esquina

Túlio tenta

Pelos 1 001, aos 49

Luigi Mazza
ILUSTRAÇÃO_ANDRÉS SANDOVAL_2018

A bola já corria havia 21 minutos quando Túlio Maravilha a recebeu pela primeira vez. Com a braçadeira de capitão e chuteiras verde-néon, o jogador de 49 anos era a estrela do Atlético Carioca, que disputava a série C do Campeonato Carioca, a quarta divisão estadual. Seu time perdia de 2 a 0 do Paduano Esporte Clube, o chamado Trovão Azul. Num contra-ataque rápido, o volante Galvane serviu o atacante João Victor, que cabeceou na direção de Túlio. Um zagueiro chutou o vento quando a bola passou por seus pés e ela sobrou para o centroavante, agora com o caminho livre para o gol. O veterano se deslocou com lentidão e ajeitou-a com o pé direito. Antes que pudesse dar um novo toque, foi cercado por dois adversários e caiu desajeitadamente. O lance durou cerca de cinco segundos.

O tombo do ídolo alvoroçou a torcida no Estádio Municipal Alziro de Almeida, em Itaboraí, na Região Metropolitana do Rio de Janeiro. Alugado pelo Atlético Carioca, o Alzirão tem capacidade para receber 900 torcedores, mas só cerca de cem compareceram naquela tarde chuvosa de segunda-feira. Túlio ainda tocou outras duas vezes na bola, ambas para recomeçar a partida após sua equipe sofrer novos gols. Ao final do primeiro tempo, pediu para ser substituído. O placar registrava 4 a 0 para o Paduano.

Aquela era a segunda partida de Túlio pelo Atlético Carioca. O centroavante tentava marcar o que seria seu milésimo primeiro gol: ele diz ter marcado mil tentos ao longo da carreira, numa contagem que inclui jogos-treino e partidas comemorativas – não falta quem julgue a soma exagerada. Em março deste ano, o artilheiro interrompeu a aposentadoria para fazer o que ele chama de “gol superação”.

Com cabelos ralos e o torso musculoso, Túlio destoava de seus companheiros, na maioria rapazes franzinos na faixa dos 20 anos. Aos 49, ele é o jogador profissional mais velho em atividade no Brasil (o recorde reconhecido pela Fifa é do japonês Kazu, que defende o Yokohama FC aos 51). Ao final da partida, o atacante reconheceu que estava difícil alcançar seu objetivo. “Pelo estilo de jogo, eu poderia ficar ali até dois, três dias que não faria o gol”, afirmou. “A bola não chega.”

Do banco de reservas, Túlio viu sua equipe ser derrotada por 8 a 1, resultado que sacramentou a eliminação do Atlético Carioca com uma rodada de antecedência. Após o sexto gol, um funcionário do estádio precisou buscar novas placas num depósito para atualizar a contagem tão elástica. “A gente sabia que, pelo pouco tempo de treino, seria difícil”, ponderou o centroavante antes de entrar no vestiário, seguido por admiradores. “O importante é que a mídia foi feita.”

 

O goianiense Túlio Humberto Pereira Costa ganhou da torcida do Botafogo o apelido de Túlio Maravilha em 1994. Pelo alvinegro carioca, venceu o Campeonato Brasileiro do ano seguinte, o principal título de sua carreira – seu cartel inclui do Campeonato Suíço conquistado pelo Sion em 1992 à terceira divisão do Campeonato Goiano, caneco que levantou pelo Itauçuense, atual Nerópolis, em 2006. O artilheiro defendeu 29 times até se aposentar em 2014, incluindo o Tanabi, o Vilavelhense e o Araxá.

O Atlético Carioca, seu trigésimo clube, foi fundado em 2012 e, apesar do nome, é sediado no município fluminense de São Gonçalo. Estreou este ano na série C do estadual, seu primeiro torneio profissional. Em março, anunciou a contratação de Túlio Maravilha, por iniciativa do presidente Maicon Villela, um botafoguense fanático de 32 anos cujo sonho era contratar o ídolo. Sete patrocinadores custearam a contratação por um valor não divulgado – segundo Túlio, para “não criar desconforto na garotada”.

O atacante se tornou a razão de existir do clube. A camisa listrada alvinegra de número 95 – homenagem ao título conquistado pelo Botafogo – é a única vendida no site do time, por 95 reais (mais de 800 unidades já tinham escoado até setembro). Para cobrir os custos de disputar a série C, os demais jogadores – que não recebem salário – foram encarregados de vender cinquenta camisas, estimulados por uma comissão (as exceções foram o atacante João Victor e o meia Geovane, poupados por já terem atuado como profissionais). “Isso é um incentivo para o jogador”, justificou Villela. “Eles sabem que o time é uma vitrine.”

