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Tropa de elite

Um pedreiro, uma auxiliar de cozinha e outros soldados improvisados do Pinheirinho mostram suas armas e suas caras

Filipe Redondo e Gabo Morales
Em janeiro de 2012, a Tropa de Elite se preparava para resistir à iminente ação de reintegração de posse no bairro do Pinheirinho, na cidade de São José dos Campos
Em janeiro de 2012, a Tropa de Elite se preparava para resistir à iminente ação de reintegração de posse no bairro do Pinheirinho, na cidade de São José dos Campos FOTO: NILTON CARDIN

A ajudante de cozinha Gina Maria de Souza Lima tem 49 anos, 1,50 metro de altura e sofre de asma. O aposentado Wilson Louriano da Cruz, aos 65, reclama do fôlego curto quando é obrigado a fazer exercícios. O pedreiro Adailton Rodrigues, com pouco mais de 40, admite estar acima do peso ideal. Gina, Wilson e Adailton faziam parte da Tropa de Elite.

O grupo, composto por não mais do que uma centena de moradores da comunidade do Pinheirinho, em São José dos Campos, a cerca de 100 quilômetros da capital paulista, ganhou as primeiras páginas dos jornais em janeiro de 2012. Na época, apareceram para as fotos com fardas improvisadas – capacetes de moto, caneleiras de PVC, escudos feitos de lata – e com armas artesanais – barras de ferro, lanças, pedaços de pau com pregos, facões. A linha de frente coesa, com os escudos alinhados e as lanças erguidas, não deixava de lembrar a formação de soldados romanos ou atenienses numa divisão militar da Antiguidade.

O grupo adotou o nome do filme que celebrizou o Bope, o Batalhão de Operações Policiais Especiais da Polícia Militar fluminense. O que não os impedia de identificar as forças repressivas do Estado como seu grande inimigo. Prometiam defender o bairro que haviam começado a construir oito anos antes, e onde moravam cerca de 6 mil pessoas, de qualquer tentativa de desocupação e reintegração de posse.

O terreno, com mais de 1,3 milhão de metros quadrados – tamanho próximo ao do Parque do Ibirapuera, em São Paulo, ou ao Aterro do Flamengo, no Rio –, havia sido invadido pelos sem-teto em 2004 e pertencia à massa falida da empresa Selecta, de propriedade do investidor Naji Nahas. Detido em 2008 durante a Operação Satiagraha, acusado de evasão de divisas, Nahas já havia sido condenado à prisão por operações financeiras ilegais realizadas no final da década de 80 – durante o processo, sua empresa foi à falência, levando ao abandono da propriedade em São José dos Campos. Em 2004, a Justiça o considerou inocente das acusações.

Pouco mais de uma semana depois da revelação da existência da Tropa de Elite, a comunidade do Pinheirinho foi tomada à força, numa operação que mobilizou 2 mil policiais e terminou com os moradores despejados. Oficialmente, o cumprimento do mandado de reintegração de posse, no dia 22 de janeiro de 2012, deixou nove pessoas feridas, uma delas com um tiro de revólver. Ao chegar de surpresa ao terreno, na madrugada de domingo, a polícia usou bombas de gás lacrimogêneo e disparou balas de borracha contra a população. Há relatos de agressões realizadas pelos policiais e pela guarda civil municipal. Pegos desprevenidos, os integrantes da Tropa de Elite nem chegaram a se reunir para o anunciado combate.

 

“Eu fiquei com aquela imagem na cabeça”, explica o fotógrafo Gabo Morales, ao falar sobre a milícia informal do Pinheirinho, perfilada com seus capacetes, escudos e paus. “Um grupo de pessoas pobres, com quase nada, decide fazer um exército para defender o lugar em que vive. É uma iniciativa que me fascina. A que ponto eles chegaram, para ter essa atitude?”

No final do ano passado, Gabo Morales e o colega Filipe Redondo procuraram os líderes da antiga ocupação para tentar retratar “soldados” da Tropa de Elite. Muitos já haviam se mudado da cidade, mas Redondo e Morales conseguiram reunir ex-integrantes do exército de sem-teto que ainda vivem em São José dos Campos. Cada um foi fotografado com as roupas civis com que compareceram às sessões – e também com o traje que usavam na tropa. O fardamento e as armas, perdidos durante a invasão policial, precisaram ser refeitos para a maioria dos retratados. Morales afirma ter procurado manter a maior fidelidade possível ao equipamento original. Dois dos ex-integrantes, o aposentado Wilson Louriano e a auxiliar de cozinha Gina, conseguiram guardar o aparato usado em 2012, e com eles posaram para as fotos.

