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Touchdowns no ABC

A batalha de São Bernardo Cougars contra Sorocaba Vipers

"Até que ficou bom, o campo", pensou em voz alta a mulher de um funcionário do Estádio 1º de Maio, em São Bernardo do Campo. Ela não sabia direito o que ia acontecer ali nem era de seu interesse. Tinha vindo apenas trazer o celular de seu marido desmemoriado.

Às 11h30 de um sábado ensolarado de novembro último, o estádio da Vila Euclides, palco de célebres assembléias de metalúrgicos do ABC, recebia, 28 anos depois, os últimos retoques para um evento igualmente histórico (pelo menos segundo seus organizadores): o primeiro jogo oficial de futebol americano no Brasil, disputado de acordo com as regras e medidas determinadas pela liga dos Estados Unidos. Os finalmentes consistiam em concluir a cabine de som e instalar a enorme embalagem inflável de um dos produtos patrocinadores da contenda. De jarda em jarda, iam se digladiar na arena o São Bernardo Cougars, o time da casa, e o Sorocaba Vipers. A pintura do gramado havia sido feita uns dias antes pelos próprios organizadores, a Federação Paulista de Futebol Americano (FPFA).

Hugo Bustilho, 26 anos, presidente da FPFA, e partidário do "Movimento Futebol Americano no Brasil: Eu Acredito", trabalha desde 2003 full time para fincar as bases da bola oval no país. Deixou para trás um canudo de educação física e três anos na Força Aérea. Enquanto tudo vai sendo checado pelo pessoal da federação e um bando de passarinhos dá rasantes no gramado recém-pintado, ele pondera: "Já gastei muito dinheiro e sei que vou gastar ainda mais, mas coloquei essa meta pra mim. Se até tal dia eu não conseguir profissionalizar esse esporte no Brasil, vou embora. Mas é claro que não eu conto que dia é esse…"

Ainda faltam cerca de quatro horas para a bola começar a rolar. Quer dizer, rolar é modo de dizer, já que bola de futebol não faz dessas coisas. Bustilho as conhece há tempos. Acompanha o esporte desde que cruzou com ele na TV Bandeirantes, aos 12 anos. Como era proprietário de um boné escrito "Chicago", acabou gostando de todos os times da cidade. No beisebol, virou Chicago White Sox. No basquete, é Chicago Bulls. No futebol americano, torce para o Chicago Bears. E no futebol brasileiro? "Ah, aí eu sou Santo André mesmo."



A boa organização garantiu entrada gratuita, sorteio de brindes e show de um cover de Elvis Presley. Fez o possível, mas o esporte ainda sofre as agruras do parto. Por exemplo, nem todos os jogadores possuem capacete (o uniforme completo de cada jogador, que é importado, custa algo em torno de 500 reais) e o time de Sorocaba, quando chegar, provavelmente não terá tempo de se aquecer. O esporte também é flexível no quesito nutrição: a dieta dos atletas será a base de esfirras encomendadas num Habib’s da vizinha Santo André.

O sol continua forte quando os primeiros espectadores se aprumam nas arquibancadas. "Não esquece de falar pro pessoal pegar leve. Isso aqui é entretenimento!", berrava pelo rádio Marcos Granado, diretor de marketing e assessor de imprensa da federação. O recado se endereçava aos jogadores do São Bernardo Cougars, que acabavam de chegar. "Comecei jogando basquete, mas fui convidado a me retirar", relembra o presidente Bustilho, depois de congratular a intervenção de seu diretor de marketing. "É que arrumei confusão, atirei uma mesa na torcida. Aí a federação me pôs para fora. Tentei o rúgbi, mas não gostei. E aí caí no futebol americano." Tomou gosto pelo esporte e decidiu organizar a bagunça.

"Cadê as cheerleaders?!", grita um dos trinta e poucos integrantes do São Bernardo Cougars. O que havia ali de mais parecido com animadoras de torcida era um grupo de dançarinas das Faculdades Integradas de Santo André. Bastou uma olhadela nas moças para os jogadores da casa capricharem no aquecimento, mesmo depois de castigados pelo DJ, que interrompeu uma seqüência de rocks clássicos para colocar "What a Feeling". "Ô música de boiola!", praguejou um jogador. E, já no aquecimento, corrida para lá, lançamento para cá, algumas trombadas bisonhas atiçaram as primeiras manifestações nervosas na torcida: "Tá calçando uma havaiana na mão, porra?", berrou um senhor de boné vermelho.

É chegada a hora do Hino Nacional. Ouviram e cantaram cerca de 300 pessoas, entre famílias munidas de lanches e refrigerantes de dois litros, jovens casais, crianças e as duas equipes. Essa partida-exibição é a primeira das quatro etapas do Circuito Paulista de Futebol Americano, uma espécie de laboratório para o primeiro campeonato oficial, a ser realizado em setembro de 2008, que poderá contar com equipes do porte de um Santo André Huskies, Mauá Wild Horses, Itatiba Priests, Santos Black Sharks e os paulistanos Sampa Red Warriors e Hades Nightmare. Enquanto o jogo não começa e a organização sorteia os brindes, o cover de Elvis Presley domina o microfone com versões de músicas como "Suspicious Mind". Silêncio. O moço ameaça a platéia: "Se não aplaudirem, eu canto de novo!"

Começa o espetáculo. Vestido a caráter, Hugo Bustilho é de agora em diante o principal juiz da partida. O time da casa não consegue se encontrar e o primeiro tempo termina com o placar de 19 a 0 para os visitantes. Desesperados, alguns jogadores do Cougars xingam o juiz. Um deles esboça uma estratégia alternativa: "Não quero passar vergonha em casa… Vamos bater nesses caras!" Enquanto isso, torcedores repetiam aos brados um mantra guerreiro: "Ahá! Uhu! Vá tomar no Cougars!"

O segundo tempo não poderia ser pior para o time da casa. Os Cougars foram obrigados a engolir mais penalizações, expulsões e uma nova saraivada de touchdowns (a jogada que dá mais pontos: seis). Era fim de tarde e boa parte do público tinha saído no intervalo para cuidar da vida. Não viram o banho literal que o Vipers levou quando o relógio bateu 6 da tarde e as mangueiras que regam o gramado ligaram automaticamente logo atrás do banco de reservas. Também não viram o cachorrinho do vigia entrar no campo e encrespar feio com um jogador do Cougars. Nem devem ter ficado sabendo que o placar se encerrou em 41 a 0. Talvez o Cougars devesse tentar o beisebol.

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