Mesmo eliminado, o Atlético Carioca ainda jogaria contra o São José na última rodada da primeira fase no dia 2 de setembro – a chance derradeira de Túlio fazer o almejado gol. Às vésperas da partida, porém, a equipe adversária foi suspensa por não ter quitado uma dívida de 15 mil reais com a federação estadual de futebol. Sem oponente, o jogo foi cancelado, e o Atlético Carioca, declarado vencedor por W.O. “Se eu soubesse disso, teria pagado a dívida só para o jogo acontecer”, lamentou Túlio.

 

Situado nas imediações do Centro histórico de Itaboraí, o Alzirão tem muros azuis baixos e foi erguido ao lado de um cemitério. Diante do estádio fica o hotel em que Túlio se hospedou durante a temporada. O quarto espaçoso no 9º andar já estava praticamente vazio na noite de 31 de agosto, quando o jogador recebeu a piauí. Na manhã seguinte voaria para Goiânia, onde mora com a mulher e os filhos.

O artilheiro disse que tinha o gol 1 001 projetado na mente. Dessa vez, não seria de pênalti, como o milésimo. “Talvez um cruzamento ou uma bola rebatida pelo goleiro. Estádio cheio, segunda vitória no campeonato”, vislumbrou. Trajando o uniforme do time, Túlio rebateu as críticas à contagem dos mil gols – feita por ele mesmo, sem respaldo em registros oficiais. “Se botar na ponta do lápis, nem eu, nem Romário, nem Pelé chegamos a mil. Fizemos, no máximo, uns 800”, alegou. “Pode não ter súmula, não ter nada, mas, se botou a camisa do time, está valendo.”

Túlio não desistiu da meta e está negociando uma extensão de contrato com o clube para o ano que vem. Quer se despedir do futebol e comemorar os 50 anos que completará em junho, às vésperas do início da série C. “É uma idade bonita para parar”, refletiu. No que depender dele, a contagem irá além do gol superação. “De preferência, vou me aposentar com um múltiplo de cinco, porque tenho cinco filhos”, afirmou. “Mas, se eu fizer 1 003, faz parte.”

Luigi Mazza

Luigi Mazza é estagiário do site da revista e produtor da rádio piauí

Leia também

Últimas Mais Lidas

O candidato do colapso

Poder de Bolsonaro nasceu da devastação social e dela dependerá

E se o Brasil sair do Acordo de Paris?

O que Bolsonaro precisa fazer para abandonar o tratado climático, e como o recuo ameaça a parceria comercial bilionária com a União Europeia

Correndo riscos

Eficiente na campanha, o medo não serve a Bolsonaro para governar o país

Buscas por “Fascismo” batem recorde no Google

Curiosidade atingiu o auge no domingo da eleição, com dez vezes mais pesquisas do que a média; "Jair Bolsonaro" é um dos principais assuntos relacionados

Os formadores da onda

SuperPop, comunismo e Lava Jato: sete eleitores de uma mesma família no Rio de Janeiro enumeram as razões por que votam em Bolsonaro

Bolsonaro e a tirania da maioria

País que exige ficha limpa de políticos desdenha da ficha democrática

Maria vai com as outras #10: Fim da temporada – Divisão sexual do trabalho

No último episódio desta temporada, a jornalista e escritora Rosiska Darcy de Oliveira fala dos primórdios do movimento feminista no Brasil e no mundo, do exílio durante a ditadura e do seu livro "Reengenharia do Tempo", sobre a divisão sexual do trabalho.

A imprensa precisa fazer autocrítica

Foram anos tratando o inaceitável como controverso ou mesmo engraçado

Bolsonarismo não é partido

Democracia brasileira depende de petismo e antipetismo se organizarem em siglas que se respeitem

O lado M da eleição

Mulheres negras no poder são o outro destaque das urnas

Mais textos
1

Vivi na pele o que aprendi nos livros

Um encontro com o patrimonialismo brasileiro*

2

O fiador

A trajetória e as polêmicas do economista Paulo Guedes, o ultraliberal que se casou por conveniência com Jair Bolsonaro

3

Medo por medo, dá Bolsonaro

Datafolha mostra que PT não projeta sonho mas continuísmo

4

A imprensa precisa fazer autocrítica

Foram anos tratando o inaceitável como controverso ou mesmo engraçado

5

O PT em segundo lugar

Ameaça autoritária exige pacto de refundação institucional

6

A festa que Bolsonaro cancelou

O PSL enviou 300 convites para celebrar a vitória já no primeiro turno, num hotel na Barra da Tijuca. No fim, sobrou para aliados justificar por que não ganhou

7

Os formadores da onda

SuperPop, comunismo e Lava Jato: sete eleitores de uma mesma família no Rio de Janeiro enumeram as razões por que votam em Bolsonaro

8

Bolsonarismo não é partido

Democracia brasileira depende de petismo e antipetismo se organizarem em siglas que se respeitem

9

O candidato da esquerda

Pouco conhecido, sem nunca ter feito vida partidária ou disputado votos, o ministro Fernando Haddad parte em busca dos militantes do PT, dos paulistanos e da prefeitura

10

A acusadora

Como a advogada Janaina Paschoal, uma desconhecida professora da USP, se transformou em peça-chave do impeachment