Gina conta que começou a treinar com a tropa cerca de três meses antes da invasão. O grupo se formou no segundo semestre de 2011, quando a Justiça passou a se movimentar de forma mais célere, indicando que a desapropriação se aproximava. Em novembro, a ação policial já parecia iminente.

“A coordenação chamou o pessoal para treinar”, conta Gina, referindo-se às lideranças do Must, o Movimento Urbano dos Sem Teto, que organizava os moradores do Pinheirinho. “A gente treinava igual polícia. Quem orientava era um guarda que já tinha trabalhado um tempo com isso.”

Os voluntários acordavam às quatro da manhã para aprender técnicas de ataque e defesa. Dividiam-se em grupos com funções táticas específicas dentro de cada pelotão. Na frente, ia o pessoal com os escudos e as lanças. Logo atrás vinham os responsáveis por arremessar os coquetéis molotov. Por último, atiradores de bolas de gude envoltas em pólvora, munidos de estilingues.

Louriano explica a importância do treinamento. “Se jogar o coquetel molotov de qualquer maneira, pega no próprio companheiro que está na frente. A gente treinava para jogar por cima.”

Ninguém ignorava que seriam facilmente superados, pelo menos em número de combatentes, pela polícia. Mas Juarez Silva dos Reis, catador de lixo reciclável e um dos líderes da ocupação, argumenta que não era só da Tropa de Elite que se esperava resistência. O grupo iria na frente, “mas o povão vinha atrás, com facão, pedaço de pau, barra de ferro”.

Gina diz que, no início dos treinamentos, a tropa era composta por umas 600 pessoas. “Mas depois deu uma diminuída. No final, acho que tinha umas sessenta, setenta.” Por que diminuiu? “Medo.”

No início de janeiro, o temor de uma invasão policial aumentou, e o treinamento foi intensificado. No dia 19, uma boa notícia. Moradores e representantes da massa falida da Selecta, dona do terreno, haviam chegado a um acordo. A ordem de reintegração de posse seria suspensa por 15 dias. Líderes dos sem-teto acreditavam que a trégua permitiria que o governo federal interviesse, a seu favor. No sábado, dia 21, parlamentares de esquerda visitaram o Pinheirinho e disseram ter garantias de que a invasão não aconteceria nas semanas seguintes.

“Foi quando a tropa relaxou”, conta Juarez. “A gente já dava como certa a nossa vitória. O povo jogou os materiais, capacetes, tudo lá no meio do acampamento. E foi dormir, naquela noite de sábado, mais tranquilo. Eu não dormi tão tranquilo assim.”

Na madrugada de domingo, Juarez acordou cedo para ir à igreja. “Começou aquele movimento de helicóptero. Eu falei para a minha mulher: ‘A coisa tá feia aí, tem surpresa.’ Saí de casa e já dei de cara com a tropa de choque.” Não houve chance para a Tropa de Elite.

Expulsos do Pinheirinho, muitos dos ex-moradores continuam a frequentar assembleias do movimento de sem-teto. O poder público promete, desde o ano passado, a construção de casas para a população expulsa da antiga propriedade de Naji Nahas. O anúncio oficial do empreendimento, uma parceria entre as três esferas de governo, ainda não havia sido feito até o final de janeiro. “Prometeram para dezembro, depois janeiro, agora é fevereiro”, reclamou Gina.

Em outubro do ano passado, num depoimento para Gabo Morales e Filipe Redondo, o líder Juarez avisava: “Se não acontecer, o objetivo é voltar para o Pinheirinho. Reocupar. Reocupar, ficar, resistir e só sair de lá morto. Esse é o pensamento do povo.”

Filipe Redondo e Gabo Morales

Filipe Redondo e Gabo Morales são fotógrafos baseados em São Paulo e fazem parte da Trëma, um coletivo de fotografia documental.

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