esquina

Todos os caminhos levam à Casa Branca

Mas não tente visitar George Bush com um tubo de laquê

Sérgio Dávila
ILUSTRAÇÃO: ANDRÉS SANDOVAL_2007

O quadrado de concreto e vidro blindado não é diferente de outros quadrados de concreto e vidro blindado que recebem o visitante em prédios do governo nos Estados Unidos pós-11 de Setembro. Este, especificamente, é guardado por uma porta gradeada automática que dá para outra porta, blindada e automática. No intervalo entre as duas, há uma pequena sala de espera sem cadeiras, nem bancos, nada. Nessa saleta, em formato de “L”, com uns 3 metros de comprimento, o visitante espera de pé, ao ar livre. No horário marcado, não antes nem depois, uma lista atualizada aparecerá no computador do agente do serviço secreto uniformizado. Ele falará então por uma boca-de-lobo, como as de caixas de agência bancária: “Sobrenome, nome e número de seguridade social, por favor”. Se você estiver na lista daquele exato minuto – pois é o minuto o parâmetro de tempo para atualização da lista – e se tiver documentos que comprovem que você é você, basta passar pelo detector de metais, submeter os seus pertences ao raio-x e está feito: abrem-se as portas da Casa Branca.

Ou melhor, uma delas. Existe a porta que leva à Ala Oeste, a West Wing, onde o presidente dá expediente. Existe a porta da entrada principal da face norte, onde o primeiro-casal recebe as visitas oficiais. Existe a porta da entrada secundária da face sul, aonde o supremo mandatário pode ir com os amigos para fumar charutos, caso tenha amigos ou fume charuto, o que não é o caso de George W. Bush em pelo menos metade da frase. Existe a porta do prédio executivo anexo, onde batem o ponto 90% dos funcionários imunes ao vai-da-valsa de republicanos e democratas.

Muitas portas, raríssimas entradas, esse é o embaraço. E não adianta forçar. Milhões de americanozinhos são desmamados com as parlendas de que you too, se quiser e se esforçar, pode ser presidente dos Estados Unidos e um dia morar no número 1 600 da avenida Pensilvânia, em Washington.

Há no momento uns trinta pré-candidatos interessados em ocupar a cadeira de George W. Bush a partir de 2009. Os democratas Hillary Clinton e Barack Obama e os republicanos John McCain e Rudy Giuliani abrem a fila.

Os quatro são as celebridades ortodoxas, digamos assim, do grupo sempre renovado dos que almejam entrar na Casa Branca. Trata-se de uma comunidade informal que se divide em turmas de tamanho variado. A menorzinha, mas não a menos expressiva, é a dos malucos, como Frank Eugene Corder. Num domingo de 1994, depois de passar a noite na companhia do irmão, de litros de uísque e de uma sucessão de cachimbos de crack, o ex-marine roubou um Cessna p-150 do aeroporto de Aldino, em Maryland, e horas depois o fez se espatifar no gramado sul da residência presidencial. Espatifou-se junto. Bill, Hillary e a jovem Chelsea Clinton não se machucaram. Naquele dia, aliás, a família estava na casa vizinha, a Blair House, reservada aos convidados da Presidência.

Outra turma é a dos populares. Como até hoje os Estados Unidos tiveram 42 presidentes e a população do país é de 300 milhões de pessoas, a probabilidade de um moleque americano vir a ocupar o posto é seis vezes menor do que a de um brasileiro acertar na mega-sena, segundo a Caixa Econômica Federal. Isso não impede que pela cabeça dos outros 299 999 999 passe a idéia, menos trabalhosa, de apenas visitar o lugar. A poderosa maioria, entretanto, parece que se deixa levar por variáveis mais sensatas e/ou interesses mais candentes, pois todos os anos a Casa Branca recebe somente 1,5 milhão de pedidos de visita.

