despedida

Três elefantas

Luto e compaixão num santuário animal de Mato Grosso

Roberto Kaz
Guida, com Maia ao fundo. “Ela liderava a dupla. Agora a Maia está tendo que se redefinir”
Guida, com Maia ao fundo. “Ela liderava a dupla. Agora a Maia está tendo que se redefinir” CRÉDITO: SCOTT BLAIS

A história foi noticiada em emissoras de tevê, sites e jornais. No dia 24 de junho, uma segunda-feira, a elefanta asiática Guida amanheceu imóvel, a poucos metros de um córrego na Chapada dos Guimarães. “No dia anterior, ela estava ótima, brincando”, contou o norte-americano Scott Blais, que preside o santuário em Mato Grosso onde Guida morava. “Mas naquela segunda-feira notei que alguma coisa não ia bem. Era como se ela já não dominasse os movimentos do próprio corpo.” Preocupado, Blais usou uma retroescavadeira para abrir caminho diante da elefanta inerte, na esperança de que isso a ajudasse a sair do lugar. Guida conseguiu dar mais dois passos e deitou-se sobre um monte de terra. Minutos depois, a respiração dela parou. Presume-se que o animal tivesse 47 anos (há casos registrados de elefantes que chegaram aos 65).

Foi em 2016 que Guida desembarcou no Santuário de Elefantes Brasil, então recém-criado por Blais e pela publicitária paulistana Junia Machado. A fêmea estava junto de uma segunda elefanta, Maia, que a acompanhava desde 1975, quando as duas vieram da Europa para o Brasil, ainda filhotes, a bordo de um navio. Durante as três décadas seguintes, a dupla trabalhou num circo, o Portugal, fazendo números de dança. Em 2010, quando a trupe se apresentava em Salvador, Guida e Maia foram alforriadas por uma liminar expedida pela Justiça da Bahia. Elas passaram por um zoológico e uma fazenda antes de chegarem ao santuário.

Ao longo de duas semanas, em outubro de 2016, acompanhei a viagem que Guida e Maia fizeram de uma fazenda em Minas Gerais, onde viviam acorrentadas, até o santuário, onde conheceram a “liberdade” (a palavra vem entre aspas porque um santuário nada mais é do que um cativeiro, ainda que amplo e saudável). “Quarenta e um anos depois de serem retiradas de suas famílias, forçadas a cruzar o Atlântico de navio, obrigadas a aprender truques de circo e sujeitas a viver acorrentadas, elas puderam escolher onde, como e quando caminhar”, escrevi. “Cumprimentaram-se [no santuário] com um enroscar de trombas, esfregaram-se uma na outra, vocalizaram. Depois, cada qual tomou um rumo.”

Nunca mais voltei a vê-las, mas soube que haviam se adaptado à nova vida. Com fama de agressiva, Maia passou a se comportar de maneira mais gentil, segundo Blais. Já Guida, que era magra e pequena, ganhou cerca de 500 quilos, o que a ajudou a perder a insegurança. “Elas se tornaram cada vez mais próximas”, lembra. “Adoravam-se, ainda que uma não dependesse da outra.”

 

Elefantes são extremamente emotivos e sociáveis. Na natureza, formam grupos matriarcais, em que várias fêmeas se auxiliam na criação dos mais jovens. Sentem tristeza, alegria, raiva e compaixão – até por animais de outra espécie. No santuário do Tennessee, onde trabalhou antes de se mudar para o Brasil, Scott Blais conviveu com Tarra, que não desgrudava de uma vira-lata chamada Bella. A paquiderme ficou três semanas parada diante de um centro veterinário quando a cadela precisou tratar um problema na coluna.

Elefantes também estão entre os poucos bichos que adotam rituais fúnebres. Usam a tromba para tocar em ossadas de outros elefantes e chegam a depositar folhas e gravetos sobre os mortos. Por isso, Blais fez questão de que Maia passasse pelo menos 24 horas ao lado de Guida antes que a enterrassem. “Ela a cheirou bastante. Depois pegou um pouco de feno que havia por perto, colocou junto da companheira e ficou comendo em silêncio.” No dia seguinte, Maia foi levada para outro viveiro enquanto a equipe do santuário cavava um buraco no local onde as duas moravam. A autópsia, realizada dentro da cova por um patologista da Universidade Federal de Mato Grosso, não conseguiu precisar a causa da morte. “Provavelmente a Guida sofreu um derrame cerebral”, disse Blais.

Nos dois meses posteriores à morte, Maia permaneceu mais quieta, à semelhança de “qualquer pessoa em processo de luto”, nas palavras do norte-americano. “A Guida liderava a dupla. Então a Maia está tendo que se redefinir.” Recentemente, ele a viu correndo em círculos, como fazia com a amiga.

Por sorte, em dezembro do ano passado, o santuário recebeu Rana, sua terceira moradora, que passou a dividir com Maia e Guida o terreno cercado de 30 hectares. A história era a de sempre: fêmea asiática, raptada na infância e aprisionada em circo, zoológico e hotel-fazenda. Apesar de já ser uma senhora com mais de 50 anos, Rana ficou excessivamente eufórica ao encontrar as outras duas elefantas. “Ela não deixava a Maia e a Guida sozinhas”, recordou Blais. “Era aquela vizinha inconveniente, que sempre bate na porta e pede para entrar.”

O começo, portanto, se revelou algo conturbado. “Esses animais não aprenderam as regras sociais. Não tiveram mãe, irmã ou amiga que pudesse lhes ensinar como conviver.” A intromissão de Rana fez com que Maia e Guida ficassem ainda mais próximas. “Acho que elas sentiram medo de perder o que finalmente haviam construído, depois de tanta adversidade.”

Com o tempo, Rana entendeu que Maia e Guida tinham estabelecido uma dinâmica própria, que exigia um pouco de espaço. “Tanto é que, agora, a Rana não está forçando a barra. Ela e a Maia interagem, passam alguns momentos juntas e depois se separam.” Blais percebe que, às vezes, as duas se comunicam a distância, por roncos, gritos e rugidos. “É como se a Rana perguntasse: ‘Ei, Maia, tudo certo por aí?’ E a Maia respondesse: ‘Sim, tudo indo’”, comparou. “Depois cada uma volta para sua rotina.”

Roberto Kaz

Roberto Kaz

Repórter da piauí, é autor do Livro dos Bichos, pela Companhia das Letras

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