDRÉS SANDOVAL_2020

De Maputo

No início do ano, fui contratada pela Deutsche Welle, a rede pública de rádio e televisão alemã. Para mim, era um sonho profissional que se realizava. Viajei de Moçambique para a Alemanha em janeiro e passei o melhor inverno da minha vida. Dois meses depois da minha chegada, o novo coronavírus começou a se espalhar entre os alemães. Em 18 de março, a chanceler Angela Merkel alertou, num pronunciamento em rede nacional, que o país iria viver, a partir de então, um desafio equivalente ao de uma guerra mundial. Meu conto de fadas jornalístico se transformou num filme-catástrofe.

Rapidamente, os alemães, que hoje prezam tanto a liberdade, viram-se confinados em suas casas. As fronteiras foram fechadas e, em seguida, também foi restringida a circulação entre os estados. O medo se espalhou, e as ruas ficaram vazias. Alimentos e produtos de higiene desapareceram dos supermercados. Resolvi pedir autorização à Deutsche Welle para regressar ao meu país, onde, até aquele momento, não havia sido registrado nenhum caso de infecção.

Ao chegar à capital Maputo, em 21 de março, autoridades no aeroporto me disseram que eu deveria ficar catorze dias em quarentena, em minha casa. Anotaram meus dados pessoais e avisaram que iriam me telefonar em breve para saber se eu tinha sintomas da Covid-19.



Nunca ligaram. No terceiro dia depois do meu retorno, comecei a ter febre, dificuldade para respirar e dores nas articulações. Talvez tudo isso fosse produto da minha ansiedade, talvez fosse resultado de um contágio – eu não sabia ao certo.

Decidi fazer o teste do novo coronavírus. Nas redes sociais circulavam informações sobre clínicas privadas que cobravam 500 dólares (quase 3 mil reais), mas eu preferia realizá-lo no Instituto Nacional de Saúde, serviço público e gratuito, onde há um laboratório de referência.

Enviei um e-mail. A resposta do instituto me surpreendeu: em vez de marcarem o teste, disseram que eu deveria procurar um médico para tratar os sintomas. Mais tarde, ouvi dizer que, devido à pequena quantidade de testes disponíveis, a rede pública estava priorizando os doentes em estado grave. Mas Moçambique não tinha pacientes em estado grave. Não demorei a concluir que os testes estavam sendo feitos apenas num grupo de pessoas privilegiadas.

Como o país não tem um sistema de saúde, público ou privado, capaz de tratar todas as patologias, pessoas da elite econômica e política costumam resolver seus problemas em clínicas e hospitais do exterior, inclusive do Brasil. Com as fronteiras fechadas e as restrições de voos, essas mesmas pessoas tiveram que recorrer a uma solução doméstica, e dirigiram-se então à saúde pública, que não serve apenas a elas, mas a todos os cidadãos.

A experiência desagradável me levou a gravar um vídeo, veiculado pela Deutsche Welle, em que eu criticava a atitude das autoridades de saúde, sua falta de critérios claros sobre quem deveria fazer o teste e a decisão equivocada de vir a fazê-lo apenas em doentes graves (ignorando que os assintomáticos representam um grande risco). Também contei no vídeo que a elite moçambicana estava privatizando o serviço público em benefício próprio.

Quando faltavam três dias para eu terminar a quarentena obrigatória, um funcionário do Ministério da Saúde me telefonou. Disse que as autoridades reconheciam o erro sobre o meu pedido de teste e que uma equipe iria à minha casa para realizá-lo. Ele também garantiu que o teste não seria mais negado a ninguém no país.

 

Apesar das complicações nas testagens, as autoridades moçambicanas fugiram do otimismo irracional visto em países como Estados Unidos e Brasil. Quando ocorreu o oitavo caso de infecção, o presidente Filipe Nyusi imediatamente declarou estado de emergência no país – previsto para seguir até o final de maio. Logo após a comunicação pública de Nyusi, houve uma redução grande do número de pessoas nos principais espaços públicos de Maputo e outras cidades, embora isso não tenha ocorrido nas periferias da capital, onde o movimento continuou o mesmo. A medida de uso compulsório de máscaras em qualquer meio de transporte e em locais de aglomeração foi cumprida. Para alcançar as comunidades mais remotas, ONGs e mídias locais divulgaram mensagens de alerta sobre a doença nas mais de vinte línguas locais.

As populações adotaram soluções de baixo custo, como a produção de máscaras de capulana, tecido usado pelas mulheres como adereço e que tem múltiplas funções domésticas, incluindo a de pendurar o bebê nas costas. Galões com torneiras para a lavagem das mãos foram instalados à entrada de pequenos e grandes comércios, instituições e residências.

Os hospitais não estão sobrecarregados porque nenhum dos doentes de Covid-19 conhecidos precisou ser internado. No entanto, sabe-se que, se houver muitos casos graves, o sistema de saúde de Moçambique irá colapsar, pois já se encontra congestionado devido a outras doenças, como malária e Aids, que são as principais causas de internação e morte. Há aqui somente um médico para cada grupo de 18 mil pessoas e, quando surgiram os primeiros casos do novo coronavírus, o país dispunha de apenas 34 respiradores para uma população de 30 milhões de habitantes. Até 28 de maio, Moçambique tinha 227 pessoas infectadas (e uma morte), sendo que setenta estavam num acampamento da empresa francesa Total, que gere um negócio bilionário de exploração de gás na província de Cabo Delgado.

As medidas contra a Covid-19 atingiram fortemente os trabalhadores: mais de trezentas empresas, com cerca de 11 mil empregados, anunciaram a paralisação parcial ou total. O desastre foi ainda maior no setor informal, que concentra 80% dos trabalhadores (ou 7 milhões de pessoas), para os quais as diretrizes da quarentena foram economicamente devastadoras.

Os moçambicanos, contudo, são um povo resiliente, que sobreviveu à escravidão, ao colonialismo português, a dezesseis anos de guerra civil e a uma série de desastres naturais. Apesar do clima atual de incerteza e medo, eles estão empenhados em enfrentar a pandemia com a mesma tenacidade.

E antes que eu me esqueça: meu teste deu negativo.

Selma Inocência

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