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Última lágrima

O triste fim de um café portenho tradicional, pero decadente

Carol Pires

Na terceira segunda-feira de agosto, Luis Alberto Angel acordou cedo, arrumou-se com o aprumo de sempre e seguiu para o batente. Tomou o metrô, saltou na estação Florida e caminhou precisos 67 metros até chegar ao número 468 daquela rua, onde fica a Confitería Richmond. Essa era sua rotina desde a manhã de 3 de maio de 1971, uma segunda-feira. Aquele foi seu primeiro dia de trabalho. Tinha 17 anos.

Foi um tio por parte de pai quem lhe conseguiu o emprego de coqueteleiro naquele café histórico de Buenos Aires. Por dois anos trabalhou atrás do balcão fazendo drinques, até ganhar experiência para deslizar pelo salão de jogos do subsolo carregando bandeja e café quente, por entre as mesas de bilhar e xadrez nas quais intelectuais mediam suas forças. O expediente era de segunda a sexta, com plantão sábado sim, sábado não. Bem humorado, forte e tenaz, Angel nunca cabulou um dia de trabalho.

Em quatro décadas, Angel casou-se, teve quatro filhos, enviuvou, ganhou um par de óculos para corrigir seu astigmatismo, perdeu o cabelo, mudou-se de casa nove vezes, mas nunca de emprego. Naquela segunda-feira, contudo, ao chegar à Richmond quarenta anos, três meses e doze dias depois de seu primeiro dia de trabalho, pela primeira vez encontrou as portas do estabelecimento trancadas.

Do lado de fora do café, encontrou os colegas de braços cruzados e feições incrédulas. Os vidros haviam sido pintados de branco desde a noite de sábado, quando largara o serviço às 21 horas. Na porta, um ofício afixado informava que o salão estava fechado para reforma até novo aviso. “ Fugiram com meu dinheiro, perdi 40 anos de trabalho, perdi tudo”, pensou o garçom, à beira de uma síncope.

Projetada pelo belga Julio Dormal, a Confitería Richmond foi inaugurada em 1917. O estilo inglês foi conservado nos últimos 94 anos: paredes revestidas em painéis de carvalho vermelho, poltronas Chesterfield de couro nos salões e lustres holandeses em bronze e opala. Em 1924, a Sociedade Rural Argentina montou uma sede ali do lado, e políticos e aristocratas passaram a frequentar a Richmond na hora do almoço. No fim dos anos 20, a revista literária Martín Fierro montou sua redação na esquina de Florida com Tucumán, levando o jovem Jorge Luís Borges e alguns comparsas a fazerem da Richmond a sede de saraus do Grupo Florida, regados a muito Fernet.

Até a Hollywood a confeitaria chegara, como cenário para o filme A História Oficial, de Luis Puenzo, Oscar de melhor filme estrangeiro em 1986. O reconhecimento internacional foi sacramentado em 1998, quando a Richmond ganhou espaço cativo nos guias turísticos de todas as confissões depois de ser considerada um ambiente “elegante, bem frequentado e cordial” numa resenha do New York Times.

Com a crise que abalou a Argentina na última década, a rua Florida deixou de ser um point da alta sociedade para abrigar uma fauna menos qualificada. O café manteve-se como pôde, sobrevivendo das glórias de antanho, mas os sinais do aperto saltavam aos olhos – dos empregados, ao menos. No início de 2011, o gerente confiou a Angel e outro garçom o atendimento do salão de jogos, com nada menos que 15 mesas de bilhar, quatro de sinuca e 30 tabuleiros de xadrez no salão de jogos. Em maio, o salão foi fechado para reformar as mesas e Angel foi deslocado para o térreo. Nos seis meses seguintes, o contingente foi reduzido ao mínimo operacional: dos 40 funcionários, quedaram-se apenas 14 para cobrir os 1.500 metros quadrados do café.

 notícia de que a Richmond andava mal das pernas correu a cidade e chegou à Assembleia Legislativa portenha que, às pressas, incluiu-a no rol de “cafés notáveis” da capital em meados de agosto, para proteger o estabelecimento de possíveis alterações arquitetônicas. No sábado em que Luís Angel serviu pela última vez os proverbiais cortados (café com um pouco de leite) e lágrimas (leite com um pouco de café), alguns deputados e entusiastas colocaram na fachada uma placa de mármore com o título de “Lugar de Interesse Histórico da Cidade” e deram um abraço simbólico no prédio.

Na madrugada de sábado para domingo, no entanto, com a cidade esvaziada pela lei seca devido às eleições primárias de domingo, um caminhão estacionou na porta da Richmond e a mobília foi toda levada embora. Desconsolados, Angel e os outros garçons pediram amparo ao sindicato de trabalhadores de turismo, hotelaria e gastronomia. Incapazes de localizar os antigos donos do café, acionaram a imprensa para documentar uma invasão ao café.

Com a ajuda de seis sindicalistas, os 14 funcionários abandonados romperam o cadeado e irromperam no salão. Para seu grande dissabor, nem as roupas, nem o dinheiro deixados à chave nos armários pessoais dos garçons estavam lá.  Foi a gota d’água para os revoltosos praguejarem contra os donos da Richmond a tarde toda, com transmissão ao vivo pela tevê. O fuzuê até que surtiu efeito e o ministro do Trabalho designou uma secretária para cuidar do caso. Só aí o grupo descobriu que a Richmond havia sido vendida por nove milhões de dólares a um grupo de investidores que planejavam abrir ali uma loja da Nike.

Dispostos a por panos quentes na confusão, os novos donos comprometeram-se a negociar o pagamento das indenizações trabalhistas e os salários de agosto. Um milhão de pesos foram depositados na conta dos funcionários e às 23h o acordo estava assinado. No dia seguinte, os 700 mil pesos restantes foram pagos, quitando de vez a dívida. “Ainda me pergunto por que não nos avisaram, por que nos enganaram depois de tanto tempo?”, perguntou-se Angel, que nunca mais teve notícias dos antigos chefes. “Nem quero ter”, emendou, convicto.

Luis Alberto Angel deu-se por satisfeito com a indenização de 300 mil pesos que recebeu. Viúvo há 17 anos, ele ainda mora de aluguel com os quatro filhos e pretende usar o dinheiro para comprar uma casa. Só não vai se aposentar porque, aos 57 anos, ainda lhe faltam oito para completar o tempo mínimo de serviço. Pretende retomar o ofício assim que voltar das férias em San Juan, sua cidade natal.

Nos tempos áureos, o garçom chegou a ver o cantor de tango Edmundo Rivero desfilando suas gravatas supercoloridas pelo salão de jogos e o velho Borges já cego tomando chocolate quente em companhia da mãe. Mas Angel também foi feliz nos últimos anos. Depois da desvalorização do peso, acostumou-se a atender as hordas de brasileiros que tomaram Buenos Aires de assalto. “Eles sempre queriam tirar foto com os garçons e trocar as batatas por arroz”, recorda-se. Para a clientela recente, a troca da confeitaria por uma loja de tênis não será motivo de grande pesar – pelo contrário.

O sorriso indefectível no rosto redondo de Angel não é exatamente o que se espera de alguém que acabou de perder um emprego de quatro décadas. No final das contas, raciocinou, foi melhor ter perdido o emprego no susto. Se soubesse de antemão do fechamento da casa, teria passado os últimos dias como o cronópio de Júlio Cortázar que, quando ficava triste, ia à Richmond molhar suas torradas em lágrimas naturais.

Carol Pires

É jornalista, roteirista, colaboradora do New York Times e colunista da Época online. Foi repórter da piauí de 2012 a 2016

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