Os funcionários do White House Visitor Center – na verdade, uma tenda de lona branca armada na esquina sudeste das ruas 15 e E – repetem o que foram orientados a dizer desde o 11 de Setembro: visitas de populares, só em grupos de dez ou mais, desde que requisitadas com seis meses de antecedência. Quem for aprovado não pode levar mochilas, livros, bolsas, comida, bebida, câmeras, iPods, canetas, lápis, laquê, maquiagem, creme para as mãos, material de artes marciais, aerossóis, cigarros, charutos, estiletes, munição, armas nem fogos de artifício. Guarda-chuvas, carteiras, celulares e chaves de carro estão liberados. Mas atenção: os tours devem ser “patrocinados” por um membro eleito do Congresso. Não é por que o prédio é público que qualquer um pode ir entrando.

Ao primeiro presidente, George Washington, foi dada a prerrogativa de definir onde seria a capital do país e, nela, o lugar em que ficaria a residência oficial. Washington optou por um enclave às margens do rio Potomac. Decidiu que o lugar “não ultrapassasse os 260 quilômetros quadrados” e abriu um concurso público, um susto nos federalistas do Sul, que preferiam pôr uma ordem mais aristocrática nas coisas.

A idéia de George Washington era construir a residência de um morador entre vizinhos, sem segurança e aberta ao público, em contraste com palácios protegidos por uma guarda especial – os Estados Unidos haviam acabado de declarar independência da Inglaterra e queriam marcar posição. Ganhou o concurso um arquiteto irlandês, que projetou um bloco retangular de estilo georgiano tardio com 132 cômodos, 35 banheiros, 412 portas, 28 lareiras, oito escadas e nenhuma guarda.

Washington não chegou a morar na casa, que só ficou pronta para receber John Adams, em 1 800. Nas décadas seguintes, no entanto, seu desejo seria cumprido. Thomas Jefferson abria diariamente as portas principais para que os passantes entrassem e visitassem o andar térreo. Em ocasiões solenes, o povo era convidado a entrar. Em 1829, 20 mil pessoas cercaram a residência durante uma festa. A criadagem encheu banheiras com suco de laranja e uísque para recebê-las, mas o presidente Andrew Jackson saiu discretamente e pernoitou num hotel.

De um ano para cá, moradores de Washington passaram a levar forasteiros para tomar uma taça de vinho no terraço do Hotel Washington, na esquina das ruas 15 e F, de onde se podem observar os atiradores de elite (os snipers) postados no telhado da residência, nunca menos de dez soldados, todos vestidos de preto e deitados em pontos estratégicos, pernas abertas, olho no visor. Mas não só. Há guardas à paisana no Parque Lafayette, em frente, sentados folgadamente (lendo o jornal, talvez?) ou circulando como quem não quer nada (talvez parando na carrocinha de cachorro-quente?), como qualquer morador ou turista. Eles prestam muita atenção, é bom saber, em homem sozinho que carrega mochila nas costas e anda a passos rápidos. Recebem ordens de voltar imediatamente à base sempre que são descobertos – quando são “feitos”, na gíria policial – por um turista mais atento ou por um dos dois perenes manifestantes que montam guarda em frente à casa há 25 anos, quando o ocupante ainda era Reagan e a causa de protesto a corrida nuclear.

William Thomas e Concepción Picciotto se revezam em vigílias de doze horas cada um, numa barraca de lona montada a pouco mais de 100 metros do quarto de George W. e Laura Bush. Cercados por cartazes como “Viva pela bomba, morra pela bomba”, não dormem ali, o que os enquadraria numa lei local que proíbe morar em lugar público. Eles protestam, só isso. “Já vi de tudo”, diz Thomas. Por exemplo, pessoas que tentam pular a grade são agarradas pela polícia metropolitana, que também faz guarda ali, e escapam por um triz de morrer com um tiro seco e silencioso. Em milissegundos, os atiradores têm de julgar quem oferece risco sério e quem é apenas desajustado. De 1989 a 1994, 24 pessoas ameaçaram passar para o outro lado.

E houve o vôo 93 da United, que em 11 de setembro de 2001 atingiu o solo num descampado na Pensilvânia, matando todos os passageiros e a tripulação, assim como os três seqüestradores árabes que comandavam o vôo. Suspeita-se de que seu destino era a Casa Branca. Suspeita-se de que o avião tenha sido abatido por ordem do vice-presidente, Dick Cheney.

Sérgio Dávila

Editor-executivo da Folha de S. Paulo, é autor de 'Diário de Bagdá – A Guerra do Iraque Segundo os Bombardeados', pela DBA.

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